“Temos que nos perdoar verdadeiramente para fazer o país avançar” – Dom Afonso Nunes
"Temos que nos perdoar verdadeiramente para fazer o país avançar" - Dom Afonso Nunes
tocoista

Fundada pelo nacionalista e profeta Simão Gonçalves Toco, a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoísta) rompeu barreiras e desafios, e expande hoje, pelo mundo, a sua visão do cristianismo. Desde 2000, o bispo Afonso Nunes lidera, a partir da sede em Luanda, essa igreja histórica que, aliás, diz em entrevista, merece ser elevada a património cultural imaterial de Angola.

“Deve ser um orgulho para os africanos, e para os angolanos em particular, ainda que não seja tocoísta, ter uma igreja no seu país que sobreviveu, passou por muitas dificuldades e intentonas, e agora expande-se pelo Mundo. É um património nacional”, diz o líder religioso que, no último domingo, num acto alusivo aos “40 anos do repouso no coração da terra do corpo sagrado do profeta Simão Gonçalves Toco”, propôs que a estrada que liga o Novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto fosse chamada “Estrada Simão Gonçalves Toco”, como reconhecimento pela sua contribuição para a Independência Nacional.

Enquanto líder religioso, estando no início do ano, que mensagem é que se lhe apraz deixar aos angolanos?
Desde já, agradeço pela cortesia. Tive antes um encontro com o PCA da Edições Novembro, Drumond Jaime, que apresentou pessoalmente essa vontade de fazer esta entrevista. Por isso, agradeço pela gentileza. E prometo fazer igualmente uma visita ao Jornal de Angola, pois me disse que há mudanças para ver. Quanto à mensagem aos angolanos, primeiramente agradecemos a Deus por nos ter guardado estes 365 dias que passaram, que não foram fáceis, mas com a Sua ajuda pudemos atravessar e estamos aqui no Ano Novo. Agora, a esperança é que este ano seja melhor do que o passado. Entretanto, não será melhor do que o passado se não nos dedicarmos ao trabalho, ao amor ao próximo e, sobretudo, termos Angola como centro daquilo que são as nossas ideias, pensamentos e acções. Todas as nossas forças devem ser direccionadas para as famílias, para o país, de modo que, quando terminar o ano, possamos fazer um novo balanço positivo.

Temos todos que contribuir…
E contribuir não só no trabalho, mas também na oração, pois as forças ocultas também operam no mundo físico, procurando às vezes desestabilizar. Por isso, a oração também é importante para que possamos ter a capacidade de lutar contra as forças ocultas nocivas, que só procuram diabolizar o pouco que se faz. Temos igualmente que unir as nossas capacidades físicas e intelectuais enquanto povo. Por isso, digo que, para o angolano, a esperança não pode morrer. Enquanto existimos como crentes, como cristãos, temos que continuar a acreditar que o país ainda tem muito para nos dar se nós também dermos algo ao país. E por isso, peço aos angolanos, nesta minha mensagem, que parem com as querelas, intrigas, fofocas, conflitos, etc. Que este ano sejamos de facto novas criaturas, e criemos um clima de paz, harmonia e solidariedade. É importante que, em qualquer lugar onde passarmos, deixemos um “perfume” bom, que agrupe pessoas, que toque os corações e promova a paz e a harmonia.

Ainda bem que se refere à harmonia, reconciliação e esperança nesta mensagem. É que ao longo do ano passado, vimos o bispo Dom Afonso Nunes bastante interventivo, reiterando sempre essa mensagem. Acredita que, mais do que nunca, precisamos disso?
Sem dúvidas. Onde há desordem, desunião e desentendimento, onde não existe perdão, unidade, não pode existir trabalho. E tudo que fizermos será destruído. Por isso mesmo, a reconciliação e a unidade baseiam-se também no perdão. E esse perdão, digamos assim, deve ser verdadeiro e sincero, que venham do coração. Ora, o perdão cancela, anula todos os males. Enquanto as desculpas, que saem de boca para fora, não cancelam nada. Por isso, temos que nos perdoar uns aos outros verdadeiramente para que possamos criar condições para o país avançar. E o cristianismo tem esse valor importante: perdoar, amar. Quem ama, perdoa. Onde há perdão, há amor; onde há amor, há trabalho e progresso. Por isso, a minha mensagem foi sempre esta. Devemos olhar o país como ponto de convergência, é a mãe de todos nós, independentemente da nossa ideologia, crença religiosa ou filiação partidária. Temos que nos sentir simplesmente angolanos, com ambição de levar o país ao desenvolvimento. Isso implica uma reconciliação verdadeira, baseada no cancelamento de tudo de mal quanto se passou. A Bíblia ensina-nos que quem busca coisas passadas, também procura levantar conflitos. É preciso esquecer o passado, embora seja difícil. Mas para o crente, é possível esquecermos o passado e começarmos uma vida nova. Isto é importante para edificarmos a nossa Angola, sem rancores, sem reservas.

