Produção de alumínio em Angola acende debate sobre riscos ambientais
Produção de alumínio em Angola acende debate sobre riscos ambientais
JL e Zhang

A entrada em funcionamento do Parque Industrial de Alumínio da Barra do Dande, prevista para 27 de Dezembro deste ano, reacendeu o debate sobre o modelo de industrialização adoptado pelo Executivo angolano e os seus potenciais impactos ambientais e sociais.

O projecto, avaliado em mais de 200 milhões de dólares e localizado na Zona Franca de Desenvolvimento da Barra do Dande, na província do Bengo, é promovido pela Huatong Angola Industry, subsidiária do grupo chinês Hebei Huatong Wires & Cables Group, e promete gerar 1.200 empregos directos na fase inicial.

Segundo o Governo, o empreendimento integra-se na estratégia de diversificação económica e na ambição de transformar Angola num polo regional de produção de alumínio.

Durante uma audiência concedida pelo Chefe de Estado, João Lourenço, ao presidente da empresa, Zhang Wendong, a secretária de Estado para o Comércio e Serviços, Augusta Fortes, afirmou que “todas as condições estão criadas para a inauguração” e destacou “o empenho do Executivo na criação de infra-estruturas industriais modernas e sustentáveis”.

Contudo, o anúncio do projecto provocou fortes críticas de ambientalistas e jornalistas, que alertam para os riscos ecológicos e de saúde pública associados à instalação de uma fábrica de alumínio numa zona costeira densamente povoada.

O jornalista Jorge Eurico classificou o empreendimento como “um erro mortal” e “um crime ambiental”, afirmando que a fábrica “vai arrasar a flora e a fauna da Barra do Dande” e “destruir a maior fonte de crustáceos do país”.

Para ele, “os pescadores vão perder o seu sustento, as praias ficarão poluídas, e o Ministério do Ambiente, que já não reage à poluição com crude em Cabinda, dificilmente o fará na Barra do Dande”.

Jorge Eurico sustenta as suas críticas com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e estudos internacionais que apontam riscos associados à produção de alumínio, incluindo doenças respiratórias, renais e neurológicas em trabalhadores de fundições.

“Os países desenvolvidos estão a fechar fábricas de alumínio por causa da toxicidade e do alto consumo energético. Angola, mais uma vez, caminha na contramão”, criticou.

Em contraposição, o analista Adolfo de Matos reagiu ao texto do jornalista, acusando-o de alarmismo e “falta de rigor factual”.

Na sua resposta intitulada “Entre o progresso e o medo: o que está em causa no parque industrial do alumínio“, defendeu que “o alumínio, em estado sólido, não é tóxico” e que os riscos ambientais só se manifestam “quando não há controlo de emissões nem gestão adequada de resíduos”.

O mesmo argumenta ainda que o Ministério do Ambiente exige Estudo de Impacto Ambiental (EIA) para projectos desta natureza e que “não há, até ao momento, qualquer relatório técnico que comprove risco de contaminação atmosférica” na região.

Para o autor, o investimento deve ser visto como “uma oportunidade de desenvolvimento económico e criação de empregos”, desde que acompanhado de “medidas rigorosas de monitorização ambiental”.

Apesar das garantias oficiais, a polémica permanece. Especialistas e activistas insistem que não foram divulgados estudos de impacto ambiental, nem realizadas consultas públicas, como determina a Lei de Bases do Ambiente (Lei n.º 5/98).

Também não há informações claras sobre o origem da energia eléctrica necessária para o processo de electrólise do alumínio, uma das indústrias mais intensivas em consumo energético do mundo.

Críticos consideram ainda que a instalação de um complexo desta dimensão na Barra do Dande representa uma ameaça directa à pesca artesanal, às comunidades locais e à biodiversidade marinha, num território já afectado pela erosão costeira e pela pressão industrial.

“O Executivo deve esclarecer se esta aposta é dolosa ou ignorante”, frisou Eurico, exigindo “fiscalização rigorosa, estudos públicos e debate parlamentar”.

Enquanto o Governo celebra o investimento como símbolo de progresso e modernização, cresce o coro de vozes que vê no projecto mais um exemplo de industrialização sem sustentabilidade, onde o lucro e a imagem política se sobrepõem à protecção ambiental e à saúde dos cidadãos.

A poucos meses da inauguração, o Parque Industrial de Alumínio divide opiniões e levanta uma questão central: até que ponto o desenvolvimento pode justificar os riscos de um modelo económico que ainda ignora o custo ambiental das suas escolhas?

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido