Quanto custa 500 kwanzas? – Kumuenho da Rosa
Quanto custa 500 kwanzas? - Kumuenho da Rosa
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Nunca uma nota de 500 foi tão falada e citada como a do Kwanza, desde há uns dias quando uma jovem e bonita apresentadora de televisão [Helka Guimarães] decidiu atribuir à nota de 500 kwanzas um valor aquisitivo, que só ela mesma foi capaz de atestar.

Ao afirmar que uma família de até 8 membros pode almoçar e jantar com 500 kwanzas, ela não só desafiou as leis da economia e da macroeconomia, mas também a própria lógica, pois, conhecendo-se minimamente o que uma nota de 500 kwanzas é capaz de servir como meio de troca de bens ou serviços, facilmente se conclui que essa afirmação tem algo de ilusória ou até irrealista.

Era de esperar que uma afirmação bombástica como essa, dita em cadeia nacional, fosse mexer com a sensibilidade de muita gente. Uns por considerarem um abuso à inteligência daqueles que até hoje foram incapazes de descobrir essa capacidade especial da nota de 500 kwanzas, outros porque sabem o que é, de facto, vergar a mola para conseguir ao menos uma refeição decente para a sua família.

Compreendo que a pessoa que fez tal afirmação, como qualquer um ser mortal, tenha tido, somente, um momento infeliz. Para não variar, o assunto virou meme e viralizou na internet e nas redes sociais, em particular.

O que considero bom nisso tudo, é a atitude da colega (considerem aspas, por favor) que, sabiamente, preferiu enterrar o assunto, deixando a falar sozinhos todos aqueles que, querendo tirar proveito de deslize, colocaram pra fora todo o seu fel e aversão à fama alheia.

Fez ela muito bem em evitar rebater o assunto ou tentar demonstrar algo que, a acontecer seria, sem sombra de dúvidas, uma das maiores façanhas de todos os tempos, talvez, apenas comparável com aquela que a história registou na aldeia de Caná, na Galileia, quando Jesus Cristo transformou água em vinho.

Mas, como não há bela sem senão, surgiram umas réplicas mal conseguidas de Albert Einstein, muito voluntariosos, tentando provar a teoria do valor milagroso da nota de 500 kwanzas. Um pouco de lucidez bastaria para, em vez de defender por defender, manifestar solidariedade para com a colega que teve apenas um momento infeliz.

Só que tem sempre alguém que não pode ver açúcar que lhe ocorre logo tomar chá. Alguém que não resiste em ficar quieto, no seu canto, e quer debitar opinião em qualquer disse-que-disse, expondo-se gratuitamente ao ridículo.

Com um discurso que mistura surrealismo e, quiçá, uma certa dose de iluminismo, defensores voluntariosos descobriram que num mundo à parte, numa Angola desconhecida para a esmagadora maioria dos angolanos, 500 kwanzas chegam sim, e até sobram, para duas refeições de uma família de oito membros.

A reação foi imediata, quase que automática. A reprovação generalizada com laivos de insatisfação e repulsa, só ajudou a transformar um pequeno deslize de uma profissional da comunicação, numa espécie de movimento nacional de protesto, do tipo “A Voz do Kwanza Clamando no Deserto” ou “Vamos Descobrir o Kwanza”, não o rio, mas a nossa moeda, que atravessa um momento difícil.

A actual conjuntura económica mundial não ajuda muito as economias dependentes de um só produto de exportação e que não produz tudo o que consome. Mas ninguém está de braços cruzados.

As famílias angolanas devem continuar a confiar nas nossas autoridades responsáveis pela gestão da política cambial, que vão fazendo pela vida para que, rapidamente, possamos ter o kwanza forte outra vez, mais robusto e com maior capacidade aquisitiva.

É nosso desejo que a nota de 500 kwanzas possa cobrir as quatro refeições de uma família de oito, sete vezes por semana, 30 vezes ao mês.

Mas temos bem noção da distância entre o que desejamos e a realidade. Definitivamente, o valor aquisitivo da nota de 500 kwanzas hoje não é, nem de longe, o mesmo que inspirou Robertinho a cantar “Kakinhento”.

*Jornalista, in Jornal de Angola

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