
Lindomar Castilho foi um ex-cantor, instrumentista e criminoso brasileiro. Uma das suas músicas mais emblemáticas, que fez muitas famílias angolanas remexer o esqueleto, reza o seguinte: “Se Eu Pudesse Caminhar Sozinho/Sem o Seu Carinho Seria Melhor(…)//“.
A música fez muito sucesso. No Brasil e em Angola. Portugal também apreciou-a. Não tenho jeito para lírica. Muito menos para cantilena de fazer uma donzela tremer dentro do vestido. Mas, em boa verdade, digo: Se o MPLA pudesse caminhar sozinho sem o “carinho” da UNITA seria melhor.
Para o que venho, gostaria de partilhar a cantilena dos antigos membros da Luta Contra Bandido (LCB): “Tenho Saudades da Minha Mãeee/Quando Lhe Penso Começo A Chorar/ Ficarei Assim/Ficarei Assim/ Ai/Ai Minha Mãeeeee//“. Este é o refrão da melopeia pela qual os mancebos das FAPLA que, em nome do MPLA, se propunham dar o corpo ao manifesto pela Pátria avocavam.
Até 22 de Fevereiro de 2002, a relação entre o MPLA e a UNITA era do tipo arrufo de namorados incapazes de resolver os seus problemas. Um virou galo. No pensamento do outro, tinha de acabar na panela. O oponente achava que era preciso acabar com o “pace-maker” para que Angola deixasse de estar no coração do seu adversário.
Hoje o MPLA e a UNITA andam de “beijinho-beijinho”. Um não vive sem outro. São inimigos de estimação. Quem perde, nesta briga de “marido e mulher”, são os angolanos. É o País que fica adiado.
Quem os apoia são todos aqueles que acreditam piamente que a UNITA e o MPLA são o Alfa e o Omega dos angolanos. Não é verdade.
Sou daqueles que foi “educado” durante a infância e a adolescência a odiar a UNITA e o seu líder. Fui ensinado que tudo devíamos ao MPLA. Desde à formação à constituição de um lar. De uma família.
O que foi que aprendi sobre a UNITA na infância e adolescência? Que era um grupo de lacaios pagos por dólares americanos que lutava contra o povo angolano e a integridade territorial. Contra a Independência Nacional. Eram judas dos seus irmãos angolanos.
E que, de acordo com Santocas (António Sebastião Vicente), seriam julgados. Pelo povo. Era isto que nos inculcavam nas fileiras da OPA. Foi assim que fomos doutrinados.
O tempo passou. A roda do tempo girou. Hoje sou um homem. De barba rija. Olho para trás e vejo que tudo não passou de uma igrejinha. Convenceram-nos, através da “catequese” que nos era ministrada na OPA, que a UNITA era um bando de fantoches armados. Que era preciso combate-la até à última munição.
Hoje temos um MPLA que contraria o refrão da música de Lindomar Castilho. Os militantes do MPLA e da UNITA estão-se nas tintas para os cidadãos. Muitos deles são sócios em diversos negócios. Têm
interesses em comum.
Os cidadãos são quem se digladiam em nome do MPLA e da UNITA, enquanto os seus dirigentes viajam em primeira classe. Bebericam whisky Macallan 60 anos em amena cavaqueira ou alegre folguedo. Têm negócios conjuntos.
Não votam quando se tratam de projectos de leis estruturantes. Mas levantam a mão quando se trata de aprovar tudo que tenha a ver com benefícios pessoais decorrentes das responsabilidades políticas inerentes.
A UNITA quer recuperar o tempo perdido. Também quer ter o mesmo estilo de vida dos membros do MPLA. É preciso recuperar o tempo perdido nas matas e no estrangeiro. Assim pensam.
Por isso o MPLA e a UNITA, hoje, são cúmplices. Nos mesmos lençóis. Na mesma mesa. A diferença entre eles é mínima. Ou quase nenhuma. Um é a muleta do outro. Nenhum consegue caminhar sozinho. O MPLA caminha de mãos dadas com a UNITA. Para que? Para lixar o cidadão angolano.
O MPLA sem a UNITA não sobrevive. E a UNITA sem o MPLA deixa de existir. O MPLA sem a UNITA não tem argumentos para se manter na vida política depois de meio século de existência ter provado o que (não) vale. A UNITA já mostrou o que (não) é politicamente capaz.
Será que se o MPLA pudesse caminhar sozinho sem o “carinho” da UNITA seria melhor? Você decide!
Post Scriptum: No meu último artigo intitulado “CAPOSSO NO PAÍS DAS CONFUSÕES”, atribui erradamente a deputada Lourdes Caposso a alusão feita ao livro de Lewis Carrol: Alice No País das Maravilhas.
Na verdade, a alusão foi feita inicialmente por David Boio. Por isso aqui deixo lavrada as minhas desculpas à tribuna Lourdes Caposso. Quanto ao resto, mantenho. Tudo igual. Igualito como em Cuba.
*Jornalista