Olhando agora para a vida interna da igreja, que balanço faz em termos de crescimento, em Angola, em particular, e no mundo, em geral?
A Igreja é uma organização militante de Cristo. É uma organização que milita sem armas, é uma luta espiritual, e por essa razão, às vezes, caminha no deserto árido; mas por ser obra de Deus, podemos dizer que até aqui o Senhor nos ajudou. Ebenézer! O ano foi muito frutífero, sobretudo em relação ao nosso trabalho espiritual e eclesiástico, e também social. No ano que terminou, isso no dia 6 de Janeiro, propusemo-nos a realizar a conclusão de três templos, um no Moxico, um em Portugal e outro na República Democrática do Congo (Kinshasa). Graças a Deus, conseguimos concluir estes templos, e colocámos os fiéis em condições mais dignas para adorar a Deus. Conseguimos, com a graça do Senhor, atingir mais pontos para levar a Palavra, hoje estamos em mais países. Agradecemos a Deus, mas também à entrega dos homens, nomeadamente dos pastores, dos anciãos, dos bispos, e de todos os crentes. Todos deram o melhor de si para que 2023 fosse produtivo. Bom, diga-se, também tivemos perdas assinaláveis e pontos negativos…

Que perdas?
Mortes. Lamentamos muito a perda de muitos irmãos. Perdemos membros de proa que ainda poderiam dar mais à Igreja. Só ao nível da direcção, tivemos quatro óbitos. Eram pessoas muito próximas, auxiliares do nosso trabalho. Ajudavam bastante! Como servos do Senhor, no momento da alegria e da tristeza, damos sempre glória a Deus. O sofrimento e os contratempos ensinam-nos a sermos cada vez mais pacientes e experientes. Em tudo demos graças ao Senhor. Importa ainda assinalar algo que não estava inicialmente previsto no nosso plano, mas que conseguimos concretizar, que é a Rádio Negage. O edifício terminou e esperamos concluir a montagem do equipamento, que neste momento ainda está fora do país.

Em termos de expansão, a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoísta) está neste momento em quantos países?
Neste momento, estamos em mais de 30 países. Em alguns países temos a Igreja já bem instalada, noutros ainda estão na fase de missionação. Por exemplo, nos EUA, concretamente em Washington, a Igreja está a começar. Há um casal missionário que está a fazer o trabalho. Há também uma missão similar no Japão. Aqui em África, temos que atingir, neste ou no próximo ano, o Rwanda, Uganda, Malawi, Moçambique e o Zimbabwe. Depois destes países, teremos de virar as atenções para a África do Norte.

Lembrando o profeta Simão Toco, e vendo esta visão de expansão de uma Igreja angolana, é esta uma maneira de os africanos darem a sua visão sobre o cristianismo, sobre a fé em Deus?
Sem Simão Toco, não há tocoístas. Afonso Nunes é emanação espiritual de Simão Gonçalves Toco, que o tirou do lixo no ano 2000, para que através dele levantasse a Igreja conforme está hoje. Respondendo concretamente à sua questão, devo dizer-lhe que África tem um problema que precisa de ser resolvido. Não sei como, mas temos que corrigir. A começar pelas elites políticas, e depois por todos nós. África até hoje ainda está presa: não dá a devida importância àquilo que é seu. A nossa religião africana não é tão respeitada… Não lhe dão a dignidade que merece, assim como os ocidentais deram dignidade à Igreja Católica. Ainda não estamos libertados da mentalidade de colonizados. Os africanos ainda acreditam que os europeus são os únicos que podem falar de Deus. Os africanos não podem dizer que também viram ou ouviram Deus. Os próprios africanos não acreditam, antes pelo contrário procuram atrofiar, desacreditar. Digo isso com muita tristeza, e ainda bem que falo num órgão público. Espero que isso seja publicado, pois precisamos de mudar de mentalidade. Deus não é Deus de brancos ou de pretos, ou de amarelos, se me permitem. Deus é de todos, de toda a Terra e enche-nos a todos. Significa dizer que da mesma forma que falou com Moisés, também falou aqui com Simão Gonçalves Toco, em Catete. Vamos continuar a adorar e a fazer aquilo que fazemos, que é a expansão da nossa fé, para mostrarmos que Deus, que alegadamente vieram ensinar-nos os europeus, já existia antes deles aqui chegarem, e continua connosco.

