
Em qualquer Estado que se preze, os serviços secretos têm, para além de outras missões, um papel inquestionável: proteger o Chefe de Estado de embaraços institucionais.
Antes de uma condecoração, devem cruzar informações, verificar antecedentes e alertar para riscos políticos e judiciais. Essa é a sua missão fundamental — e não uma mera formalidade.
Mas, em Angola, a pergunta é inevitável: o SINSE alertou o Presidente da República sobre gestores e ex-gestores públicos envolvidos em escândalos de corrupção e foi ignorado, ou simplesmente não cumpriu o seu trabalho?
O caso Carlos Sumbula
Nas redes sociais circulam notícias sobre Carlos Sumbula, ex-presidente da Endiama, condecorado em Julho pelo Presidente João Lourenço com a medalha de “Paz e Desenvolvimento”, no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência.
Segundo esses relatos, Sumbula está associado ao processo n.º 38/GACI/2021, resultante de uma queixa apresentada a 7 de Março de 2021, pela Horizon Royal Diamond, por alegada burla e defraudação de mais de 78 milhões de dólares em negócios de diamantes nunca entregues.
A denúncia sustenta ainda que havia a prática de exigir um “prémio” em cada transacção, ilustrando o padrão de corrupção sistémica no sector diamantífero.
É certo que Sumbula, como qualquer cidadão, goza da presunção de inocência até decisão judicial em contrário. Esta reflexão não é julgamento, mas um alerta: se for verdade, estamos perante uma contradição gritante entre o discurso e a prática presidencial.
A ponta do icebergue
O caso Sumbula pode ser apenas o início. Se outros nomes condecorados surgirem associados a escândalos, instala-se uma armadilha institucional: como poderá a PGR avançar contra quem o Presidente distinguiu?
É aqui que o papel do SINSE se torna decisivo. Porque, se não tiver feito bem o seu trabalho de triagem e alerta, terá contribuído para amarrar a justiça angolana às escolhas políticas do Presidente.
Entre duas hipóteses graves
Há apenas duas leituras possíveis:
1 – Ou João Lourenço mudou de estratégia em fim de mandato e, ao contrário do primeiro ciclo, decidiu premiar figuras marcadas por escândalos de corrupção a troco de algo que o país desconhece;
2 – Ou o SINSE falhou na sua missão e deixou o Estado vulnerável, empurrando a PGR para a passividade e o engavetamento de processos.
Ambas as hipóteses são más para Angola.
O risco quando os serviços secretos falham
A presença pública do Chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala, na primeira fila destas cerimónias de condecorações, fardado, com três estrelas a brilhar nos ombros e em posição de destaque na TPA, transmite a ideia de que tudo foi avaliado e legitimado.
Mas, se a triagem não aconteceu, estamos perante um escândalo com consequências sérias: não apenas se banaliza a corrupção, como se compromete o futuro da justiça em Angola — sobretudo se o MPLA ganhar as eleições de 2027 e continuar a controlar o aparelho do Estado.
As condecorações deviam ser sinal de mérito, não de impunidade. Se o SINSE não tiver feito o seu trabalho de alerta ao Chefe de Estado, estará a hipotecar a credibilidade do sistema judicial e a condicionar a actuação da PGR.
E se, pelo contrário, o Presidente tiver decidido conscientemente premiar figuras sob suspeita, então o combate à corrupção foi apenas uma bandeira descartável, sem qualquer estratégia futura.
O futuro amarrado
De uma forma ou de outra, o futuro de Angola fica amarrado. Como o Procurador-Geral da República é nomeado pelo Presidente da República, dificilmente exporá ao ridículo quem o nomeou.
O mais provável é vermos um silêncio cúmplice da PGR diante de notícias como a de Sumbula e outras que poderão surgir.
Existe claramente uma grande probabilidade de assistirmos a um silêncio total da PGR perante notícias que envolvam condecorados pelo Presidente da República.
Dito de maneira ainda mais clara: se o SINSE não fez o seu trabalho, ou se João Lourenço decidiu premiar a corrupção, a justiça será mantida em sonegação — não para proteger o povo, mas para proteger a “boa fotografia” das medalhas presidenciais.
E, convenhamos, não há nada mais irónico — ou mais trágico — do que um país celebrar “Paz e Desenvolvimento” enquanto condecora os campeões da opacidade.
*Jornalista