
Li “As 48 Leis do Poder”, de Robert Greene e Joost Elffers há muitos anos, numa altura em que o meu foco, em termos de leitura, incidia sobre as obras literárias, técnicas e didácticas. Antes disso, um amigo havia-me dito que o livro é uma espécie de técnicas para uma vida contrabalançada, demonstrações de poderes e de revolução política.
Quem lê Robert e Joost de acordo com este velho amigo, torna-se propenso a criar novos paradigmas.
Eu sempre pensei que os pensamentos sobre poder, destes autores, fossem extremamente radicais. Hoje, compreendo que não existe pensamentos radicais, tudo está dependente do interesse, beneficio, vantagem e, sobretudo, do contexto.
Apesar dos pesares, a primeira lei parece ser objecto de consenso, consagra o seguinte:
Lei 1 “não ofusque o brilho do mestre”. No corpo desta lei estão expostas as seguintes advertências: “Faça sempre que as pessoas acima de ti se sintam confortavelmente superiores. Querendo agradar ou impressionar, não exagere exibindo os seus próprios talentos ou poderá conseguir o contrário – inspirar medo e insegurança. Faça que os seus mestres pareçam mais brilhantes do que são na realidade”.
O brilho é sempre sinônimo de poder e de afirmação, as pessoas por natureza têm sentimento de invídia, ninguém suporta estar sob direção de outrem, ninguém quer ser dirigido, ninguém aceita que o seu subordinado seja mais inteligente que ele. Isso provoca desconforto por parte, de quem tem mais poder.
Esta visão é posta pelos autores nesta primeira lei: “Todos têm as suas inseguranças. Quando você se expõe ao mundo e mostra os seus talentos é natural que isso desperte todos os tipos de ressentimentos, invejas e outras manifestações de insegurança. E por isso defendem: “brilhar mais do que o mestre talvez seja o maior erro”.
Até aqui julgamos ser normal, contudo, a lei 2 dispara de maneira insolente: “Não Confie demais nos amigos. Aprenda a usar os inimigos”. Parece ser uma apologia de crédito aos inimigos em detrimento dos amigos.
Os autores acentuam, no desenvolvimento desta norma, com olhar a expressar um enorme contraceno: “Cautela com os amigos – eles o trairão mais rapidamente, pois são com mais facilidade levados à inveja. Eles também se tornam mimados e tirânicos”. Robert e Joost avaliavam os tipos de amigos e inimigos de há várias décadas.
Embora haja certas ligações de comportamento e atitude de amigos e inimigos de hoje, o pensamento destes autores deve ser visto como objecto de ponderação. Robert e Joost, sabiam que o cérebro e o sentimento das pessoas transcendem às gerações. Para eles as pessoas pensam e sentem da mesma maneira independentemente da época.
Por isso, para qualquer período se alguém quiser alcançar desígnios importantes, sugerem contratar inimigo que abrandou as suas raivas e que possa apiedar-se, prosseguem: “contrate um ex-inimigo e ele lhe será mais fiel do que um amigo, porque tem mais a provar. De facto, você tem mais o que temer por parte dos amigos do que dos inimigos”. Para os que não têm inimigos eles extrapolam: “Se você não tem inimigos, descubra um jeito de tê-los”.
A lei 3 é outra das que parece uma norma contraproducente, mas que conserva uma certa técnica favorável para vida. Observa: “oculte as suas intenções”. Este princípio visa surpreender as pessoas para se colher bons frutos, ressalta:
“Mantenha as pessoas na dúvida e no escuro, jamais revelando o propósito de seus actos. Não sabendo o que você pretende, não podem preparar uma defesa. Leve-as pelo caminho errado até bem longe, envolva-as em bastante fumaça e, quando elas perceberem as suas intenções, será tarde demais”.
A lei 6 sugere apresentar-se de modo quase sacrificante; “chame a atenção a qualquer preço”. Já a 11 afirma: “aprenda a manter as pessoas dependentes de ti”. A 14 diz que:” banque o amigo. Aja como espião”.
Em minha opinião o auge da obra “As 48 Leis do Poder” está na lei 15 que desata corajosamente:” aniquile totalmente o inimigo”. E justifica de modo combativo: “Todos os grandes líderes sabem que o inimigo perigoso deve ser esmagado totalmente. Se restar uma só brasa, por menor que seja, acabará se transformando em fogueira”.
Finalmente, a 48 recomenda imprevisibilidade que no fundo é uma forma defensiva, assevera: “evite ter uma forma definida”. Contudo ela se justifica: “Ao assumir uma forma, ao ter um plano visível, você se expõe ao ataque”. Os prefaciadores da edição 2000 desta obra consideram ser um “manual das artes da dissimulação”.
O livro em análise é uma inspiração de pensamento de ilustres estrategistas da história da humanidade como: Sun-Tzu, Bismark, Gracián e tantos outros.
“As 48 Leis do Poder” é um livro que alanceia várias sensibilidades, princípios, afronta a moral e descortina realidades; é uma obra de exposições enérgicas, animadas, inverdadeiras e verdadeiras, viradas à época de reis, imperadores, príncipes, duques e de outras pessoas poderosas. Escrito com bravura social e intenções políticas.
Seu aproveitamento deve ser sobre o princípio de acolhimento de benefícios colectivos, interesses estaduais, vantagens socialmente concretas e ao signo de ponderação. As normas gerais das literaturas aconselham que os livros polémicos ou sensíveis devem ser compreendidos de acordo com a sua época e a sua aplicação na vida prática conforme a sugestão das circunstâncias. É o que acontece, por exemplo, com o maior livro da humanidade, a Bíblia.
*Secretário-Geral da Brigada Jovem de Literatura de Angola (BJLA)