Saiba como Nicolás Maduro foi sequestrado
Saiba como Nicolás Maduro foi sequestrado
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A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas foi o culminar de uma operação militar de elevada complexidade, preparada durante meses e executada em poucas horas, em pleno coração de Caracas.

A missão, sem precedentes pelo seu objetivo – deter vivo um chefe de Estado em funções – combinou informação profunda, supremacia aérea total, guerra eletrónica e uma ação terrestre curta, rápida e altamente controlada.

Segundo a reconstrução feita pela CNN Portugal, com base em informação conhecida e na análise de especialistas militares e de segurança, tudo foi desenhado para que, quando o primeiro helicóptero levantasse voo, o desfecho já estivesse praticamente decidido.

Meses antes: a preparação

Muito antes da madrugada da operação, os Estados Unidos já sabiam exatamente onde Nicolás Maduro dormia.

A informação foi recolhida ao longo de vários meses através de um trabalho de recolha de informação considerado excecionalmente profundo, com infiltração humana ao mais alto nível e vigilância técnica contínua.

Ao que a CNN apurou, a CIA instalou secretamente em agosto uma pequena equipa dentro da Venezuela para seguir os padrões, localizações e movimentos do presidente venezuelano.

De acordo com o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, a equipa descobriu “como se movia, onde vivia, para onde viajava, o que comia, o que vestia e quais eram os seus animais de estimação”.

Segundo o tenente-general Marco Serronha, este tipo de informação é o verdadeiro alicerce de uma operação deste tipo.

“Isso só é possível com inteligência humana muito bem colocada, infiltrada ao mais alto nível. Quando se chega a este ponto, a operação militar já não é uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’.”

Em paralelo, meios militares norte-americanos foram posicionados na região das Caraíbas. Navios anfíbios, aeronaves de combate e vigilância e sistemas de apoio ficaram em prontidão durante semanas, aguardando o momento considerado ideal para avançar.

Esse momento chegou na madrugada de sábado, 3 de janeiro, depois de “meses” de planeamento e ensaios.

De acordo com o general Dan Caine, Donald Trump deu o sinal verde poucos minutos antes das 23:00, altura em que aeronaves militares começaram a descolar de 20 bases no Hemisfério Ocidental.

Um território “cego e surdo”

Por volta da 1:50, tem início a fase ativa da operação. Antes de qualquer força entrar no terreno, os Estados Unidos lançam uma ofensiva de guerra electrónica e cibernética para “moldar o campo de batalha”. Radares, comunicações e sistemas de comando e controlo começaram a falhar.

“Foi uma operação militar que tinha, à partida, todos os meios necessários já na vizinhança da Venezuela, no Mar das Caraíbas, além das inúmeras bases militares a curta distância. 150 aviões, caças F-35, caças bombardeiros… havia um poder de fogo esmagador na região.

Além disso, houve uma fase clara de isolamento electrónico: os sistemas de radar, de armas e de defesa aérea foram empastelados.

O território onde decorreram as operações ficou, do ponto de vista militar, cego e surdo”, descreve o major-general Jorge Saramago.

Entre as 2:00 e as 2:20, a ofensiva intensifica-se. Sistemas de defesa antiaérea de origem russa, localizados em bases estratégicas como La Carlota e no Aeroporto de Higuerote, terão sido neutralizados antes da inserção das forças especiais. Antenas e centros de comando são destruídos para impedir qualquer coordenação de resposta.

Durante este período, moradores de Caracas relatam várias explosões num curto espaço de tempo, falhas generalizadas de energia e intenso movimento aéreo. “Caracas ficou às escuras e isso foi central para o sucesso da missão”, acrescenta Jorge Saramago.

De acordo com Dan Caine, apenas um helicóptero norte-americano foi atingido, mas permaneceu no ar.

Assalto e captura

Com as defesas neutralizadas, helicópteros de operações especiais avançam em direção ao complexo militar de Fuerte Tiuna.

A bordo seguiam elementos da Força Delta – “uma força criada na década de 70, fruto da identificação de uma necessidade, que era os destacamentos de operações especiais não estarem diretamente muito envolvidos no treino e nas operações contra o terrorismo”, segundo explica o tenente-general Marco Serronha – apoiados pelo 160.º Regimento de Aviação de Operações Especiais, conhecido pela capacidade de operar de noite, “a baixa altitude” e em ambiente urbano hostil.

Por volta das 2:50, as forças especiais aterram no interior do complexo com o objetivo de capturar Nicolás Maduro vivo.

Nos meses anteriores, as tropas de elite norte-americanas criaram uma réplica exacta do esconderijo de Maduro e praticaram a forma como entrariam na residência fortemente fortificada.

À sua chegada, Maduro e a mulher, Cilia Flores, surpreendidos, terão tentado refugiar-se numa sala segura reforçada com portas de aço, sem sucesso.

“As forças especiais estavam preparadas para esse cenário. Levavam maçaricos para cortar portas ou chapas de aço, se fosse necessário. Houve guardas neutralizados, houve confronto no exterior, mas a operação no terreno durou menos de meia hora”, explica o major-general Jorge Saramago.

“Foi uma operação planeada ao detalhe. Houve necessariamente um trabalho de inteligência muito forte no interior da própria Venezuela com colaboração de venezuelanos, fontes ou elementos da resistência, da oposição ao Governo, que permitiu localizar com precisão a sua posição e depois atacar de surpresa essa infraestrutura”, acrescenta Jorge Saramago.

