
“Um braço” foi o codinome que perdurou na legião dos ouvintes dos programas em umbundu da Rádio Benguela. Tornou-se o símbolo, a senha, a braçadeira identitária do Fã Clube de todos quanto se reviam no Projecto “Omenle Yocinjomba” (manhã de festa) que depois evoluiu para “Ocinjomba Cokoviteketeke” (festa da madrugada).
A morte de Venâncio César Kangwe que também assinava como Venâncio Mwandji no semanário Cruzeiro do Sul veio reavivar as memorias de um tempo de dedicação investigativa, profissional e patriótica sob todos os riscos a espreita.
A Língua Umbundu era a sua casa de arte. A casa de sacrifício, de paixão e de doação. Dirigiu a secção de língua umbundu da Rádio Benguela por mais de 20 anos. Sempre inovando e desafiando a perfeição. Tinha autoridade no que fazia. O bom do Mwandji era irrepreensível até na sua estrondosa voz.
Fiz uma breve varredura nas redes sociais e retive as seguintes descrições e declarações sobre o César:
1 – “Falava como sentia as coisas. Por isso, também cantava tocando sensibilidades”, Dr. José Sessa Dias, ex-director da Educação.
2 – “Por razões de segurança – recordo que estamos nos anos 90 – o azulinho da rádio não estava autorizado a circular, em horários noturnos, pelos becos do bairro da Kalomanga, onde vivia o César. Ouvi, por várias ocasiões, as reclamações do radialista, que descrevia a situação como arriscada e muito perigosa. Mas, aqueles eram os factos da época. Ao César Kangwe não restava, então, outra solução, se não a de ir trabalhar de bicicleta, irrompendo, por conta e risco pessoal, em plena madrugada, o perímetro Calomanga/Radio Benguela”, Alexandre Lucas – jornalista e ex-director da Comunicação.
3 – O escritor Gociante Patissa descreve, no seu blog, César Kangwe, como a maior referência do “Drama Radiofónico” cuja estaleca sociocultural do seu trabalho gerou profundo impacto na valorização das línguas nacionais.
“Trovador, compositor, guionista, locutor, actor de drama radiofónico de expressão Umbundu, o filho da Ganda ficou conhecido pelos episódios de “Cimbanda Kawele – haeye oloha, haeye osakula”, “Quem cacó ndaqui”.
Através das radionovelas retratava-se em tom satírico as peripécias na coesão social de um país ainda novo, com um mosaico diverso que se tentava adaptar ao modo de vida na cidade.
“Kangwe e a sua equipa produziram durante duas décadas o que representa, sem sombra de dúvidas, a mais alta referência social e antropológica”, escreveu Gociante Patissa no seu testemunho de tributo ao César Kangwe.
E subscrevo que era um fenómeno de audiências e magnetismo digno de estudo sociológico, colocando Benguela e arredores acordados com rádio-receptor debaixo do braço entre as 5h00 e as 7h00 da manhã.
Por culpa da minha formação em linguística partilhei com ele e assumimos desafios que revolucionaram a forma de fazer rádio tomando sempre em perspectiva que as línguas nacionais são a Número 1 da nossa antropologia.
Um destes desafios, bem sucedido, foi a introdução de jornais falados bilingue (português/umbundu) nos serviços noticiosos principais da Rádio Benguela.
A experiência extrapolou as fronteiras de Benguela e do país. Moçambique, com uma estrutura linguística similar a de Angola, abraçou a ideia e implementou nalgumas das suas províncias.
Levei o César (Venâncio Mwandji) ao Projecto Cruzeiro do Sul para assinar uma coluna semanal em umbundu. Ganhou corações e conquistou leitores assíduos como o Dr. José Carlos Gomes do Porto do Lobito. “Lilas, porque que o Mwandji não escreveu esta semana?”, interrogava-me, sempre, Carlos Gomes.
Em 2006 quando me propus a produzir uma reportagem sobre “O valor do morto na cultura Ovimbundu”, o suporte e a contribuição do César e do Miguel Arcanjo foram fundamentais. Diria, decisiva. E a reportagem acabou por ganhar o 6º Prémio de Jornalismo Club de Imprensa de Benguela.
Fizemos excursões no Cavaco, Ganda, Cubal e Luena/Moxico onde levamos “Ocinjomba Cokoviteketeke” para vincar o papel social da radio na educação e correcção de comportamentos, com aquelas sátiras picantes que só ficam doces e expressivas quando ditas em umbundu.
No Cubal, sob comando do director Carlos Gregório, Ocinjomba roubou audiência à um comício do MPLA. O povo-ouvinte não arredava o pé da Estação do CFB onde fizemos a emissão.
A voz possante, a sátira adocicada, a disposição e a energia do César e Agostinho Tropa. Os noticiários produzidos pela Paula Fernandes, Santos Junior e Artur Fortunato.
O desporto pincelado por Domingos Januário e Adolfo Manuel, com as mãos magicas de Pilartes Congo e Nivaldo Marques, quase que colocaram à guilhotina a cabeça do director Gregório.
É a força e o poder da rádio em unir pessoas. Era tamanha curiosidade em conhecer de perto os artistas da rádio que acabamos por abocanhar o dia todo na Estação do Cubal.
Ocinjomba tinha, na altura, uma legião de patrocinadores competitivos que cresceu para o Fã Clube do Programa, com estatutos próprios e que tinha/tem na liderança Pedro Wanandumbu e Pedro Largo.
Venâncio César Kangwe era o “Rei do Ocinjomba” com a sua “Tropa de Choque”. E sonhava alto. Queria expandir a fusão do seu gênero musical com os do Zimbabwe e do Kwazulu Natal na África do Sul. Começamos timidamente a trabalhar no pré-projecto mas veio a Covid-19 e baralhou todas as contas.
A sua marca e o seu legado serão sempre preservados como plataformas de aprendizado e do bem fazer rádio com arte e mestria. Aos estudiosos da sociologia cultural e da antropologia, têm matéria bastante para estudos comparados, teses e tertúlias.
UM BRAÇO CELESTIAL, VELHO MWANDJI…
*Jornalista