
A Palasa Dance Company apresenta, nos dias 13, 14 e 15 deste mês, às 19h00, na Casa das Artes, no Talatona, em Luanda, a segunda temporada do mais recente espectáculo de dança contemporânea, denominado “Itanda”, com base na história trágica da zungueira Juliana Jacinto Félix, conhecida como “Juliana Cafrique”, em 2019.
A jovem, de 28 anos, foi assassinada por um agente da Polícia Nacional, na Avenida 21 de Janeiro, bairro Rocha Pinto, em Luanda, e a sua história de vida serviu como pano de fundo do espectáculo “Itanda”, em homenagem a todas as mulheres batalhadoras.
“Itanda” (palavra na língua nacional kimbundu, que se significa praça, em português), é um espectáculo dirigido e coreografado por Aneth Silva, que teve a estreia no dia 2 de Julho do corrente ano.
O espectáculo é encenado por nove bailarinos e reflecte sobre a importância do mercado informal para a sociedade. Uma actividade que se tornou base para o sustento de grande parte das famílias angolanas, tendo as mulheres um papel fundamental neste processo.
Segundo a coreógrafa Aneth Silva, “Itanda” traz ao palco as expressões de um cenário emblemático reconhecido pela grande maioria dos angolanos. A beleza da praça, disse, vem traduzida nas gírias, no jeito de falar, de andar e está na expressividade do gargalhar, nas estigas mais comuns e no vestir característico e identitário dos angolanos.
Aneth Silva explicou que esta é, também, mais uma oportunidade de mostrar a praça como um símbolo da resiliência dos angolanos. ” É um espectáculo que procura trazer à reflexão, uma força que vem do ventre e representa o solo fértil desta terra que ultrapassa as barreiras do possível”, argumentou.
Explicou que a companhia de dança contemporânea Palasa já montou três espectáculos desde a fundação em 2018, com nove temporadas e 24 sessões entre Luanda e África do Sul.
Os resultados
Em relação aos primeiros espectáculos, principalmente, depois da primeira temporada, a coreógrafa disse que tem recebido um feedback positivo. Exigente consigo mesma, Aneth Silva acredita que sempre pode fazer um pouco mais. “Ainda hoje, as pessoas continuam a falar sobre os vários momentos do espectáculo. As mesmas pessoas falam comigo de situações diferentes que vão ocorrendo durante o desenrolar do espectáculo”.
Realçou que existe muita gente que pretende assistir ao espectáculo para poder tirar as suas conclusões. Nesta fase, do ponto de vista técnico, disse, os ensaios têm sido em torno das falhas das edições passadas, procurando melhorar as movimentações, figurino, as mensagens transmitidas pelos bailarinos e as funções de cada elemento dentro e fora do espectáculo, de maneira que quem for assistir consiga, naturalmente, distinguir de forma clara o papel de cada personagem.
Outro aspecto referenciado para o sucesso do espectáculo de dança, adiantou, está relacionado com a qualidade e tipo de luzes a serem utilizadas para facilitar a compreensão do público em determinadas etapas do espectáculo. “Queremos que determinadas cenas sejam melhor percebidas durante a realização do concerto. Estamos a procurar ver o que pode ainda ser melhorado nos aspectos técnicos para que nada falhe”, justificou.
De acordo com Areth Silva, o enredo do espectáculo é inspirado na história trágica da zungueira Juliana Cafrique, morta durante a “Operação Resgate”, em 2019.
Debate público
Quando a tragédia aconteceu, lembrou, ficou a analisar como trazer um tema tão sensível a debate público, acrescentando que a peça, de intervenção social, procura fazer uma reflexão sobre os vários aspecto do quotidiano, em que se destacam o emponderamento feminino e a mulher vendedora.
Os mercados, querendo ou não, disse, continuam a ser locais frequentados por pessoas dos mais variados estratos sociais. “É um assunto que precisa de ser discutido, principalmente, por envolver pessoas de poucos recursos financeiros que, atravessam várias questões de vulnerabilidade, mas continuam a lutar pela sobrevivência. Definiu as zungueiras como mulheres resilientes, características que atribui aos angolanos. “Estão susceptíveis a diversos tipos de situações, mas no fim do dia, elas dançam e sorriem, através das mais diferentes manifestações socioculturais.”
Para Areth Silva, deve-se olhar para esse seguimento da sociedade, não apenas como pessoas que criam entraves ao desenvolvimento harmonioso das grandes metrópoles, mas como espaços que promovem a cultural do país. “Muitos estilos musicais, como o folclore e o próprio kuduro, têm a sua produção nos mercados, por isso, devem ser vistos como espaços importantes de inclusão social”, destacou.
Defendeu a criação de melhores condições a essa franja social que precisa de ser levada em consideração na implementação dos programas de governação, no sentido de se proporcionar melhores condições de trabalhos às zungueiras.
in JA