
O cancro do colo do útero continua a ser uma das principais causas de morte entre as mulheres em África, apesar de ser uma doença evitável. Todos os anos, milhares de mulheres perdem a vida devido à falta de acesso à vacinação, ao rastreio e ao tratamento precoce.
Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu um compromisso global para eliminar este tipo de cancro como um problema de saúde pública, definindo metas claras para 2030: aumentar a vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV), reforçar o rastreio e garantir o acesso universal ao tratamento. Angola tem dado passos importantes para alcançar este objectivo, mas ainda enfrenta desafios significativos.
O HPV é a principal causa do cancro do colo do útero e pode ser transmitido através do contacto sexual. Existem mais de 100 tipos deste vírus, mas os subtipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de cancro cervical.
A maioria das infecções por HPV é eliminada naturalmente pelo organismo, mas, em algumas mulheres, o vírus persiste e pode causar lesões que, se não forem detectadas e tratadas a tempo, evoluem para cancro.
A vacinação contra o HPV, disponível em vários países, demonstrou ser altamente eficaz na prevenção dessas infecções e, consequentemente, na redução da incidência do cancro do colo do útero, constituindo a prevenção primária.
O rastreio também desempenha um papel essencial na prevençãosecundária. Métodos como o exame de Papanicolau, a inspecção visual com ácido acético e o teste de ADN do HPV permitem identificar lesões pré-cancerosas antes de evoluírem para um tumor maligno.
No entanto, o acesso limitado a estes serviços em muitas regiões do país dificulta a detecção precoce, resultando em diagnósticos tardios e elevadas taxas de mortalidade.
A ampliação dos programas de rastreio e o reforço da capacidade dos profissionais de saúde são medidas fundamentais para garantir que mais mulheres sejam diagnosticadas e tratadas a tempo.
Em Angola, estão em curso esforços para introduzir a vacina contra o HPV no Programa Alargado de Vacinação, com um projecto-piloto em algumas escolas das 21 províncias. A vacinação de meninas dos 9 aos 12 anos será um marco essencial para a prevenção primária da doença.
Paralelamente, o país tem apostado no reforço da formação de profissionais de saúde, incluindo enfermeiros e agentes comunitários, para que possam realizar rastreios e encaminhar as mulheres para tratamento adequado.
A OMS tem apoiado a adopção de tecnologias inovadoras para o tratamento de lesões pré-cancerosas, como a ablação térmica e a crioterapia, que permitem intervenções rápidas e eficazes.
Estas estratégias, combinadas com a sensibilização da população e a eliminação de barreiras ao acesso aos serviços de saúde, são cruciais para reduzir a incidência e a mortalidade associadas ao cancro do colo do útero.
Embora os avanços sejam encorajadores, é necessário intensificar os esforços para garantir que a eliminação desta doença se torne uma realidade. O sucesso desta estratégia depende do compromisso das autoridades de saúde, da capacitação dos profissionais e do envolvimento da sociedade.
A vacinação deve ser promovida de forma massiva, os rastreios devem ser acessíveis a todas as mulheres e os tratamentos precisam de estar disponíveis de forma equitativa.
Neste Dia Mundial de Sensibilização para o HPV, é fundamental reforçar a necessidade de acelerar as acções para salvar vidas e reduzir desigualdades.
O caminho para a eliminação desta doença passa por um esforço conjunto entre governos, profissionais de saúde e a sociedade como um todo. A prevenção está ao nosso alcance e cada passo dado hoje representa um futuro mais saudável para as mulheres angolanas.
*Médica ginecologista e Oficial de saúde materna e infantil da OMS em Angola