Trata-se de uma mudança dos próprios africanos…
Nós africanos é que precisamos de mudar, pois ninguém pode ser liberto se não entender que deve ser liberto. Quem não entende que está preso, não será liberto. O africano, ao não respeitar a sua própria religiosidade, a sua espiritualidade, dificilmente vai avançar economicamente; mesmo politicamente, não será livre de tomar decisões próprias. Porquê? Porque não tem bases, não tem raízes. O mundo não é somente físico, é também espiritual: ao não respeitarmos os nossos ancestrais, que nos legaram estas religiões, e que lutaram pela independência, ficamos sem bases para sustentar a própria ideia de independência. Vou deixar claro que a independência não foi somente conquistada com armas. É isso que os políticos não gostam de dizer. Antes de se começar a fazer política, de se pegar em catanas, já havia os que pregavam a liberdade com a Bíblia…e pregavam também o fim do colonialismo.

E entre estes, o profeta Simão Gonçalves Toco…
Claro. Antes de existirem partidos em Angola, os tocoístas já estavam a sofrer nas cadeias do regime colonial. Por isso, é preciso que os africanos respeitem a sua própria religiosidade. Não podem desprezá-la como o fazem. Quem está a dizer-lhe isso, caro jornalista, é o líder espiritual de uma Igreja no Mundo. Não sou padre, e nem sou contra eles, mas se aparecer um padre e um líder como eu, o respeito é só dado ao padre. No fundo, sou desprezado por ser de uma Igreja Africana, que não tem sede na Inglaterra, nem na Itália, nem na América. Temos sede em Luanda, mas estamos espalhados pelo Mundo. Então, a tendência é colocar-nos sempre em segundo plano. Precisamos de nos libertar para sermos autores da nossa própria caminhada.

Nos estudos sobre a História do Cristianismo em África, desde, por exemplo, o trágico fim da profetisa Kimpa Vita, fala-se sobre uma identidade na religiosidade africana, seguida por profetas como Simão Gonçalves Toco…
Pensamos que não podemos parar e chorar para que os outros nos compreendam ou nos valorizem. Nós faremos a nossa parte e mostraremos que temos um poder que recebemos dos Anjos, para que os nossos concidadãos africanos, que dão pouco valor à religião africana, a possam de facto respeitar. Veja, Kimpa Vita morreu porquê? Foi queimada porque anunciou que viria nascer aquele que seria Cristo negro. Essa mensagem foi uma ofensa para os catalíticos da época. Então queimaram Kimpa Vita viva. Nunca ninguém julgou isso. Que autoridade africana algum dia questionou o Vaticano sobre isso? Que crime cometera? Pelo contrário, dão força a essa versão. Kimbangu foi preso porque Deus lhe disse que podia curar com água. E curou mesmo! Foi preso e condenado. Alguém já questionou isso àqueles que o condenaram? Fica a questão. Simão Toco disse que viu Deus e também foi preso. Foi diabolizado, satanizado. Cumpriu 23 anos de prisão, trabalhos forçados, perseguição, e ainda sofreu mais nove anos, na nossa própria terra, de perseguição, diabolização, atentados contra a sua vida… Tudo isso porque era preto e disse que falava com Deus. O que é estranho é que, mesmo na nossa terra, e já na Angola independente, Simão Toco foi perseguido e diabolizado somente por dizer que Deus queria que os irmãos se unissem, que não podia haver mais conflitos, para que a nossa terra pudesse florescer. Mas se viesse alguém de longe, e dissesse o mesmo, seria recebido com toda pompa e circunstância. Se não mudarmos isso, dificilmente vamos progredir. Isso é tão grave, por exemplo, que expõe África como um continente fragilizado. Hoje, se o Ocidente quiser ocupar um país, ocupa facilmente. Porquê? Porque não temos capacidades próprias, primeiro, espiritual, e depois, material. Quem tem poder espiritual, é capaz de conceber o seu poder material.

