
Venho acompanhando muitos comentários de analistas, estudiosos e políticos sobre as causas e soluções do conflito entre a RDC e o Ruanda e vou notando a dificuldade de muitos apresentarem uma visão clara sobre o assunto.
E um dos primeiros erros, e até essenciais na análise, é nunca deixarem claro que o M23, o alegado movimento rebelde apoiado pelo Ruanda, foi fundado por tutsis congoleses que foram expulsos do governo de Laurent Desiré-Kabila, por alegada tentativa de golpe de Estado numa altura em que tinham formado um governo que resultou da queda do regime de Mobutu Sese Seko.
Na sequência de erros de análise deixa-se de fora o facto de que o M23 tem lutado pela preservação de uma etnia minoritária (os tutsis da RDC também conhecidos por Banyamulenge) aos quais são negados direito de permanecer no seu próprio território pátrio e que são empurrados para o Ruanda devido a tradicional alegação de serem parte do povo ruandês.
Um último erro de análise, consiste em ligar o M23 as populações refugiadas do Ruanda ao tempo do genocídio de 1994 que levou os Hutus a dizimar e escorraçar os tutsis ruandês tendo criado uma diáspora no leste da RDC. Ora os Tutsis ruandeses não se confundem com os Tutsis congoleses.
A diferença notória é que, embora partilhem o kinyaruanda como língua nacional comum e os traços étnicos próprios dos povos nilóticos, os Tutsis da RDC falam Francês enquanto que os Tutsis ruandeses falam inglês como línguas de dominação colonial respectivamente.
Ora, os Tutsis congoleses sempre viveram no território congolês onde têm a suas raízes ancestrais e curiosamente sempre tiveram os seus direitos de cidadania negados pelos sucessivos regimes da RDC e do Mobutu do antigo Zaire.
A sua luta, é de autodeterminação e de reconhecimento como parte do povo congolês cujo governo vem negando inclusive a inclusão da sua língua, o kinyaruanda, como uma das 300 línguas nacionais faladas na RDC.
Uma luta ofuscada e manipulada pelas potências económicas internacionais que tiram proveito dela para explorarem os recursos mineiros da região leste que é o seu solo pátrio.
Daí que a narrativa segundo a qual o M23 ocupou as cidades de Bukavu e Goma, as cidades capitais das províncias do Kivu-Sul e Kivu-Norte, passe a ideia de serem estrangeiros ruandeses. Quando na verdade trata-se de uma rebelião armada que procura tomar o controlo das suas próprias terras.
Para a compreensão deste intrigante assunto, partilho, neste meu quintal, o link de Patrick L.O Lumumba, o refinado constitucionalista e elevado intelectual queniano num comentário valioso e bastante assertivo sobre a situação de crise militar no leste da RDC.
Sobre o tema podem ainda ser referidos THABU MBEKI, antigo Presidente Sul-africano que desenvolveu uma apaixonante palestra sobre as causas do conflito na RDC proferida diante de uma plateia de estudantes da Thabu Mbeki African School of Public and International Affrairs da UNISA sem deixar de parte a recente conferência de imprensa proferida por Paul Kagame, Presidente do Ruanda em que tratou de apresentar os seus argumentos sobre as dificuldades que têm em negociar com o seu homólogo da RDC na cimeira extra-ordinária da Comunidade da África Oriental e também do discursos à Nação do próprio Felix Antoine Tshisekedi Tshilombo apelando os congoleses para os esforços de guerra eminente entre a RDC e Ruanda e por fim, LE CHUTE DE MOBUTU, um documentário ilustrativo da trajectória daqueles que criaram o M23 que afinal são tutsis congolês rejeitados pelo seu próprio Estado.
Confira as ricas intervenções pelo youtube e avalie por si mesmo as causas e as soluções do conflito para evitar manipulações ou má compreensão sobre o assunto.
Todos abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=B5P0VKXSV2g
https://www.youtube.com/watch?v=DIZYnygXAfA
https://www.youtube.com/watch?v=gbVvxYKAkJw
https://www.youtube.com/watch?v=gotN6zRfjBk
https://www.youtube.com/results?sp=mAEB…
(Nas fotos abaixo:
Ambos são Tutsis, mas não partilham a mesma origem pátria. Portanto, não é admissível que se confundam os Tutsis com Ruandeses.
*Jurista