Segundo um oficial venezuelano ouvido pelo New York Times, pelo menos 80 pessoas, entre civis e militares, foram mortas durante a ofensiva americana. O número oficial de mortos ou feridos não foi divulgado.

O ministro venezuelano da Defesa declarou que todos os guardas pessoais de Maduro, “essencialmente cubanos”, foram “mortos a sangue frio”.

“Maduro estava mais confiante na sua guarda do que aquilo que devia estar. O que é também uma lição identificada para outros líderes sul-americanos que ontem foram focados na conferência de impresa”, considera o tenente-general Marco Serronha.

A retirada de Maduro

Poucos minutos após a captura, tem início a fase de extração. O presidente e a mulher são colocados a bordo dos helicópteros, que levantam voo quase de imediato.

Cerca de 40 minutos depois do início da operação terrestre, já sobrevoam o Mar das Caraíbas, em direção ao navio anfíbio USS Iwo Jima, que serve de plataforma para a retirada.

“É um navio com cerca de 270 metros de comprimento, com uma boca de 40 metros, que transporta helicópteros e aviões com hélices. Portanto, tem um porte substancial”, explica o major-general Jorge Saramago.

Ao que a CNN apurou, o Iwo Jima fez escala na base militar dos EUA na Baía de Guantánamo, em Cuba. De lá, Maduro e a mulher foram transferidos para um avião, que pousou na Base da Guarda Nacional Aérea de Stewart, em Nova Iorque.

Trump confirma a captura

Já ao início da manhã de sábado, pelas 6:21, Donald Trump confirma publicamente a captura de Nicolás Maduro. Na Truth Social, escreve que os EUA levaram a cabo “com sucesso um ataque em grande escala contra a Venezuela” e que “o Presidente Nicolás Maduro, juntamente com a sua esposa, foi capturado e retirado do país por via aérea”.

“Esta operação foi realizada em conjunto com as autoridades policiais dos Estados Unidos”, acrescenta.

Vinte minutos após o anúncio do presidente norte-americano, a televisão estatal da Venezuela faz um pronunciamento onde classifica a ação como uma grave agressão internacional.

Segundo o comunicado, o acto “constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas, particularmente dos artigos 1.º e 2.º, que consagram o respeito pela soberania, a igualdade jurídica dos Estados e a proibição do uso da força”.

“O objectivo deste ataque não é outro senão confiscar os recursos estratégicos da Venezuela, particularmente o seu petróleo e minerais, ao tentar quebrar a independência política da nação pela força”, acrescenta.

A foto

Pelas 13:23, o Presidente norte-americano divulga a primeira imagem do seu homólogo venezuelano após a captura. Na foto, publicada na Truth Social, Maduro aparece com os olhos vendados, com fones de ouvido e, aparentemente, algemado. Até àquele momento, a localização exata de Maduro não era conhecida.

Pouco tempo depois, Trump anuncia, em conferência de imprensa em Mar-a-Lago, que os EUA vão governar a Venezuela “até que se possa fazer uma transição segura, adequada e sensata”.

“Não queremos que outra pessoa assuma o poder e que a situação se repita por muitos anos. Portanto, vamos governar o país”, acrescentou.

O Presidente norte-americano defendeu ainda que a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, não tem o respeito necessário para governar a Venezuela.

Já a vice-Presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, em discurso na televisão estatal de Caracas, afirmava então que Nicolás Maduro era o único Presidente do país e classificava a captura como um “sequestro” promovido pelos EUA.

No entanto, ao final do dia, a Câmara Constitucional da Suprema Corte da Venezuela ordena que a vice-Presidente assuma o cargo de Presidente interina do país na ausência de Nicolás Maduro, “a fim de garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”.

A chegada aos EUA

Pelas 18:40, o presidente deposto chega aos Estados Unidos. Nicolás Maduro é visto a desembarcar escoltado por mais de uma dúzia de agentes federais.

Às 23:00, é levado para o centro de detenção de Brooklyn. Diversas personalidades envolvidas em casos federais de grande repercussão, como Sean “Diddy” Combs, já estiveram detidas neste local.

O CNNJ, que é “extremamente perigoso”

De acordo com o especialista em Segurança Paulo Dias, a postura de Nicolás Maduro à chegada aos EUA mostra que “poderá estar a colaborar com as autoridades, em especial com a DEA”, numa acção concertada de maior dimensão.

“Maduro poderá falar muito mais sobre os cartéis que operam na Venezuela, nomeadamente um novo cartel, o CJNJ, que é extremamente perigoso e que poderá estar a aproximar-se cada vez mais da União Europeia, à semelhança de cartéis como o de Sinaloa, de Pablo Guzmán. Isso leva-nos a crer que um dos principais focos da DEA poderá ser ter Maduro do seu lado e obter informação sobre o que acontece não só no Caribe, mas em toda a América Latina.”

O tenente-general Marco Serronha lembra que, nesta operação, “era preciso capturar o high-evaluate target vivo e de boa saúde”, ao contrário do que aconteceu “várias vezes” no Médio Oriente. “Era mais fácil bombardear aquilo tudo mas, desta vez, [os EUA] não fizeram isso.”

O julgamento de Maduro e da mulher começou na segunda-feira e tem lugar no Tribunal Federal de Manhattan. Em causa estão acusações de tráfico de drogas e porte ilegal de armas.

in CNN

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