Podem as nossas empresas obter financiamento na bolsa de Luanda? – Adebayo Vunge
Podem as nossas empresas obter financiamento na bolsa de Luanda? - Adebayo Vunge
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Actualmente, as operações da BODIVA têm vindo a ganhar grande expressão, principalmente depois das emissões dos bancos BAI, Caixa Geral Angola (BCGA), da seguradora ENSA e da própria BODIVA.

Há fortes expectativas que o interesse cresça ainda mais em 2025 com as operações dos bancos BFA e Standard, bem como da nossa maior companhia de telefonia móvel, a UNITEL. Antecipando desafios, não é dispiciendo pensar-se também numa associação das empresas emitentes.

No final do dia, são principalmente activos que o Estado liberta, como forma de estimular e dinamizar o mercado de capitais, mas há, entretanto, uma preocupação e trabalhos em curso para despertar o interesse de emitentes puramente do sector privado, o que será um sinal importante para este segmento do mercado que, em condições normais e nos mercados mais pujantes, lideram os índices e oferece inúmeras soluções e produtos financeiros que geram grande rendibilidade para os participantes do mercado.

Na fase actual, o nível de maturidade revela uma curva de aprendizagem em ascensão, esperando-se, por isso, que o número de empresas efectivamente elegíveis venha a crescer uma vez que, embora os requisitos sejam complexos, não são obviamente impossíveis, o que colocaria as empresas angolanas ou a actuar no mercado angolano com um patamar de maturidade maior, que permita visualizar uma mudança de paradigma, passando as empresas para sociedades abertas.

Andrew Grove é o fundador do Intel e tem a este propósito uma frase interessante: “Uma empresa é um organismo vivo. Métodos têm que mudar. Foco tem que mudar. A soma total dessas mudanças é a transformação”.

Esta mudança de paradigma que se pede às empresas no seu caminho para a bolsa abarca aspectos cruciais como as questões de governança, robustez dos documentos de relato financeiro, para além dos requisitos regulatórios e a promoção de uma cultura de transparência.

As nuances das operações financeiras dessa natureza exigem uma grande preparação das empresas ou, como quem diz, dos seus quadros.

Ali onde não existe, encontramos cada vez maior expertise local das correctoras, firmas de consultoria, contabilistas e analistas financeiros e escritórios de advogados locais com capacidade de atender e dinamizar essas operações.

O mesmo racional, curiosamente, é válido, inclusive para empresas de consultoria de comunicação na medida em que é importante se criar uma narrativa que alimente uma boa imagem dessas empresas, sua actividade e dos seus activos.

Quando temos uma boa historia que o mercado entende ou aprecia, naturalmente se consegue mitigar a percepção do risco para os investidores.

A boa gestão, procedimentos claros em matéria de reporte financeiro e compliance, a transparência e a publicidade dos seus actos, são, portanto, elementos essenciais para o sucesso das operações de abertura de capital, permitindo que as empresas consigam, assim, obter recursos para dinamizar a sua actividade e criar robustez dos seus fluxos financeiros.

O ABCD, tomemos como exemplo o nome de uma empresa fictícia que actua no ramo das pescas e pretende dinamizar a sua actividade; o EFGI é uma empresa do ramo da construção e do imobiliário que pretende dinamizar um projecto de casas para a classe média; o JKLM é uma empresa agropecuária que pretende avançar com o seu projecto de produção de soja para acudir as suas necessidades internas para além dum determinado mercado; o NOPQ é uma industria de produção de calçados que pretende se lançar na produção de uma nova gama de calçados com procura internacional.

Poderíamos passar um dia inteiro a identificar situações empresariais, com um grande apetite, mas ao qual nem sempre o sistema bancário consegue atender devido aos factores que se prendem com as burocracias estatais e do sistema, como é, por exemplo, o bicudo problema das garantias.

É, por isso, importante fomentar-se um maior conhecimento dos produtos e soluções disponíveis no nosso mercado de capitais, vis-à-vis o que é oferecido pelo sistema bancário, destacando-se, entre outros, a vantagem de captação de recursos sem gerar necessariamente mais endividamento, portanto, não se colocando o tema dos juros e amortizações.

Em contrapartida, há um efeito de liquidez imediata para as empresas e accionistas, decorrente da venda das acções ou emissão de obrigações.

Convém referir que a aprendizagem sobre o mercado de capitais e sobre o funcionamento das operações em bolsa requer também um processo orientado e consequente de formação sobre estas matérias, o que pode ser conseguido, mormente, na iniciativa da Academia do Mercado de Valores Mobiliário (AMVM), cujos cursos pretendem capacitar e certificar os quadros que podem operar regularmente neste mercado regulamentado.

É preciso, desse modo, que as empresas, mesmo as mais pequenas, as consultoras, as correctoras, os brokers, os intermediários, os advogados e todos os potenciais intervenientes neste mercado percebam a oportunidade à horizonte e se preparem para o futuro que se avizinha, até para não serem surpreendidos pela intervenção e dominação de entidades e de especialistas estrangeiros, por falta de conhecimento e de expertise de profissionais nacionais.

Não pode acontecer o que aconteceu e acontece no sector do Oil and Gas onde a nossa ignorância e falta de iniciativa nos colocou, praticamente, de fora de um mercado de bilhões de dólares em serviços ao sector.

*Jornalista

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