
Pensar de forma diferente não deve ser visto como uma ameaça, mas como uma oportunidade para o fortalecimento da democracia e da nossa nação.
O pluralismo de ideias, defendido por John Stuart Mill em “On Liberty” (1859) é a base para uma democracia sólida. A verdade emerge e a sociedade avança quando estamos dispostos a confrontar as nossas ideias.
Contudo, aqueles que não compreendem essa premissa fundamental tornam-se obstáculos ao progresso, prejudicando o bem comum e a convivência pacífica entre os angolanos.
A verdadeira ameaça não está na diversidade de pensamento, mas nas atitudes de bajulação e oportunismo que enfraquecem o Estado e comprometem o bem-estar colectivo de todos.
A recente imagem que circula, que mostra a vice-presidente do MPLA, a secretária-geral da OMA e dirigentes da LIMA, representantes da UNITA, simboliza maturidade política e civilidade.
Este momento transmite uma mensagem clara: a política deve ser vista não como uma guerra entre inimigos, mas como uma disputa de adversários que partilham um mesmo propósito – o bem-estar da nossa sociedade. Como Aristóteles afirmava em Política (350 a.C.), a política deve ser uma busca constante pelo bem comum.
No contexto de Angola, quando pessoas de diferentes partidos ou correntes ideológicas se deixam dominar pela bajulação ou pelo sectarismo, colocam em risco a construção de um país mais justo e inclusivo, prejudicando a todos.
Infelizmente, há uma visão errada que vê os membros de partidos diferentes como inimigos. Este tipo de mentalidade enfraquece a democracia e impede o fortalecimento das nossas instituições.
Como Hegel explicava em “Fenomenologia do Espírito” (1807), é a partir do confronto de ideias e perspectivas opostas que se chega a um entendimento mais profundo e a uma evolução das instituições políticas.
A política deve ser um espaço de aperfeiçoamento contínuo, onde a diversidade de pensamentos enriquece a democracia, e não um campo de hostilidade.
Uma analogia simples pode ilustrar isso: o Petro de Luanda e o Primeiro de Agosto são adversários, mas não inimigos. Ambos têm o mesmo objectivo: o progresso do futebol e o prazer dos seus adeptos. As rivalidades existem, mas não se transformam em ódio.
O mesmo deve ocorrer na política: os partidos, apesar das suas diferenças, devem estar unidos em prol de um único objectivo – o bem-estar da sociedade e o desenvolvimento do país.
A verdadeira maturidade política exige que os angolanos compreendam que a nossa nação está acima de qualquer interesse partidário ou pessoal.
Esse patriotismo deve ser alimentado pelo respeito à diversidade de ideias, como defendia Karl Popper em “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (1945).
Só conseguimos construir uma sociedade democrática e próspera quando há abertura para o debate, para a crítica e para a troca de ideias. E este é um princípio ainda mais importante em Angola, onde é preciso que a sociedade civil se torne mais robusta e activamente envolvida no processo de desenvolvimento, com um foco firme no combate à pobreza que ainda afecta milhões de angolanos.
Em tempos de polarização e antagonismos exacerbados, é fundamental cultivar a paciência, a capacidade de ouvir e reflectir. Como nos ensina Michael Sandel em “Justiça: o que é fazer a coisa certa” (2009), a democracia só será verdadeiramente saudável quando os cidadãos forem capazes de discutir as questões fundamentais da justiça social e da equidade.
E, em Angola, a maior questão de justiça é o combate à pobreza, que continua a ser um dos maiores inimigos do desenvolvimento. O papel da sociedade civil deve ser crucial para garantir que o debate seja mais aberto e voltado para a construção de soluções para os problemas mais prementes.
O campo da ciência política, assim como qualquer outro campo do conhecimento, só pode prosperar se for baseado na pluralidade de ideias e na inovação. Como explica John Rawls em “Teoria da Justiça” (1971), a justiça social deve ser o princípio que orienta todas as acções políticas.
No caso de Angola, isso significa que as diferenças ideológicas não devem ser usadas para dividir, mas para enriquecer a discussão sobre como garantir um futuro melhor para todos.
O diálogo aberto, inclusivo e voltado para a crítica construtiva deve ser a base da política angolana, especialmente se pensarmos no combate às desigualdades sociais e à pobreza.
Aqueles que veem as divergências ideológicas como fonte de inimizade estão, na verdade, a enfraquecer a democracia. Esse tipo de pensamento torna o debate um campo de guerra, e não um espaço de construção e aperfeiçoamento.
Como bem nos lembrava Norberto Bobbio em “O Futuro da Democracia” (1984), o diálogo e a conciliação são essenciais para a criação de uma sociedade realmente democrática.
*Docente universitário (ISCED do Uíge), filósofo-político, especialista e pós-graduado em Comunicação Política e no Sector Público, bem como em Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional