
É já na próxima semana que o PRA-JA Servir Angola realiza o seu congresso constitutivo. E não há dúvidas que Abel Chivukuvuku será consagrado líder da formação pela qual vinha se batendo, desde Agosto de 2019, para que tivesse existência legal, depois de tentativas falhadas para que a mesma fosse reconhecida e lhe fosse permitida exercer actividade.
Em Outubro do ano passado o Tribunal Constitucional decidiu pela legalização do Partido do Renascimento Angolano – Juntos por Angola (PRA-JA), depois de, em Agosto de 2020, ter chumbado o projecto político, e, em Dezembro do mesmo ano, ter reiterado esse chumbo ao recurso interposto pela sua comissão instaladora, por considerar subsistirem dúvidas em relação a documentos apresentados.
Finalmente o PRA-JA reúne-se em congresso entre os dias 19 e 22 de Maio, num acto que vai marcar, efectivamente, a entrada em cena da formação política, pois vai eleger a sua direcção, vai dar a conhecer à sociedade como está estruturado, de que forma vai actuar e, em particular, o que tem em vista como programa/propósito.
O congresso vai também dizer-nos quais os principais rostos do PRA-JA Servir Angola e o papel político que cada um deles vai desempenhar. Ou seja, o trabalho de projecção da marca, da sigla PRA-JA, como entidade autónoma, com identidade própria, começa com a realização do congresso e com a definição das linhas orientadoras que dele sairão.
Será interessante ver e seguir como Abel Chivukuvuku e companheiros vão montar as peças. Mais do que isso, como vão traçar as balizas de actuação do projecto político, de modo a não ser visto apenas como mais uma formação partidária, serem os seus pontos de vista confundidos com os da UNITA e, em consequência, o PRA-JA Servir Angola correr o risco de ser apelidado de apêndice ou muleta da formação liderada por Adalberto Costa Júnior.
Inevitável é, pois, que na afirmação da sua marca, o PRA-JA Servir Angola procure implantar-se no espaço do eleitorado que existe entre o MPLA e a UNITA, tal como almeja fazer o partido CIDADANIA – Iniciativa para o Desenvolvimento de Angola, do ex-ministro das Finanças, Júlio Bessa, também legalizado pelo Tribunal Constitucional o ano passado, mais concretamente no mês de Julho.
Quer o PRA-JA Servir Angola quer o Cidadania vão ter de fazer prova de vida. Isso vai acontecer nas eleições gerais de 2027, mas a maratona começa agora.
Essa é uma situação a que, por regra, estão obrigadas formações político-partidárias de criação recente, portanto, sem currículo, sem histórico. Os resultados das eleições vão espelhar o peso que cada uma tem junto do eleitorado.
Para mostrar que tem vida própria, o PRA-JA Servir Angola tem o particular desafio de provar que tem capacidade de sobreviver fora da Frente Patriótica Unida (FPU) – uma construção do imaginário político sob o “guarda-chuva” da UNITA, liderada por Adalberto da Costa Júnior, para concorrer às eleições gerais de 2022 -, a que o seu mentor, Abel Chivukuvuku, se vinculou e para a qual arrastou a sigla mesmo antes da sua existência legal.
Na realidade a Frente Patriótica Unida foi um expediente que Adalberto Costa Júnior (UNITA), Abel Chivukuvuku (na qualidade de coordenador do projecto político PRA-JA Servir Angola) e Filomeno Vieira Lopes (Bloco Democrático-BD) encontraram para enfrentar as eleições de 2022, favorecer o partido do galo negro e obviar a constituição de uma coligação, que poderia ter como efeito a diluição do peso político da formação fundada por Jonas Savimbi.
O receio de essa “diluição” acontecer não é de hoje. Em Março de 2012 Abel Chivukuvuku oficializou a sua saída da UNITA para criar o partido Convergência Ampla de Salvação Nacional – Coligação Eleitoral (CASA-CE), arrastando consigo uma centena de militantes e tendo conseguido arregimentar algumas figuras políticas da oposição e partidos com pouco peso.
A formação logrou alcançar, no primeiro teste eleitoral, a 31 de Agosto de 2012, oito (8) lugares no Parlamento, tornando-se na terceira força política do país, superando o PRS (3) e a FNLA (2). Nas eleições de 2017 duplicou o número de assentos parlamentares, passando de 8 para 16.
Chivukuvuku, que foi afastado da CASA-CE em Fevereiro de 2019, na sequência de desinteligências internas, já mostrou que tem seguidores e é capaz de mobilizar para o seu projecto um bom número de eleitores. Desde que o político saiu da CASA-CE, a formação eclipsou-se.
O que os eleitores esperam ver, para poder comparar, é o que o PRA-JA e o Cidadania vão oferecer como programa de Governo diferente daquilo que são as propostas do MPLA e da UNITA.
Cada vez mais exigentes em relação às formações políticas, os eleitores esperam delas muito mais do que o simples desejo de ocuparem lugares no Parlamento.
As eleições gerais de 2027 podem vir a ser das mais disputadas na história do país, depois das realizadas em 1992 e em 2022.
*Jornalista