Ressignificar o 4 de Fevereiro de 1961 nos dias de hoje – Filipe Cahungo
Ressignificar o 4 de Fevereiro de 1961 nos dias de hoje – Filipe Cahungo
Filipe

Cada geração luta para a conquista e resolução dos problemas que o inquieta, assim, ao celebrarmos o 04 de Fevereiro, data do início da Luta Armada de Libertação Nacional, que este ano é comemorado sob o lema “Preservando os valores da Pátria, honremos os nossos heróis“.

Trata-se de um legado deixado pela geração que se debateu com o problema da escravatura, e reparemos que esta geração tinha um objectivo comum com o qual sonhavam realizar.

É uma geração construtora de utopia, sonhou com a independência, uma realidade que aquela altura parecia irrealizável, porém a conseguiu conquistar.

Se cada geração é julgada pelos seus desafios e legados, que legado deixará a geração pós independência? No mínimo, a geração que desencadeou o 04 de Fevereiro de 1961 conseguiu conquistar a independência.

Conquistada a independência, começam os problemas com que cada um de nós enfrenta. A esse respeito importa fazer o seguinte exercício retórico: Que significado tem o 04 de Fevereiro para nós enquanto herdeiros?

No período colonial reinava o princípio da ética utilitarista, dividir para melhor reinar, princípio que foi vencido pelo angolano porque tinha o objectivo de buscar a independência. Entretanto, 63 anos depois, que significado tem para nós e que valores defendemos para honrar e dar continuidade a esse projecto?

Passado esses anos, chegou o momento de darmos o corpo ou materializarmos valores como: independência, solidariedade, justiça, liberdade…

Assim, o que nos propusemos fazer se traduz nos seguintes termos; os valores independência se incorporam em homens independentes, a solidariedade em homens solidários, a justiça em homens justos, a liberdade em homens livres.

É também legítimo nos indagarmos que significa ser livre para nós? Será que conseguimos concretizar os ideais com que os nossos fundadores se debateram? Se sim, quais sinais visíveis que nos fazem crer?

Apesar de caber simplesmente aos teólogos fazerem profecia, penso que lá em outra dimensão da vida, os pais da Nação devem estar a questionar o seguinte: É para esse país que sonhamos e lutamos dando o melhor de nós?

Por ironia, nós denominamos o nosso aeroporto internacional com o nome de 04 de Fevereiro, por esse motivo somos convidados a fazer uma romaria em direcção ao 04 de Fevereiro, batendo no peito e assumindo que, como continuadores do legado da geração libertária, nós falhamos.

Hoje, o inimigo não é mais o homem branco, é o homem negro e chama-se angolano. Chegamos, de facto, ao ponto zero do qual Manguxi fala no seu livro “Sagrada Esperança”, pessoas se fazem presente aos contentores de lixo, pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, jovens desempregados, admitimos que seja o caos que tenha se instalado.

Essa situação me faz lembrar do romance do filósofo argelino Albert Camus, “A Peste”, onde a desordem reina e o tirano toma conta da situação.

Na verdade, o que se passa poderia nos levar a repensar o que significa ser angolano(a) e que significado tem para nós o 04 de Fevereiro de 1961. Clarificando esses conceitos será meio passo marcado para darmos dignidade a cada angolano e angolana.

Nos processos de luta de libertação existe o fenómeno que, em determinadas circunstâncias, nos passa despercebido. Trata-se do depois ou como os ingleses dizem o after. Uns fracassam pela ditadura, outros pela pobreza, com excepção de poucos que conhecem o sucesso, e, para nós, dentro dessas três realidades apresentadas, em que lugar nos encontramos?

Vejamos que, para os cristãos, o número três representa a Santíssima Trindade (O Pai, o Filho e o Espírito Santo), para nós o número três representa os três movimentos de luta de libertação nacional (FNLA, MPLA e UNITA).

Na Santíssima Trindade há harmonia, o Pai com o Filho e o com o Espírito Santo, será que há harmonia entre nós ou assumimos uma agenda colonial que consistia em dividir para melhor reinar?

Os factos nos mostram que podemos coabitar juntos sem colocar obstáculos à vida de cada angolano e angolana. A diversidade é que está na origem de tudo, desde Heráclito que vimos que a luta de contrários gera harmonia. Até porque há certo momento da nossa história, dizíamos de Cabinda ao Cunene – um só povo e uma só Nação. Mas de lá para cá, o que restou?

Não se pode construir nação alguma quando não há uma linha vertical que nos move a lutarmos pelo bem comum. Nos tornamos tiranos de nós mesmos, silenciando as nossas culturas e os nossos ancestrais. Defraudamos o ideal dos nossos fundadores e criamos as instituições da corrupção, da gasosa, da micha. Quando um cidadão procura ser íntegro, acabam o tratando de/por burro, demos um giro de 360º a nível de inversão dos valores.

Nós expulsamos o colono pela porta, mas o deixamos entrar pela janela. Este é o trauma do escravo impotente que luta para a sua libertação, mas que desconhece o real significado de ser livre.

Nos dias de hoje, assiste-se o fenómeno da emigração, mas como a história não mente, no ano de 1842, pela primeira vez, Diogo Cão aterrava na foz do rio Zaire, hoje somos nós que partimos para Portugal, Diogo Cão parou na foz porque vinha à procura de meios para uma condição de vida melhor, e é o mesmo que muitos angolanos procuram ao emigrar a Portugal.

Afinal de contas, é a procura de uma vida melhor que está em toda qualquer acção. A vinda dos portugueses, o início da luta de libertação nacional, a Independência, a emigração.

A procura de uma vida melhor é legítimo, o que pode se tornar não legítimo são os meios a que podemos nos servir para atingir os fins; não é legítimo quando pensamos que para ter uma vida melhor tens que desviar o bem comum, quando pensas em aniquilar quem pensa diferente e assim em diante.

Que o 04 de Fevereiro nos sirva de ocasião para honrarmos de verdade os nossos heróis e repensarmos no legado que pretendemos deixar para as gerações vindouras e a construção de valores que nos possam levar a sonhar com um amanhã diferente e melhor.

*Filósofo e professor

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