Rei Mandume morreu a 06 de Fevereiro
Rei Mandume morreu a 06 de Fevereiro
mandume cunene

Pertencente a um dos reinos mais poderosos da tribo Ambós (sul de Angola e norte da Namíbia), o soberano Mandume-ya-Ndemufayo, falecido a 06 de Fevereiro de 1917, por suicídio, constitui um ícone da resistência à ocupação colonial.

Designado rei dos Oukwanhama, Mandume é venerado pela sua determinação e por dificultar o projecto de implantação da administração colonial portuguesa, impondo pesadas derrotas que levaram os Estados europeus a aliarem-se contra o seu reinado.

Desde então, o seu nome e feitos ficaram marcados na tradição dos Ambós, que o apelidaram de “O cavaleiro incomparável“.

Volvidos 107 anos desde a sua morte, o rei continua a ser venerado por preferir o suicídio a ser capturado e consequentemente colonizado pelos portugueses, após o enfraquecimento do seu estado, pelas forças ocupacionistas.

O pesquisador Pedro Tongeni descreveu que o rei Mandume-ya-Ndemufayo assumiu o trono muito jovem e, devido à sua coragem e bravura, comandou os destinos do povo Ambós num dos períodos mais difíceis da história da região sul, de 1911 a 1917.

Durante o reinado de Mandume, sublinhou, as guerrilhas entre os povos africanos acabaram e passaram a ser apenas contra os portugueses que a todo o custo tentavam ocupar a parte sul de Angola.

Explicou que antes da ocupação colonial, os Ambós estavam divididos pelos reinos Oukwanhama (o mais importante), Kuamato (pequeno e grande), os dos estados do Evale, Dombala e Kafima.

Estes estados, acrescentou, viviam unidos e não havia guerras entre si, salvo alguns conflitos por causa das guerrilhas.

Pedro Tongeni ressaltou que, além de Portugal, a Alemanha também queria dominar a região sul, rica em recursos minerais e gado.

Acrescentou que as sucessivas derrotas infligidas pelos Oukwanhamas aos portugueses fizeram com que o comandante máximo da tropa portuguesa, no baixo Cunene, fizesse um relatório da situação, o que forçou a vinda urgente, proveniente de Moçambique, do general Pereira d’Eça.

Ao chegar a Angola, o mesmo foi investido governador-geral e chefe supremo das Forças Armadas Portuguesas.

O novo governador-geral organizou-se e, em Agosto de 1915, ordenou combates contra os Oukwanhamas nos arredores da Môngua.

A batalha da Môngua é apontada como uma das maiores derrotas para os portugueses ao longo de toda a ocupação de África e é descrita como a “Batalha das Batalhas”, sob o comando de Mandume.

Gabinete da Cultura no Cunene

O director do gabinete da Cultura, Turismo, Juventude e Desporto no Cunene, Nelson Ndelimukuata, valorizou a figura de Mandume-ya-Nademufayo, que de forma destemida defendeu o seu povo contra a ocupação colonial.

“Quando chegou ao poder não aceitou que o território fosse dominado pelos portugueses, lutou até à sua morte, daí que é considerado o defensor da resistência entre 1911-1917, no sul de Angola”, afirmou.

Lembrou que o rei mostrou um grande espírito de heroísmo e estes actos devem ser seguidos para honrar e defender os interesses de Angola.

Quanto à preservação e valorização do seu legado histórico, disse que o Governo angolano ergueu o Complexo Turístico Memorial do rei, onde repousam os seus restos mortais, bem como a restauração do reino.

Fez saber que, em saudação aos 107 anos da sua morte, está prevista a realização de várias actividades, com destaque para o concurso literário “Escrever para relembrar Mandume”.

Nelson Ndelimukuata disse que o prémio tem uma característica própria que é perpetuar os feitos do rei, através da escrita nas categorias de poesias, contos e artigos científicos, e que vai já na sua terceira edição.

Estudantes defendem abordagem de Mandume no currículo escolar

Já os estudantes do curso de História do Magistério de Ondjiva defenderam a inserção da vida e obra de Mandume nos currículos escolares, visando a transmissão do conhecimento, bravura e espírito patriótico às novas gerações.

Bartolomeu dos Santos, aluno da 10ª classe, disse que a abordagem sobre a história de Mandume, por ser muito rica em termos de trajectória, se encontra muito resumida nos manuais curriculares.

Por seu turno, Inocência Ndeunyema lembrou que apenas no primeiro ciclo aprendeu sobre o legado do rei, mas em conteúdos resumidos, daí a necessidade de se alargar feitos para permitir que as actuais gerações possam cultivar o espírito patriótico.

