Os pequenos-grandes gestos (também) são importantes – Adebayo Vunge
Os pequenos-grandes gestos (também) são importantes - Adebayo Vunge
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A última semana ficou indubitavelmente marcada pelo pedido de desculpas da ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, a pretexto das recentes investigações de funcionários da AGT, envolvidos em situações de inconformidade que resultaram em processos-crime, promovidos ou denunciados pelo próprio Ministério das Finanças.

O abalo social foi ainda maior face às notícias que lhe sucederam de situações com valores e grandezas ainda maiores ao nível do Instituto de Gestão das Bolsas de Estudo e denuncias públicas, de irregularidades também no Ministério do Ambiente.

Aqui está então a razão por que o pedido de desculpas da ministra Vera Daves de Sousa causou algum estrondo, embora muito aplaudido porque, não sendo propriamente uma novidade, é um gesto assinalável e exemplar que revela humildade, responsabilidade e seriedade por parte de quem gere as nossas finanças públicas.

Um pedido de desculpas por erros políticos e de gestão, com responsabilidade directa ou de terceiros, mas com dependência da liderança, não é uma situação nova em termos políticos.

Digamos até que é uma prática comum que só enobrece e engrandece quem age nesses termos, na medida em que é a res-pública, ou seja, a coisa pública, que no final do dia, está em aqui em causa.

Neste sentido, um pedido de desculpas visa, sem dúvidas, recuperar a confiança dos cidadãos, em particular dos contribuintes que se viram assim traídos em relação ao que deveria ser o final último da arrecadação de receitas do Estado, agravado ao facto de estarmos a viver um momento particular, em que como diz a própria ministra Vera Daves de Sousa, todos os kwanzas contam, contam para o Estado, mas também para quem paga hoje os seus impostos.

Não despropositadamente, trago aqui também à liça, os exemplos de Angela Markel que em 2021 pediu desculpas públicas aos alemães pelo facto de ter levado o confinamento da Alemanha para um extremo que resultou num asfixiar da economia, e como se vê, hoje, um dia depois das eleições no país com a maior economia da zona Euro, as consequências ainda se sentem e a economia se não colapsou, está numa paralisia assinalável.

Não sem espanto, vemos pelo mundo exemplos de Barack Obama (após um ataque dos EUA, em 2015, atingir um hospital da ONG Médicos sem Fronteiras, no Afeganistão, matando inúmeros civis), Tony Blair (pela maneira como a invasão ao Iraque foi conduzida, mas não por remover Saddam Hussein) ou ainda Bill Clington no caso Monica Lewinsky e o Papa Francisco a propósito dos abusos históricos de clérigos católicos contra menores.

Esse feedback pode ser visto por alguns como sendo um mero exercício de taticismo político, mas a verdade é que é ou foi um feedback essencial no sentido da afirmação destas lideranças, encontrando sustentação filosófica em pensadoras como Hanna Arendt, para além dos fundamentos religiosos, éticos e morais das sociedades, ainda mais no mundo contemporâneo.

Eu diria, que o exemplo do Presidente João Lourenço, no acto de constituição da Civicop, por todos os crimes ocorridos em Angola no pós-independência, é, sob esse prisma, o caso cintilante entre nós.

O exemplo de Archer Mangueira, em 2017, e na altura ministro das Finanças, pelo facto do Estado não ter conseguido pagar os salários da função pública, relativos ao mês de Dezembro, em tempo próprio.

A situação repetiu-se com Vera Daves de Sousa e o ministro de Estado José de Lima Massano, em meados de 2024. A situação agora, pode-se dizer é mais grave no quadro duma política geral de combate à corrupção, promovida pelo Presidente João Lourenço.

Pode-se até assumir a crítica de que há suspeitas de selectividade. A verdade, porém, é que alguma coisa começa a ser feita. Há coragem política para trazer o assunto às barras da justiça, com todos os riscos políticos e reputacionais que essa decisão acarreta.

Do meu ponto particular, mais válido é este pedido de desculpas, na medida em que, para além do pedido de desculpas de per si, a ministra e o ministério enunciaram uma série de medidas que passam por implementar auditorias (internas e externas a luz dos padrões e boas práticas internacionais no sistema financeiro) e uma revisão dos manuais e sistemas de controlo organizacional, conferindo maior robustez e resiliência à sua gestão e ajudando, ao mesmo tempo, a prevenir, num contexto em que, como todos sabemos, o nosso tecido social se encontra desvalorizado, como quem diz, numa gritante ausência ou assustadora perda de valores éticos e morais.

A corrupção entranhou o ADN e visível em pequenos comportamentos do nosso quotidiano. Reconhecer, portanto, a culpa e corrigir é o caminho.

*Jornalista

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