De que forma?
Veja, quando cá chegaram, os europeus colocaram a religião em primeiro lugar. A América está onde está porque os religiosos desempenharam um papel importante nas guerras que travaram. O africano mata o seu próprio profeta para aceitar o profeta do outro, de fora. O nosso problema é deitar fora os valores que nos deveriam unir. E ficamos sem chão, sem força, sem sonhos, apenas repetimos o que os outros dizem, sonham e concebem para nós. É assim que nos comandam. Mas penso que ainda vamos a tempo de recuperar. Estive agora na RDC e vi que lá já é bastante diferente. A maneira como fui tratado, desde as comunidades até às entidades governamentais, revelou que têm um bom entendimento sobre a religião africana. Aliás, a Igreja Kimbanguista na RDC está na linha da frente, depois seguem-lhe outras. Mas nós aqui é diferente, porque ainda existe uma mentalidade de colonizados, que desvaloriza tudo que é seu. No tempo colonial, quando o preto fizesse ou falasse algo de importante dizia-se: “esse preto tem jeito”, mas se fosse o branco, é outra história: “esse branco tem técnica”. Não podemos deitar fora os valores que os nossos antepassados defenderam.

Já que se refere às nossas figuras históricas, como tem sido relembrado o profeta Simão Toco pela sociedade, fora naturalmente do espaço da Igreja?
Essa pergunta leva-me a pensar numa conversa que tive um dia com um embaixador cubano em Angola, numa conferência. No almoço, sentado ao lado de outros cubanos, apresentou-me aos outros da seguinte maneira: “Está aqui o líder espiritual de uma igreja importantíssima em África, que foi diabolizada e satanizada porque Simão Toco era negro”. E depois disse: “Eu conheci Simão Toco, hombre grande e alto”. E depois outros também disseram ter cruzado com ele. É só para ver que, até os cubanos, que são de facto comunistas, valorizavam o indivíduo que estavam a diabolizar, mas os alunos que aprenderam dos cubanos não tiveram este entendimento. Graças a Deus, como tudo tem o seu tempo, hoje Simão Toco vai sendo falado, lembrado. Tivemos a condecoração no âmbito da Independência. Mas ainda é pouco. Precisamos que a História de Angola seja reescrita, mas não da maneira como é feita. Tem que ser alargada para que todos quantos participaram nesta luta sejam também estudados nas escolas. É assim que se criam bases sólidas para perpetuação da nossa pátria e da nossa independência. Neto conviveu com Simão Gonçalves Toco, durante quatro anos, comendo e dormindo na mesma cama, no Bairro Operário, na casa da mãe Maria da Silva. Quando Neto visitou as nossas igrejas na Catumbela e Lobito, isso ainda em 1975, no mês de Março, disse: “Simão Toco é um combatente da liberdade, lutou connosco lado a lado e não traiu a sua pátria, viva o Tocoísmo! Abaixo as religiões estrangeiras que são joguetes dos imperialistas!” Estas palavras estão lá na Rádio Nacional registadas, mas não gostam de colocar. Não sei porquê. Amilcar Xavier quando estava lá ainda metia. Mas já não se ouvem estas coisas. Podemos conviver todos na unidade, sem precisar de ofuscar ou menosprezar os outros. E sempre que dizemos estas coisas as pessoas perguntam, o que querem? Querem chegar aonde?

