Quem é Rishi Sunak, que conseguiu ser primeiro-ministro à 2.ª tentativa?
Quem é Rishi Sunak, que conseguiu ser primeiro-ministro à 2.ª tentativa?
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Descendente de indianos e hindu praticante, o antigo ministro das Finanças britânico Rishi Sunak vai tornar-se, à segunda tentativa, no primeiro chefe de Governo não-branco do Reino Unido e o mais jovem das últimas décadas.

O político de 42 anos foi na segunda-feira, 24, declarado líder do Partido Conservador, sem oposição depois da desistência de Penny Mordaunt e do antigo primeiro-ministro Boris Johnson, e deverá ser indigitado chefe de Governo hoje, terça-feira.

A subida ao posto menos de dois meses depois de ter sido derrotado por Liz Truss na eleição para a liderança do Partido Conservador é igualmente surpreendente e irónica.

A primeira-ministra demissionária renunciou na quinta-feira, 20, após tentar implementar um programa económico que Sunak avisou que seria “irresponsável” porque iria aumentar a dívida pública, agravando a inflação e as taxas de juro, o que veio a acontecer.

O antigo ministro das Finanças tem agora pela frente uma grave crise económica e financeira, com o país à beira de uma recessão e pressionado para cortar a despesa pública.

Ao mesmo tempo, enfrenta a contestação de cada vez mais funcionários públicos, como professores e enfermeiros que pedem aumentos salariais, e do Partido Trabalhista, que tem uma vantagem de cerca de 30 pontos percentuais nas sondagens.

A Rishi Sunak são apontadas a educação privilegiada na exclusiva escola privada de Winchester e a riqueza pessoal para o criticar como alguém “desligado” das dificuldades do quotidiano dos cidadãos comuns.

Sunak e a esposa Akshata Murty, filha de um magnata indiano co-fundador da multinacional Infosys, entraram este ano para a 222.ª posição da lista dos mais ricos do jornal Sunday Times, com uma fortuna estimada em 730 milhões de libras.

Porém, o antigo analista financeiro tem invocado as origens humildes dos avós imigrantes, que chegaram ao Reino Unido nos anos 1960, e dos pais, um médico e uma farmacêutica que trabalharam para dar aos filhos uma boa educação e oportunidades.

Os britânicos devem julgá-lo “pela personalidade e acções, não pela conta bancária”, argumentou várias vezes durante a campanha no verão.

Nascido em 12 de Maio de 1980, na cidade inglesa de Southampton, Rishi Sunak é o mais velho de três irmãos. Depois de se licenciar em Filosofia, Política e Economia (PPE) em Oxford, completou os estudos com um MBA na Universidade de Stanford nos EUA, onde conheceu a esposa.

O casal tem duas filhas, Krishna e Anoushka, de 11 e nove anos, respectivamente.

Após trabalhar para o banco de investimento Goldman Sachs e outras instituições financeiras, Sunak entrou para a política, destacando-se como um partidário acérrimo da saída do Reino Unido da União Europeia.

Em 2015, foi eleito deputado pela circunscrição de Richmond no condado de Yorkshire, no norte de Inglaterra, uma região essencialmente rural e tradicionalmente conservadora que antes foi representada pelo líder ‘tory’ William Hague.

Desde então, teve uma ascensão meteórica devido ao envolvimento activo na campanha pelo Brexit em 2016, tendo inclusive representado Boris Johnson em vários debates televisivos nas eleições legislativas de 2019.

Nomeado em 2019 secretário de Estado das Finanças, Rishi Sunak foi promovido um ano mais tarde a ministro das Finanças após a demissão inesperada de Sajid Javid, tornando-se desde então um potencial sucessor de Boris Johnson.

Sunak ganhou elogios por introduzir rapidamente programas de apoio no valor de milhares de milhões de libras para manter postos de trabalho e empresas a funcionar durante 18 meses de confinamentos devido à pandemia de covid-19.

Mas caiu em desgraça entre os militantes, nomeadamente devido ao aumento da contribuição para a Segurança Social para financiar a pesada despesa com a saúde e assistência social, e por ter desempenhado um papel influente na queda abrupta de Boris Johnson.

