
A corrente que defende a intensificação da campanha de mobilização e sensibilização dos angolanos e não só, para a promoção da cultura de ética e moralização da sociedade, no quadro do resgate de valores, grosso modo, continua a elevar-se a cada dia que passa, o que demonstra vontade e comprometimento por parte de muitos no desafio de inverter o cenário da crise de valores.
A crise de valores éticos, morais, religiosos, deontológicos, culturais e epistemológicos que assola o nosso tempo constitui um problema filosófico e antropológico que exige fazer uma introspecção no sentido de saber onde estamos, como estamos e para aonde caminhamos na senda dos valores.
A nossa reflexão na presente edição tem como ponto de partida as seguintes questões: quem é o principal cliente da ética? Em que esfera da vida se incide o impacto da ética? Em resposta às questões colocadas, destaca-se que o principal cliente da ética é o homem.
Nesta conformidade, o impacto da ética também se incide em todas as esferas da vida social e organizacional, o que equivale a dizer que onde há homem deve haver sempre ética e onde há ética, há garantia de um bom exercício de cidadania.
A ética é uma reflexão que diante dos múltiplos dilemas que a vida impõe, ensina o homem a alcançar o sentido e a dimensão do bem que provoca a prática do bem e das virtudes, fazendo escolhas racionais, tomar decisões assertivas, comprometer-se com o bem-estar da vida pessoal e colectiva, em suma, saber ser e estar com os outros e para os outros no mundo com vista a atingir o fim último, que na visão de Aristóteles se resume na felicidade.
O jornalista, político, governante, operador de direito, professor, estudante/aluno, empresário/comerciante, pastor/sacerdote, militar/agente da ordem, piloto, engenheiro, bancário, gestor público, jogador/treinador, taxista/mototaxista, cobrador, lavador de carro, as zungueiras/ zungueiros, chefe, líder, colaborador e o camponês, em suma, todos os homens precisam de ética não por uma questão de ilusão, mas sim para dar sentido, sustentabilidade e razão de ser à vida social que nos é conatural, tal como defendeu Aristóteles em “A Política”.
Esta ética de que tanto se defende, para se tornar um facto na vida social e organizacional, necessita de um programa articulado de âmbito nacional capaz de lhe providenciar um lugar cimeiro nas grelhas curriculares e estimular uma intervenção mais activa por parte dos actores sociais, com realce para a família, a escola, a igreja, os meios de comunicação social, os partidos políticos e as organizações da sociedade civil de modo geral, onde cada um deverá saber as suas responsabilidades no desafio do resgate, promoção e preservação dos valores.
Preocupar-se com o fortalecimento permanente de estratégias capazes de interiorizar e externalizar valores éticos, morais, culturais, religiosos e epistemológicos, é um investimento que se recomenda, cujos resultados a curto, médio e longo prazos, podem se repercutir na moralização e humanização da sociedade, bem como na formação integral do homem para o bom exercício de cidadania.
A importância da ética na vida social e organizacional é indubitável. Por esta razão, Rego, Moreira e Sarrico (2003), ajudam-nos a reforçar esta premissa com o seguinte fundamento: “uma das principais notas caracterizadoras da ética e que não podemos ignorar, é o facto de a ética ter sempre no centro a pessoa humana, na sua dignidade e igualdade fundamentais, no seu direito à realização e à felicidade, na sua vocação comunitária que lhe dá o direito e o dever de ser protagonista no aperfeiçoamento da sociedade em que se insere”.
Outrossim, a filósofa Marilena Chauí ajuda-nos também a compreender que “para que haja conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido, a virtude e o vicío”.
Os problemas ligados às práticas de corrupção e escândalos na vida social e organizacional na actualidade, justificam a necessidade de se prestar maior atenção com carácter de urgência nas questões atinentes à ética e à moral partindo do pressuposto segundo o qual a ética chega aonde o direito não chega.
Dito de outro modo, enquanto o direito se preocupa com a regulação do comportamento do homem em sociedade limitando-se no mundo externo, a ética preocupa-se com a consciência do homem, isto é, do seu interior de onde tudo parte cujo impacto se torna extensivo à vida prática.
Portanto, em sede do acima exposto, considera-se fundamental e oportuno promover-se um debate de âmbito nacional que resulte na institucionalização do ensino da ética como disciplina de dimensão transversal nos subsistemas de ensino geral e superior público-privados no país, tendo em conta a sua importância e implicações que podem viabilizar a reforma de mentalidades.
*Docente universitário, palestrante e escritor