Outra estudante, Camila Manuel, afirmou que no ensino médio se fala mais da história de África, com particular realce para o Egipto, mas o fundamental seria trazer à tona reis que lutaram para a libertação Angola.

Já a estudante Sofia Tomás referiu a necessidade de a história do país ser transcrita e transmitida nas escolas para não ser ocultada, como forma de preservar a identidade cultural que caracteriza o próprio angolano.

Por seu turno, o director do gabinete da Educação do Cunene, Domingos de Oliveira, fundamentou a necessidade de se continuar a cultivar o espírito de angolanidade nas instituições escolares, como forma de reconhecer os heróis nacionais, na qual Mandume se destaca pela bravura e coragem demonstrada no período da resistência à ocupação colonial.

O responsável admitiu a existência de um grande défice na abordagem das matérias relacionadas ao percurso de Mandume, e outros reinos, assim como heróis anónimos que se destacaram na luta pela defesa do país.

Domingos de Oliveira disse que o Ministério da Educação tem uma grande responsabilidade em resgatar as figuras que contribuíram para a libertação do país, desde o momento da resistência à ocupação colonial, luta pela independência e a paz, e trazê-las ao conhecimento dos alunos nas escolas.

Governo reconhece feitos do rei

Para enaltecer a figura do rei, o Executivo angolano construiu, em 2000, na localidade do Oihole, o Complexo Turístico Memorial do rei, cujo acto inaugural foi, em 2002, presidido pelo então chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, ladeado do antigo Presidente da Namíbia, Sam Nujoma.

Elevado a património cultural nacional, o túmulo é um local altamente representativo, com arcos verdes em forma de folha de Omufiati a cruzarem-se, protegendo o último leito do rei, que está rodeado de estacas de betão em forma de madeira, como se tratasse de uma embala da região.

É lugar sagrado para o povos Ambô, para os Cuanhama (Angola) e para os ovambos (Namíbia), que depois de 107 anos da sua morte continuam a venerar o local, sendo um ponto de visita obrigatória para quem quer conhecer melhor as histórias do país.

No seu túmulo, lê-se as suas célebres palavras: “Se os ingleses me procuram, eu estou aqui, e eles podem vir e montar-me um ardil, não farei o primeiro disparo, mas eu não sou um cabrito nas mulolas, sou um homem (…) e lutarei até gastar a minha última bala”.

Entre paralisações e reactivações, hoje quase ninguém visita o local. Os poucos que para lá se deslocam limitam-se a homenagear o soberano, sobretudo aquando da celebração do 6 de Fevereiro, colocando uma folha da árvore omufiati, que simboliza poder, respeito e sorte.

Em Julho de 2020, foi inaugurada pelo ministro da Defesa e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos, a estátua equestre do rei Mandume-ya-Ndemufaho, implantada na praça central da cidade de Ondjiva.

A estátua feita em bronze tem cinco metros de altura e quatro de cumprimento. O soberano é representado com vestes de cor preta acastanhada e um chapéu, montado num cavalo cor patini, empunhando na mão direita uma espingarda e nos pés o seu cão de guarda.

A espingarda simboliza a guerrilha contra o colono português, enquanto cavalo com as suas quatro patas assentes simboliza a posse territorial, e o cão de guarda sentado como sinal de submissão.

Constitui um dos principais cartões de visita da cidade. Diariamente, centenas de pessoas visitam o local para tirar fotografias ou saberem um pouco mais sobre o soberano dos Oukwanhama que reinou nos anos de 1911-1917.

Referências biográficas

Nascido em 1892, na localidade de Embulunganga, município do Cuanhama, Mandume-ya-Ndemufayo é filho de Ndemufayo-ya-Haihambo e de Ndapona-ya-Shikende.

O rei morreu a 6 de Fevereiro de 1917, na povoação de Oihole, município de Namacunde, por suicídio.

O reinado Oukwanyama conheceu 18 reis, a destacar Kambungo, Musindi Wakanene, Kavanga Kaindongo, Himbili-ya-Aufiko, Weyulu-ya-Edimbe, Nande-ya- Edimbe, Mandume-ya-Ndemufayo, entre outros.

Destes reis, 12 foram sepultados no cemitério dos soberanos, localizado em Oipembe, nas proximidades da cidade de Ondjiva, dos quais seis em outras zonas do município, incluindo Mandume, em Oihole.

Actualmente o reino do Oukwanhama é dirigido pelo soberano Jerónimo Haleingue, entronizado 102 anos após a morte de Mandume, a 2 de Fevereiro de 2019.

in Angop

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