Quando o mercado vira palco eleitoral – Zacarias Pascoal Calungo
Quando o mercado vira palco eleitoral - Zacarias Pascoal Calungo
Mercado informal

Entrámos oficialmente no ciclo da pré-campanha para as eleições gerais de 2027. E, como manda o manual não escrito do poder em Angola, o MPLA por via do Governo, começa a revisitar temas que durante anos ignorou, reprimiu ou tratou com brutalidade administrativa, apenas para agora os reciclar como suposta sensibilidade social e capacidade governativa.

Um desses temas é a venda ambulante. Durante décadas, os vendedores ambulantes foram tratados como problema, como desordem, como ilegalidade a ser combatida. Foram perseguidos, humilhados, expulsos, tiveram mercadorias apreendidas, vidas desestruturadas. Sempre em nome da ordem, da estética urbana e da legalidade seletiva.

Agora, curiosamente em ano de pré-campanha, o mesmo poder que perseguiu, descobre subitamente a necessidade de organizar. Nada é inocente em política. Muito menos quando o Estado decide resolver problemas que ele próprio criou no tempo exato em que precisa de votos.

Há anos que nós, Libertários, temos sido claros em dizer: O mercado não muda, organiza-se. O Partido Liberal (PL) foi firme e pedagógico ao alertar que deslocar praças, empurrar vendedores para zonas mortas, longe do fluxo económico real, não é política pública é ilusão burocrática.

Mercado vive de circulação, de proximidade, de espontaneidade. Quem tenta domesticá-lo à força apenas cria mais informalidade, mais pobreza e mais conflito social. Mas eis que agora, quando a máquina Estatal entra em modo eleitoral, o discurso começa a mudar.

O problema? O mérito será mais uma vez capturado por quem controla o Estado, como se a ideia tivesse nascido no gabinete do poder e não na luta cívica, intelectual e política de quem sempre esteve do lado da liberdade económica.

Particularmente considero que este é um clássico do Marketing Político Autoritário: Reprime-se o problema, Ignora-se o alerta da oposição, Quando convém, copia-se o discurso, Apresenta-se como conquista do Governo. E espera-se que o eleitor esqueça o passado recente.

A incoerência estrutural do MPLA

O MPLA não mudou de visão sobre o mercado. Mudou de calendário. A lógica continua a mesma: O cidadão não é agente económico livre, é apenas objeto de gestão Estatal. A informalidade não é entendida como falha do Estado, mas como culpa do povo.

A solução não passa por liberdade económica, mas por controlo, enquadramento forçado e propaganda. O que vemos agora não é uma conversão ideológica, é uma encenação eleitoral. Porque se houvesse coerência, o Governo teria escutado antes, quando alertámos que reprimir não resolve.

Quando defendemos que organizar é diferente de expulsar. Quando dissemos que economia popular não se combate, potencia-se.

Aqui está a linha que separa o PL do velho poder. Para nós, o mercado é expressão da liberdade humana. Para eles, o mercado é ferramenta de controlo político. O PL não fala de vendedores ambulantes apenas em véspera de eleições.

Falamos porque acreditamos que sem liberdade económica não há dignidade, e sem dignidade não há desenvolvimento sustentável. Enquanto o MPLA usa o tema como peça de marketing, o PL apresenta-o como reforma estrutural: Menos repressão. Menos burocracia. Mais organização voluntária. Mais inclusão económica real.

Não precisamos fingir preocupação social em ano eleitoral. Entramos aqui ideologicamente. O eleitor precisa aprender a distinguir, que, o grande desafio para 2027 não será apenas escolher partidos.

Será distinguir discurso oportunista de convicção verdadeira. Quando o poder começa a falar a linguagem da liberdade, é prudente perguntar: Por que só agora? Por que não antes? E por que sempre com o Estado no centro e o cidadão na periferia? O mercado não se muda. Organiza-se.

E a liberdade não se promete em campanha, pratica-se com coragem política. É exatamente essa coragem que o Partido Liberal-PL representa. E é por isso que, apesar de tentarem apropriar-se do discurso, a verdade continua fora do controlo da máquina estatal.

*Analista político e social e consultor de marketing político

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