Os bairros esquecidos e a ganância dos administradores — Waydombinda Cikale
Os bairros esquecidos e a ganância dos administradores — Waydombinda Cikale
bairro namibe

Moçâmedes é um município que carrega uma história rica e um potencial imenso, sobretudo após o alcance da paz em Angola. O crescimento demográfico e geográfico da cidade deveria vir acompanhado de um desenvolvimento urbano equilibrado, com espaços que promovam o bem-estar social, a convivência comunitária e o lazer saudável. No entanto, a realidade dos bairros periurbanos é outra: falta quase tudo — menos o esquecimento.

Ao longo dos últimos anos, nenhum dos administradores municipais que passaram pela gestão de Moçâmedes demonstrou verdadeira preocupação com a criação de zonas de lazer, parques infantis ou praças públicas acessíveis nos bairros.

O espaço público, que deveria ser o coração do convívio social, foi simplesmente ignorado. As crianças não têm onde brincar, os jovens não têm onde praticar algumas modalidades Desportivas, e os mais velhos não têm sequer um banco à sombra onde possam descansar e conversar.

Após o fim da guerra, o primeiro bairro de expansão urbana foi o 5 de Abril, hoje densamente habitado, mas sem nenhuma praça pública ou zona de lazer.

Com o tempo, outros bairros foram surgindo — Valódia II (conhecido como Bagdade), Belavista, Boa Esperança I, II e III, Saydi-Mingas II e tantos outros — todos com o mesmo destino: crescimento sem dignidade urbana, sem parques infantis, sem uma única praça onde a comunidade possa se reunir.

As poucas reservas de terreno que existiam desapareceram aos poucos, consumidas por uma ganância desmedida que alimenta os mesmos hemiciclo de sempre dentro da administração local.

Hoje, para se sentar numa praça pública com sombra e bancos, um morador dos bairros periféricos precisa deslocar-se até zonas construídas na era colonial, como Espírito Santo, Saydi-Mingas I, Avenida Mondlane ou no Mandume.

O irónico — e doloroso — é que as praças herdadas do colono permanecem, enquanto os espaços públicos pós-independência desaparecem no rastro da especulação fundiária.

O que se vê, em contrapartida, é a expansão de bairros marcados por um urbanismo caótico, desprovido de sensibilidade humana e compromisso social.

Essa ausência de espaços de lazer não é um acidente ou mero descuido — é reflexo de uma política urbana guiada pelo interesse privado e pela mercantilização do solo urbano.

De forma cada vez mais visível, a venda indiscriminada de terrenos tem enriquecido certos grupos de poder dentro da própria administração local.

Processos de loteamento e ocupação de terrenos são frequentemente conduzidos sem transparência, sem critérios urbanísticos e, pior ainda, sem o envolvimento honesto das comunidades afectadas.

As auscultações públicas, quando ocorrem, são muitas vezes apenas de fachada, um teatro para legitimar decisões que já estão tomadas entre quatro paredes.

A ganância substituiu o planeamento. A especulação imobiliária sobrepôs-se ao direito ao espaço público. Os bairros deixaram de ser territórios de dignidade para se tornarem zonas periféricas, abandonadas e sem identidade urbana.

Enquanto os bairros forem esquecidos e a ganância for a bússola da administração, Moçâmedes continuará a crescer para uns poucos e a definhar para muitos.

A cidade será cada vez mais um palco de desigualdades, onde as decisões são tomadas com base no lucro e não na justiça, e onde a voz do povo é ignorada em detrimento de interesses obscuros.

Mas é preciso lembrar que uma cidade não se mede apenas por estradas e edifícios, mas pela dignidade com que trata o seu povo. E dignidade também é ter onde brincar, onde descansar, onde conviver. Uma praça pública, um parque infantil ou uma zona de lazer não são luxo — são expressão concreta do direito à cidade.

Chegou a hora de interromper esse ciclo de silêncio e omissão. Chegou o momento de exigir uma gestão urbana que pense nas pessoas, que respeite os bairros, que valorize o espaço público como bem comum.

Os moradores não podem continuar a ser apenas estatísticas eleitorais ou peças de um discurso vazio de “proximidade”. É hora de devolver Moçâmedes ao seu verdadeiro dono: o povo.

Porque sem povo, não há cidade. E sem justiça urbana, não há futuro digno para ninguém.

*Activista cívica

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