Na carta de demissão, em 05 de Julho, Sunak alegou que os princípios de boa conduta “importam” e distanciou-se da falta de “seriedade e competência” do então primeiro-ministro.

Tanto na eleição que perdeu para Liz Truss como nesta que acaba de terminar foi o candidato com mais votos entre os deputados conservadores.

Mas, mesmo depois de a turbulência económica dos últimos meses terem mostrado que tinha razão na abordagem prudente à economia, Sunak continua a dividir opiniões e muitos dos militantes acusam-no “trair” e “apunhalar nas contas” o popular Boris Johnson.

Os desafios que Rishi Sunak terá de enfrentar

Para além da missão urgente de unir o Partido Conservador, o novo primeiro-ministro tem vários desafios pela frente. Inflação recorde, greves e um sistema de saúde em declínio são alguns dos desafios que o novo primeiro-ministro britânico tem pela frente, incluindo a missão urgente de unir o Partido Conservador.

Saiba quais as adversidades que esperam o ex-ministro das Finanças britânico, que é agora sucessor de Liz Truss.

Crise económica e social

A crise económica é a prioridade principal de Rishi Sunak. A inflação subiu para 10,1%, a mais alta no G7, devido ao aumento dos preços da energia e dos produtos alimentares. O Banco de Inglaterra antecipa uma recessão e espera-se que volte a aumentar as taxas de juro na próxima semana.

Em protesto contra o aumento generalizado de preços, sindicatos de setores chave, como o dos transportes, têm vindo nos últimos meses a realizar greves com frequência, causando perturbações ao funcionamento da economia.

Sunak terá também de acalmar os mercados financeiros, que foram abalados pelos anúncios de cortes fiscais pelo governo de Liz Truss no final de Setembro.

Unir o Partido Conservador

Após 12 anos no poder, o Partido Conservador está mais dividido do que nunca. Boris Johnson caiu em Julho, depois de perder a confiança de 60 membros do Governo.

Liz Truss permaneceu no cargo apenas durante seis semanas. Desde 2016, o Reino Unido teve cinco primeiros-ministros conservadores. A maioria dos deputados conservadores apoiou a candidatura de Rishi Sunak, o que lhe dá uma forte legitimidade.

A oposição britânica exige eleições legislativas, mas Sunak deverá resistir porque as sondagens apontam para uma derrota contundente dos tories.

Irlanda do Norte

Rishi Sunak é um eurocético que herda o problema do estatuto pós-Brexit da Irlanda do Norte, a província britânica que faz fronteira com a República da Irlanda, país membro da União Europeia.

O próximo primeiro-ministro apoiou a proposta de lei para anular unilateralmente algumas das provisões do acordo, mas Bruxelas poderá responder com sanções comerciais.

Sem a alteração do Protocolo, o Partido Democrata Unionista vai continuar a bloquear a formação de parlamento e governos regionais, pelo que o Governo terá de convocar novas eleições na Irlanda do Norte.

Imigração

Desde o Brexit, os governos Conservadores têm prometido reduzir drasticamente o número de migrantes, mas sem sucesso. Este ano, um número recorde de 37.570 pessoas atravessaram ilegalmente o Canal da Mancha.

Rishi Sunak apoiou o plano de Boris Johnson de enviar para o Ruanda os candidatos a asilo, mas o plano está suspenso devido a acções judiciais.

A escassez de mão de obra representa outro dilema para o próximo primeiro-ministro, com muitas empresas a quererem recrutar trabalhadores estrangeiros para ajudar o crescimento económico.

Política externa

O Reino Unido prometeu 2.300 milhões de libras (2.620 milhões de euros) em ajuda militar à Ucrânia, mais do que qualquer outro país para além dos EUA, apoio que Sunak deverá manter.

Quanto à China, Rishi Sunak descreveu-a como “a maior ameaça à segurança e prosperidade no Reino Unido e no mundo”. Mas os esperados cortes na despesa pública poderão pôr em causa o aumento dos gastos em Defesa para 3% do Produto Interno Bruto (PIB).

in Lusa

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