
Faltando pouco mais de dois anos para o fim do desastroso consulado de João Lourenço, uma conhecida soldadesca digital implora, raivosa e estridentemente, a imediata suspensão da actual ordem constitucional, o que implicaria a dissolução da Assembleia Nacional e de todas outras instituições incontornáveis num verdadeiro estado democrático de direito.
Essa soldadesca desavergonhada prega a dissolução das instituições para, alegam, dar lugar ao que chamam uma Nova República, onde imperaria a estabilidade. Estabilidade essa que só pode ser garantida pelo actual Presidente da República que, nos termos da CRA, está de saída.
“Num momento em que Angola precisa mais do que nunca de estabilidade, liderança e visão estratégica, torna-se evidente que apenas João Lourenço reúne as condições para garantir esse rumo seguro”, trovejou, na manhã de segunda-feira, o chefe da soldadesca digital que expõe os seus maus fígados num portal propositadamente criado para construir em torno de João Lourenço a imagem de salvador da pátria.
No domingo, o chefe adjunto dos soldados a soldo, escreveu isso: “(…) João Lourenço está a enfrentar situações prementes, condicionadoras do desenvolvimento, e nem no seu MPLA tem encontrado a harmonia exigida para consolidar a mudança (..). Por isso, “Impõe-se a dissolução do Parlamento, a marcação de eleições para uma Assembleia Constituinte, com novos Partidos de matriz ideológica formalizados durante uma ano, discutir e aprovar uma Nova Constituição durante um ano, e de seguida eleições gerais para o governo nos moldes em que a Nova Constituição adoptar. Até lá, com prazos bem definidos, teremos um Governo de iniciativa presidencial até que com a Nova Constituição tome posse o primeiro governo da Nova República”.
No mesmo dia, o chefe corroborou o adjunto.
“A proposta que se apresenta — dissolução do Parlamento, convocação de uma Assembleia Constituinte, criação de novos partidos e elaboração de uma nova Constituição — não representa um rompimento irresponsável com o passado, mas sim um passo firme em direcção a um futuro mais transparente, representativo e coeso”.
Ou por ingenuidade ou porque a isso foi autorizado, o chefe da soldadesca envolveu directamente o Presidente da República na trama que visa, em primeiro lugar, impedir a realização das próximas eleições no prazo previsto.
“O Presidente da República, ao assumir a liderança deste processo, demonstra não apenas autoridade constitucional, mas também sensibilidade histórica. A iniciativa presidencial de guiar o país por este período de transição é um sinal de responsabilidade e compromisso com os valores democráticos. Trata-se de uma refundação — um novo contrato social entre o Estado e os cidadãos”.
Assim e baseando-nos, apenas, no que a soldadesca a soldo vem despejando no espaço digital, temos que o Presidente da República orquestra directamente uma perturbação constitucional que, de entre outros objectivos, visa:
a) a dissolução da Assembleia Nacional;
b) criação de uma Assembleia Constituinte, com o propósito de alterar a actual Constitucional da República, muito provavelmente estabelecendo mandatos indefinidos ao Presidente da República;
c) criação de novos partidos políticos com matriz ideológica determinada pelo único “garante da estabilidade”, João Lourenço;
d) consagrar, na pretendida constituição, a subordinação ao único “garante da estabilidade” dos poderes legislativo e judicial;
e) eliminar, na pretendida constituição, as liberdades de imprensa e de expressão.
Ou seja, um a consagração de um Estado ditatorial.
Mas, justiça lhe seja feita: a soldadesca está a prestar um inestimável serviço ao povo angolano ao pô-lo a par, com minúcia, dos planos golpistas do Presidente João Lourenço.
A Angola com que o “garante” da estabilidade sonha é aquela Angola refletida na Lei da Segurança Nacional, na Lei contra o Vandalismo, no Pacote legislativo sobre as eleições. Ou seja, uma Angola totalmente submissa, um Angola em que os cidadãos percam totalmente sensibilidade à dor e ao desespero.
É bom puxar pela memória: João Lourenço, a quem a soldadesca atribui a liderança do processo de desmantelamento das instituições que deveriam conformar um estado democrático de direito, foi o primeiro presidente da comissão que elaborou a actual Constituição. Nos seus contornos, a CRA faz do Presidente da República um semi-deus, de quem tudo depende.
Ora, se João Lourenço hoje se mostra inconformado com uma constituição que lhe confere poderes imperiais, o que é que os angolanos devem esperar de um Presidente da República que emergiria da dissolução da Assembleia Nacional e de eleições convocadas quando lhe desse na real gana?
Há muitos angolanos não passa despercebido o facto de João Lourenço aproximar-se dos actuais líderes do Burkina Faso, Níger e Mali, que chegaram ao poder por via de golpes de estado que ele, João Lourenço, disse reprovar veementemente.
Enquanto a generalidade dos angolanos anseia por regressar às urnas para virar a página, a soldadesca digital a soldo navega em sentido contrário. Ela entende que João Lourenço “deve continuar. Porque é o único que, com coragem, tem enfrentado os interesses instalados, combatido a corrupção e promovido reformas estruturais. João Lourenço representa a estabilidade, a continuidade e a esperança de um futuro melhor para Angola. E neste momento crítico, é disso que o país mais precisa”.
Tomada pelo medo e pelo desespero, a soldadesca a soldo acaba por apontar o Presidente João Lourenço como epicentro da instabilidade política e do atraso económico e social do país.
Cientificamente, não está provado que a cabualala (diarreia) seja contagiosa. Mas, e ao que tudo indica, a soldadesca também foi tomada por algum descontrolo intestinal.
PS: Recentemente, o Presidente João Lourenço autorizou o Ministério das Finanças a contrair ao Deutsche Bank uma dívida de 251 milhões de euros para a construção de uma cadeia de segurança máxima em Malanje.
Se o plano golpista atribuído a João Lourenço vingar, os primeiros habitantes dessa cadeia serão altos dirigentes do MPLA e da UNITA.
*Jornalista