
O antigo chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar (SISM), general António José Maria (Zé Maria), foi o mais fiel escudeiro de José Eduardo dos Santos. Era uma espécie de Sancho Pança. Sempre ao lado do seu Dom Quixote. Sempre pronto para defender e aconselhar. Mesmo quando o caminho parecia impossível. Continua a sê-lo.
A lealdade e o patriotismo do general Zé Maria são raros nos dias de hoje nas instituições do Estado angolano. Encontrar alguém assim é como tentar perscrutar a luz na escuridão.
Quando o então Presidente decidiu abandonar a vida política e indicar João Lourenço como sucessor, Zé Maria opôs-se. Disse que era um erro. Que o escolhido não era o quadro certo. Que o país corria o risco de andar para trás. Não foi ouvido. A decisão já estava tomada.
Os anos passaram. O desencanto chegou. Em 2022, saturado com o rumo do País, escreveu ao Chefe do Estado-Maior General das FAA. Pediu algo raro num general. Nada de honras militares. Nada de aparato. Nada de rituais oficiais. Desejo de um futuro morto. Gesto que fala mais do que palavras.
Do outro lado está Rui Mangueira. Figura do aparelho do Estado. Jurista e diplomata. Antigo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos. Presidente do conselho de administração de um banco. Homem do Sistema. Morreu em Pamplona, Espanha.
Não surpreende. A elite dirigente angolana trata-se fora. Não confia no Sistema Nacional de Saúde que tutela. É prática instalada. Um facto. Um ritual.
Rui Mangueira não regressa à pátria-natal. Nem morto. Foi velado na Basílica da Estrela. Passou pela Capela de Nossa Senhora do Carmo. Foi cremado em Carnide. Tudo em Lisboa. Alheio ao País que serviu durante décadas, como se fosse um servidor apátrida.
O funeral no estrangeiro deixa o partido a que pertenceu e o Estado angolano expostos. Embaraçados. Um gesto que ecoa como falta de patriotismo. Sinal político. Até no último acto, Rui Mangueira comunica distância. Descompromisso. Frieza em relação ao País que serviu.
O simbolismo é claro: Quem governou e moldou o Estado, no fim, rejeita o ritual nacional e a ligação simbólica ao próprio partido. Recado silencioso. Pesa mais do que qualquer discurso.
O cidadão-eleitor atento captou a mensagem. A razão não foi explicada. Pode ter sido vontade própria. Pode ter sido decisão da família. O silêncio também diz tudo. O simbolismo é inevitável.
Um homem do Estado que termina fora dele. Sem regresso. Sem chão nacional no último acto. A sua última morada tornou-se símbolo do descompasso entre serviço, pertença e patriotismo.
O Ministério das Relações Exteriores tratou do protocolo possível. Informou que as exéquias poderiam ser acompanhadas em Luanda, por via virtual, a partir do Hotel de Convenções de Talatona.
Uma despedida por ecrã. Remota. Fria. Administrativa. Coisa chique, mas sem sal e sabor. Muito pouco angolana. Dignidade. Palavra pequena. Conteúdo imenso. Dignidade é coerência moral. Política. É vínculo. É pertença. Pratica-se. Até ao fim. E é o que se espera de um servidor do Estado.
Angola já falhou. Falhou com José Eduardo dos Santos. Um antigo Chefe de Estado sem o tratamento simbólico que a sua condição exigia. E continua a falhar. Nos vivos. E nos mortos.
Há dirigentes angolanos que servem o País, mas não o amam. Até na hora da morte escolhem o estrangeiro. Desconfiam dele. Abandonam-no. Até ao fim.
*Jornalista