Quase 50 anos de Independência: Angola ainda recorre excessivamente a consultoria estrangeira
Quase 50 anos de Independência: Angola ainda recorre excessivamente a consultoria estrangeira
Jlo23

O país caminha para completar, a 11 de Novembro próximo, 50 anos de independência. Ao longo deste percurso, houve investimento na formação de quadros, tanto no país como no estrangeiro.

Contudo, assiste-se, em muitas empresas e instituições públicas, ao recrutamento sistemático de assessoria e consultoria externas, frequentemente a custos elevados para os cofres do Estado.

Esta situação, aos olhos de entidades ouvidas por este jornal, não se justifica e até “entrava o desenvolvimento de competências locais e, por arrasto, do país”. Numa só palavra: “É atirar dinheiro ao ar”.

Os dados disponíveis indicam que a assessoria estrangeira pode, em certas situações, prejudicar o crescimento das empresas e do país, embora também possa trazer benefícios pontuais.

Contudo, sublinham as fontes, o excessivo recurso à consultoria externa, em detrimento da nacional, pode dificultar o desenvolvimento de competências locais, a criação de emprego e alimentar uma dependência tecnológica e financeira insustentável.

Por outro lado, reconhece-se que a assessoria estrangeira pode contribuir com conhecimento, tecnologia e investimento, impulsionando a competitividade e o desenvolvimento económico, desde que seja necessária e bem fundamentada.

A petrolífera angolana Sonangol tem liderado os gastos com consultores no país. Os números são expressivos: entre 2016 e 2017, a empresa gastou cerca de 135 milhões de dólares apenas em serviços de consultoria.

Segundo dados então avançados pela Embaixada de Angola em Portugal, a Sonangol apresentava “um gasto considerável com assessores, embora os valores exactos variem e não sejam divulgados em detalhe”.

À época, a empresa estava sob a liderança da empresária Isabel dos Santos, filha do falecido Presidente da República José Eduardo dos Santos.

“Sabe-se que a empresa gastou cerca de 135 milhões de dólares em serviços de consultoria entre Maio de 2016 e Novembro de 2017”, afirmou a embaixada, acrescentando que, “além disso, a Sonangol teve um encargo total de mais de 500 mil milhões de kwanzas com salários e outras remunerações em 2023”. Contudo, esses valores incluem todos os funcionários, e não apenas assessores.

A par da Sonangol e da Angola Telecom, há consultores estrangeiros em diversos ministérios, como o das Pescas e o da Energia e Águas, situações que “não se justificam, quando existem biólogos nacionais competentes que poderiam dar boa resposta”, lamenta uma fonte.

Muitos destes profissionais acabam por ser empurrados para a reforma compulsiva ou simplesmente desperdiçados, sem ocupação, num momento em que deviam ser aproveitados para partilhar a sua experiência com as gerações mais novas.

Fontes consultadas pelo Pungo a Ndongo sublinham que muitos países africanos sofrem perdas significativas devido a práticas de consultoria ineficazes ou corruptas. Essas perdas decorrem de contratos mal elaborados, consultorias superficiais e até de casos de fraude e desvio de recursos públicos.

“Alguém ganha com isso”

O economista Arlindo Praia Sicato é uma das vozes críticas. Para ele, o constante recurso a consultores estrangeiros representa uma desvalorização dos quadros nacionais.

“Não valorizam os intelectuais internos. E depois, as assessorias fazem bem a quem as contrata, ou seja, a quem recruta esses quadros. Já não há necessidade de recorrer a estrangeiros, pois temos quadros com capacidade de resposta a todos os níveis: económico, social e até político”, afirmou.

Segundo Sicato, que já foi vice-ministro das Finanças, “não se valorizam os quadros nacionais, porque os estrangeiros rendem comissões”.

Também o empresário Fidelino Queiroz partilha da mesma opinião. Para ele, o país dispõe de quadros suficientes, formados ao longo das últimas cinco décadas de soberania, e que não estão a ser aproveitados de forma eficaz.

“A consultoria é um negócio que rende milhões para alguns. O país investiu muito na formação de quadros, mas algo está a correr mal”, observou. E acrescentou:
“Valoriza-se mais quem estudou fora, mesmo que o mérito não seja maior do que o dos formados localmente”.

No sector da saúde, por exemplo, é comum o recurso a médicos cubanos, que custam cerca de cinco mil dólares por mês, enquanto os médicos angolanos recebem salários muito mais baixos.

Queiroz aponta ainda para o sector da agricultura e pecuária, onde, segundo ele, existem condições para o sucesso, mas há forças de bloqueio que impedem o avanço da produção nacional.

“Há quem não quer que a produção aconteça. Porque importar rende para o bolso de alguns. Este modelo de assessoria e consultoria precisa ser repensado, para que a economia ‘Made in Angola’ possa florescer”, afirmou.

Já o economista e empresário Felino Sequeira declarou que o recurso constante à assessoria estrangeira nas empresas públicas e ministérios equivale a “atirar dinheiro ao ar”, quando esse dinheiro poderia ser investido em sectores essenciais como os transportes e infraestruturas. “É pelas estradas que deve circular o progresso”, defendeu.

Salários e disparidades

Dados recentes dos ministérios da Agricultura e das Pescas revelam que os salários de engenheiros agrónomos e consultores nacionais variam entre 332.590 e 2.642.743 kwanzas por mês.

No início da carreira, os salários vão dos 332.590 aos 1.003.463 kwanzas líquidos, subindo para entre 515.704 e 1.608.957 kwanzas após cinco anos de serviço, numa semana de 44 horas de trabalho.

Contudo, no caso dos consultores estrangeiros, os valores são significativamente superiores. No sector da comunicação social, por exemplo, já houve assessores pagos até dez mil dólares por mês.

Em casos extremos, foram mesmo colocados expatriados a chefiar redacções, recebendo mais de 20 mil dólares mensais, além de bónus, habitação, viatura e telemóvel com saldo permanente. Enquanto isso, jornalistas nacionais recebiam entre dois e quatro mil dólares, sem regalias adicionais.

O jornalista veterano MCN lembra o exemplo do extinto semanário AGORA, adquirido pelo grupo Nova Vaga, onde os jornalistas portugueses recebiam mais de cinco mil dólares, com bónus semanais de mil dólares, enquanto os seus colegas angolanos ganhavam uma fração desse valor.

“Infelizmente, esta lógica repete-se em várias áreas. Enquanto os estrangeiros são tratados como especialistas imprescindíveis, os angolanos continuam a ser ignorados, mesmo quando têm competências iguais ou superiores”, concluiu.

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