Sonangol de saída do BCP? A decisão depende de João Lourenço
Sonangol de saída do BCP? A decisão depende de João Lourenço
Jlo23

É um cenário que parece ganhar cada vez mais força: a Fosun e a petrolífera angolana Sonangol poderão estar de saída da estrutura de capital do Banco Comercial Português (BCP), o que deixaria (muito provavelmente) o banco português sem accionistas de referência. Essa é uma realidade com a qual a banca europeia já convive há muito.

A entrada da Sonangol no capital do BCP foi uma decisão política do antigo Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, e a sua saída, em última análise, será do Presidente da República, João Lourenço. Isso mesmo está patente num memorando da petrolífera, datado de Agosto de 2020, segundo o jornal português Negócios.

A petrolífera angolana e o conglomerado chinês desempenharam um papel importante na recuperação do banco liderado por Miguel Maya e Nuno Amado, quando adiantaram dinheiro em momentos cruciais em 2008 (no rescaldo da guerra de accionistas do BCP) e em 2017 (quando foi preciso devolver a ajuda pública ao Estado de mil milhões), respectivamente. Mas agora esse ciclo está a fechar.

A agência Reuters avançou esta semana que a Fosun – pressionado pela dívida – estava a explorar a venda da sua posição de 20,03% no BCP, tendo conversado com o Caixabank e o BBVA sobre essa possibilidade. A Sonangol admitiu que enfrenta “muita pressão” de fundos estrangeiros para vender a participação de 19,5%.

Para o BCP, “a situação sólida” que vive nos dias de hoje deixa o CEO do banco tranquilo em relação a mudanças na estrutura accionista da instituição.

“Não me preocupo com nenhuma necessidade de vir a precisar de capital. A necessidade de ter acionistas com capital para suportar o banco faz parte do passado e não do futuro”, afirmou Miguel Maya na conferência de apresentação dos resultados de 2023, sem deixar de agradecer à Sonangol e Fosun: “Estamos gratos, reconhecidos, foram e são muito importantes na vida do banco”.

Na altura, e depois de anunciar lucros históricos de 856 milhões de euros e dividendos de 250 milhões, o gestor destacou ainda outro aspecto: “Na medida em que o banco tem situação sólida, o normal era ver o BCP a evoluir como os grandes bancos europeus e norte-americanos, que tem um free float: nós temos 60% e grandes bancos têm um free float nos 90% ou mais”.

O free float corresponde à parte das acções que estão dispersas na bolsa e não se encontra nas mãos de accionistas de referência, como representam a Sonangol e a Fosun para o BCP.

Dois terços com 90% de free float

Ter accionistas de referência possa assegurar maior estabilidade a um banco, na medida em que em situações de crise estarão lá para injectar dinheiro para cobrir eventuais prejuízos, mas António Nogueira Leite, economista e ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD), salienta que o mais importante é outra coisa: “Uma instituição ter a capacidade de se financiar no mercado porque os investidores confiam no projecto e na gestão”. Isso acontece nos EUA e também na maioria dos grandes bancos na Europa.

“A importância de ter accionistas de referência é relativa. Podem ser relevantes se forem instituições idóneas e fortes. Às vezes podem estar muito alavancadas ou não terem a melhor reputação”, diz António Nogueira Leite.

Em 27 instituições financeiras que fazem parte do índice sectorial Stoxx Europe Banks e os três principais bancos britânicos, 18 bancos (60%) apresentavam-se com uma estrutura em que cerca de 90% do capital ou mais estava disperso em bolsa, de acordo com os dados da Refinitiv.

Esses eram os casos dos espanhóis BBVA, Santander e Sabadell, do francês BNP Paribas, dos italianos Banco BPM, Intesa Sanpaolo ou Unicredit e dos britânicos Lloyds, HSBC e Barclays, por exemplo. O free float do neerlandês ING e do italiano Finecobank é de 100%.

BCP tem um dos free floats mais baixos

Por seu turno, o francês Credit Agricole é o banco com o free float mais baixo: 32,87% das acções negoceiam livremente na bolsa enquanto aproximadamente 60% pertencem à cooperativa de bancos regionais.

A situação actual do BCP dá conta de um free float na ordem dos 60%. É o quarto banco europeu com o free float mais baixo, à frente apenas do Caixabank (dono do BPI), do Raiffeisen e do Credit Agricole. Se a Fosun acabar por alienar a sua posição de 20% no mercado e não outro parceiro de referência, o banco português passará a dispor de uma dispersão em bolsa na casa dos 80%.

O free float do BCP subirá para 100% caso a Sonangol também desinvesta, como já deu entender.

com/Eco

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido