Por um país para todos: Como se perde a Democracia? – Alexandra Simeão
Por um país para todos: Como se perde a Democracia? - Alexandra Simeão
Alexandra Simeao

Angola independente nunca foi tratada com amor. Ainda gatinhava e a intenção depressa mostrou a sua verdadeira natureza. As fintas para manipular Alvor. O 27 de Maio destruiu a essência da Pátria. Um genocídio é sempre uma hedionda marca na página da história que ninguém apaga.

Sobre as guerras provocadas pelo egoísmo da gula camuflado por intenções obscuras, que nunca serviram a pátria, fomos ouvindo os argumentos de todos os belicistas sem que nada do que diziam fizesse sentido. E Angola viveu décadas de sofrimento, indefesa e impotente para cuidar de milhões de inocentes.

No decurso longo deste pesadelo e sem que as feridas fossem saradas e os rancores perdoados a democracia instalou-se de rompante. Todas as acções são consequências de actos anteriores.

Os velhos processos errados não podem resultar em novas acções que sejam capazes de construir uma nova realidade positiva. A democracia nasceu doente. Cheia de insuficiências. Cheia de gatilhos.

Mutilada pela ausência de um ideal cívico, princípios estruturantes e éticos, de uma visão patriótica esclarecida e honesta que pudesse criar um País para todos.

As eleições nunca foram justas. A independência dos três poderes nunca foi real. A liberdade de expressão foi sempre ameaçada e continua a ser. A perda da identidade nacional foi o resultado. Já não sabemos quem somos. Não temos ideologia. A nossa cultura perde-se todos os dias. As nossas línguas nunca foram valorizadas. O nacionalismo perdeu se nas intrigas palacianas.

A corrupção e os seus horrorosos efeitos contagiaram toda a estrutura do Estado e foram mais além, demolindo os valores éticos de milhões de cidadãos que copiaram os maus exemplos.

A cidadania e a qualidade de vida do cidadão foram desprezadas, desvalorizadas e tornadas relativas. Transformaram o país num inferno. E a oposição tornou-se conivente.

A democracia está em perigo. Está a ser destruída por si mesma, pelos eleitos que a manipulam, que lhe retiram a dignidade, que a desviam do seu mais elevado propósito, subvertendo as regras, os ideais e a lei.

É assim que se consolida o embrião das ditaduras. O mundo está cheio de “democracias” musculadas, autoritárias, que internacionalmente são reconhecidas, mas em nome de maiores interesses tornam-se toleráveis.

Apenas o Poder importa. Apenas o poder. Por mais desajeitada, inconsequente e trágica que seja a governação. Sim trágica.

Um governo que 48 anos depois da sua Independência, cheio de recursos naturais, não conseguiu cumprir a obrigatoriedade de dar ao seu povo duas refeições por dia não se pode orgulhar de nada.

A multiplicação dos pobres deveu-se à inação governativa, à ausência de visão das lideranças e de humildade institucional. Deveu-se, sobretudo à valorização do egoísmo. Uma governação movida pelo lucro pessoal está destinada a fracassar.

Hoje somos uma Nação adiada, a olhar para o que vai acontecer em 2030, quando formos 50 milhões de habitantes. Cada criança que nasce em Angola apenas encontra passado. Os mesmos problemas década após década, em tempo de paz. Desigualdade.

Uma escola parada no tempo, inútil. Políticas tóxicas corrosivas atraiçoaram o desenvolvimento do País. Estamos aquém de qualquer ideal. Os pobres morrerão pobres. Apenas 1% das crianças em Angola não são afectadas por nenhuma dimensão da pobreza (INE/UNICEF. 2018).

O povo que tem de ter um país que lhe permita ter direitos e que o proteja. O que está a acontecer entre nós já não devia ser aceite. Estamos a ser vendidos a retalho. Vendemos o porco e depois compramos o chouriço. Para acudirmos o povo vivemos de mão estendida à caridade internacional.

Apesar da resistência ao sofrimento ter sido a maior vitória do povo angolano, acredito que ela poderá também ser a sua derradeira desgraça, conduzindo-o até a um lugar de desespero extremo ou à sua própria destruição.

Angola é o Povo. Não é dos políticos.

*Ex-vice-ministra da Educação

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