Quim Sebas: “Muitos ex-atletas vivem na miséria”
Quim Sebas: "Muitos ex-atletas vivem na miséria"
qui sebas

Antigos futebolistas que deram tudo pelos clubes e pela selecção nacional, viverem hoje numa condição de miséria total. Uma situação que deveria merecer atenção de quem de direito. As palavras são do antigo futebolista Quim Sebas.

Joaquim Sebastiao Caetano, Quim Sebas, nas lides futebolísticas, é de opinião que para se cortar este mal, o Ministério da Juventude e Desportos deveria tomar conta desta situação no sentido de orientar os clubes a pagarem a segurança social dos atletas e, tal como nas empresas públicas, fizessem os respectivos descontos.

Diz ter ouvido sorrateiramente que já é uma realidade, embora sem nenhuma certeza, algo que nos nossos tempos não acontecia.

Quim Sebas aponta igualmente o dedo à Inspeção Geral do Trabalho e à Segurança Social como sendo duas instituições com culpa sobre o estado actual de determinados atletas daquela época.

Explica-se dizendo que estas duas instituições tinham, na sua opinião, a obrigação de responsabilizar os clubes a pagar a segurança social.

À pátria aos seus filhos não implora…

Quim Sebas começou a carreira aos 7 anos e terminou aos 27 anos, mas prematuramente, devido a certas situações que fizeram perder o interesse pelo futebol.

“Fui ordenado pela pátria a deixar o Instituto Makarengo, isto em 1981, ou melhor deixar a escola para defender a seleção nacional”, refere o ex-atleta que recorda que foi colega de muitas figuras de proa actualmente, e por conta do seu talento, teve que ir para a selecção, com a garantia dos dirigentes daquela época, que iriam para Lubango, União Soviética e depois aos Camarões, em estágios e de regresso ao Makarengo para retomar os estudos, foi considerado reprovado por faltas.

Recorda que começou a jogar na escola do Futebol Clube de Luanda, com Domingos Inguila, Cata e outros, e depois vai para o Sporting do Maxinde, junto à Cidadela, na classe de juvenis, durante três épocas, duas de juvenis e uma de júnior, tendo sido convoca do a integrar a selecção nacional, a primeira na categoria de juniores formada em Angola, isto em 1981.

“Eu estava convocado e nem sabia”, diz Quim Sebas que recorda com nostalgia que tinha ido ao estádio simplesmente para assistir ao treino e acabou por ser buscado da bancada para integrar a selecção nacional e que o país estava em primeiro lugar.

“Meu pai, nascido em 1905, era conservador e não permitia que jogasse futebol em detrimento da escola e por conta disso eu saia de casa como se estivesse a ir para a escola, enquanto ia jogar”, revelou. E foi assim que viajou com a seleção e de regresso nem a Federação nem a Secretaria de Estado tiveram o cuidado de levar um justificativo que permitisse a justificação das faltas para dar continuidade aos estudos.

Aquando da passagem por Lubango, conta Quim Sebas, o Desportivo da Chela interessou-se por ele e teve que mentir o pai dizendo que foi transferido àquela cidade para fazer agronomia. Acrescenta que foi assim que integrou o clube da Chela, titular com 17 anos a jogar no Girabola.

Fim prematuro

Sobre a sua desistência prematura, Quim Sebas refere que tudo deveu-se ao facto de não lhe ser permitido continuar os estudos.

“Tiraram-me esta possibilidade e por outra tive a oportunidade de ir para o profissionalismo na França, com o direito de ter vindo um avião a minha busca, mas prenderam-me, aliás, fiquei detido, ralharam comigo, ameaçaram e tive que ficar”, relata o ex-atleta que referiu que jogou mais duas épocas e depois disso preferiu terminar, tendo decidido abandonar definitivamente o futebol.

“Apaguei tudo que tinha a ver com o futebol, entre recordações, fotografias, uma com o Presidente da República e com todo o mundo”.

Frustração e o apelo

Disse ter falado do futebol, mas refere que foi também militar das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), foi transferido de uma zona para outra, em serviço, isto na condição de atleta, e se fosse pela via legal, o Desportivo da Chela tinha de passar a sua transferência, mas não foi isto que aconteceu.

Acrescenta que a sua vinda ao Petro foi à base de um entendimento entre o general Ndalu e o camarada Hermínio Escórcio, dai efectivou-se a transferência na condição de militar.

Referiu que o clube português Estrela da Amadora interessou por ele, mas não ficou porque quem teria de passara a sua transferência seria o Desportivo da Chela, mas não aceitou, por esta razão teve de regressar e foi a segunda vez que isto aconteceu, dali a sua frustração em continuar a jogar futebol.

“Espero que o que aconteceu comigo e com os demais atletas do meu tempo, não volte a acontecer com esta juventude, pois muitos de nós estão a viver em situação de pura indigência, abandono e sem nenhuma recompensa”, apelou Quim Sebas, que exorta as forças da sociedade e os dirigentes a olharem para esta classe, pois a cada dia que passa, vão desaparecendo membros da nossa classe, da nossa geração, por conta da indigência, pobreza e miséria, então este é o momento de olharem para estes cidadãos que deram tudo para o bem deste país e não há compensação e cada um é que se vire.

Refere que muitos dizem que tudo tem a ver com o contexto, muito bem, mas nós jogamos no pior contexto que este país teve, a situação de guerra, até ao ponto de sermos flagelados várias vezes.

“Estivemos em campos de batalha para moralizar a tropa”, recorda, acrescentando que muitas vezes o Girabola parava, duas a três jornadas, porque as equipas tinham de ir lá no Cuando Cubango, Moxico e outras regiões em guerra, e tínhamos que descer e subir com o avião em espiral para evitar o abate pelas forças inimigas, enfim muitas situações, tais como aquela em que fomos flagelados no Huambo, em que morreu um brasileiro e um trabalhador angolano.

Para Quim Sebas, o que mais lhe satisfaz é o facto de “estamos a resistir a estas intempéries todas como se nada tivesse acontecido, pois, nós não temos voz e não há quem advoga por nós”.

Sai do futebol e recorre ao exemplo recente de dois gigantes do basquetebol, Ângelo Victoriano e o Cidrack, atletas que deram muitas alegrias ao povo angolano e que deveriam ser compensados, mas em determina dos momentos viraram pedintes de apoios.

Quando é que o país vai olhar para os seus, questiona Quim Sebas, para quem “levamos a nossa bandeira aos quatro cantos do mundo, até ali onde não sabiam da existência de Angola, mas nunca olharam por nós”.

in Pungo a Ndongo

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