Salazar: o silêncio e a distância – Sousa Jamba
Salazar: o silêncio e a distância - Sousa Jamba
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Sempre me fascinou António de Oliveira Salazar. Numa das minhas primeiras visitas a Lisboa, muitos anos atrás, ainda na casa dos vinte, fiz um desvio quase íntimo: fui ao concelho de Santa Comba Dão, à aldeia do Vimieiro, à terra dele, como quem tenta aproximar-se de uma figura que, na imaginação, não cabia no molde ruidoso do ditador de manual.

Cresci na Zâmbia, com o ouvido educado por outras violências e a cabeça voltada para a história europeia. Tinha lido tudo sobre o Terceiro Reich: o pintor austríaco falhado, a humilhação de Versalhes transfigurada em combustível, o ódio elevado a doutrina.

Vira aquelas imagens de balcão, a voz aguda a rasgar o ar, a multidão a responder como se obedecesse a um mandato antigo. Também me intrigara Mussolini, com a sua teatralidade de opereta: as luzes acesas pela noite dentro para que a cidade acreditasse no labor incessante; os discursos em superlativo, como se a frase precisasse de músculo para se tornar verdadeira.

Salazar era outra coisa. Não oferecia palco. Não pedia coro. Quando penso nele, não vejo o tribuno: vejo um reitor severo, um director de internato para quem a disciplina era vocação e a suspeita, método. Ou um padre que nunca chega a bispo, não por falta de fé, mas por carência de brilho. Parecia mais à vontade entre livros de contas do que entre estandartes. O poder, nele, não se exibia; administrava-se.

E havia um pormenor que sempre me soou estranho, quase obsceno na sua frieza: Salazar nunca pôs os pés em solo africano. Falava-se de um império como se fosse extensão natural do corpo nacional, um mapa repetido até se tornar oração; e, no entanto, ele não viu os rios, nem as montanhas, nem o pó, nem a luz.

Não viu sequer as pessoas. Governava territórios que não cheirou, que não escutou, que não provou. África, para ele, parece ter sido sobretudo papel: relatórios, estatísticas, telegramas, linhas num atlas, números num orçamento.

Eu, angolano, fui à aldeia dele. Ele nunca veio à minha terra.

Essa inversão diz quase tudo. Não é a paixão imperial do aventureiro, com todos os seus pecados; é a indiferença metódica do contabilista do domínio. Um império inteiro mantido à distância, como se a posse dispensasse o conhecimento, como se governar dispensasse ver.

Quando eu era rapaz, em Angola, naquele intervalo que vai do 25 de Abril ao limiar da independência, quando de repente se podia falar e a linguagem ganhava uma coragem nova, Salazar era apresentado como o pior dos seres humanos.

E havia motivos para os quais não cabe nuance: a polícia política, a censura, as prisões; opositores arrancados de casa e empurrados para celas e ilhas; a guerra colonial, longa e exaustiva, a enviar levas sucessivas de rapazes portugueses para teatros tropicais onde a malária também fazia parte da instrução. Um império defendido a tiro; um país inteiro treinado a obedecer por dentro.

E, no entanto, quando ouço gente elogiar Salazar, sobretudo portugueses a elogiá-lo com um brilho de nostalgia, lembro-me da viúva que nunca diz mal do marido morto. Há rumores, há pequenos indícios, uma crueldade doméstica que não cabe na fotografia de família.

Mas a viúva guarda outra coisa, e essa outra coisa pesa mais do que o inventário dos golpes: a sensação de ter vivido ao lado de alguém que parecia conhecer as respostas. Não era teatro. Era segurança.

Depois da queda da monarquia e da sucessão de governos que vinham e iam como ondas curtas, depois da inflação e do cansaço público, Portugal não esperava apenas um tirano. Estava fatigado de humilhação.

A República prometera modernidade e entregara desordem. Nesse terreno, um homem de gestão, quase um gerente de banco, um professor de economia moral a falar de parcimónia e dever, podia parecer menos um usurpador e mais um remédio amargo. E, para muitos, o amargo soube a alívio.

É por isso que tantos o amam: porque vêem um homem que detestava o espectáculo. Fala com contenção, como um professor de matemática a explicar uma equação sem levantar a voz. E essa sobriedade, em certas memórias, confunde-se facilmente com probidade. Não acumulou riqueza vistosa; não coleccionou palácios.

Repetia os mesmos fatos escuros, e há fotografias em que quase se sente o ar fechado de uma sala onde se esteve demasiado tempo. Essa auto-negação, comparada com certos políticos de hoje, tão dados ao palco e à vaidade televisiva, produz um efeito enganador: Salazar acaba por parecer um avô severo, mas fiável.

A violência, porém, ficava atrás de portas fechadas. A censura fazia-se com prudência administrativa, como quem arquiva papéis e alisa arestas. A prisão apresentava-se como “correcção”, um acto quase pedagógico. E é aqui que a memória se parte em dois.

Os que nunca foram interrogados não se lembram do medo. Os que nunca sentiram a respiração da polícia política lembram-se do silêncio. Os que não tiveram filhos enviados para Angola, Guiné ou Moçambique lembram-se da paz. Uma ditadura que não grita pode escapar, no recreio popular, à categoria de monstrosidade.

Talvez por isso eu tenha querido ir à origem, não para absolver, mas para compreender. Eu, que vim do lado de lá do império, que cresci entre as consequências do seu silêncio, fui procurar o lugar onde aquele silêncio se formou.

E encontrei o que já suspeitava: uma paisagem pequena e contida, sem drama, como o homem, como o regime, como a violência que se pratica em voz baixa e que, precisamente por isso, demora tanto a ser reconhecida como violência.

*Jornalista e escritor

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