Porquê?
É a tendência. Quando é um católico, baptista, metodista, que está a dirigir, cria facilidades para o seu grupo. E nós tocoístas, há muitos anos que lutamos contra estes ventos todos, que nos procuram sufocar de várias maneiras. Esquecem que essa terra também é nossa, vertemos aqui sangue. Os nossos membros foram queimados vivos aqui, para que houvesse independência. Nós temos hoje o Bairro Indígena, que dizem Bairro dos Ex-Congolenses, nunca ensinam como surgiu. O próprio mercado. Alguém até já se apoderou do campo de São Paulo. Precisamos de falar disso, contar estas histórias. Quanto mais falarmos da nossa própria história, mais ajudamos a nova geração a compreendê-la e a respeitá-la. Hoje os prédios estão aí, e chamam de mercado dos Ex-Congolenses, mas poucos sabem o porquê do nome.

E como surgiu?
O bairro chama-se Ex-Congolenses porque foi ali onde o colono português, nos anos 1950, instalou os primeiros tocoístas vindos do Congo, de onde fomos expulsos. Havia na época um comboio de casas, onde os tocoístas dormiam. Só depois, em 1957, é que se concluíram os prédios. E assim foram morar nos prédios. O mercado surge porque as mamãs, que vieram do Congo, tinham a prática de vender micate com jinguba. Então, vendo aquilo, o colono achou por bem criar o mercado para acomodar as mamãs. O campo também foi feito com enxadas. Pois a igreja tinha uma equipa, que era o Benfica do Congo. Até hoje nunca reclamamos nada, mas um dia vamos reclamar. O que é nosso, é nosso. Quando tivermos condições de fazermos uma equipa de futebol, como está a Santa Rita de Cássia, do Uíge, vamos reclamar (risos). E esperamos que os governantes mais velhos, que certamente conhecem a história, não morram todos. É que os mais novos acham sempre que é mentira, que é aproveitamento. É que se fizermos uma equipa de futebol da Igreja Tocoísta, é para ser uma equipa vencedora (risos).

Há 23 anos que lidera a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoísta). Orgulha-se do que ajudou a construir nesse período?
Ajudamos a construir uma Igreja Africana que dá orgulho. Deve ser um orgulho para os africanos, e para os angolanos em particular, ainda que não sejam tocoístas, deve servir de orgulho ter uma igreja do seu país que sobreviveu, passando por muitas dificuldades e intentonas, e agora expande-se pelo Mundo. É um património nacional. O que é que falta para assim ser declarado? Que medo há? Se tivéssemos um ministro da Cultura tocoísta, talvez o Tocoismo já tivesse sido declarado Património Imaterial Nacional. Há muita gente, pelo mundo afora, que fizeram pesquisas, ao nível do doutoramento, sobre o legado de Simão Toco e do Tocoismo. Mas são os próprios angolanos que não dão o devido valor. É urgente que o Tocoismo seja considerado património nacional. O Dr. Manuel Sebastião sempre defendeu que o Tocoismo fosse elevado a património imaterial de Angola, mas lá em cima nunca aceitaram isso. Mas certamente vai chegar o dia.

Agora falemos da responsabilidade social da Igreja Tocoísta…
A responsabilidade social da Igreja Tocoísta começa logo em 1946 quando se criou a Associação de Ajuda Mútua dos Bazombo. O objectivo era ajudar sempre quem não tivesse nada, mas sobretudo para pôr o seu filho na escola. Contribuía-se, guardava-se o valor e depois servia para atender cada um de acordo com a sua necessidade. Então, o Tocoismo prima pela solidariedade. É ajudando-nos uns aos outros que conseguimos sobreviver. Assim, depois de sermos expulsos da Igreja Baptista, no dia 9 de Setembro de 1949, prometemos construir as nossas escolas, hospitais, postos de saúde, etc. De lá para cá, firmámos um protocolo com o Ministério da Educação, no dia 2 de Março de 2002. Temos igualmente um convénio com a UNICEF na área da alfabetização, no âmbito do qual criamos condições para que, onde houvesse templos, houvesse também uma sala de aula para alfabetizar e depois passar para o ensino geral. Em 2006, inaugurámos o Complexo Escolar Simão Gonçalves Toco, aqui no Kilamba Kiaxi, que compreende oito salas de aula. A partir daí, a Igreja começou a ganhar terreno na área social, passando essa orientação para as demais províncias. Mas em Luanda ainda construímos mais uma escola na Sapú e outra em Viana. Achamos importante investir na educação, não só para ajudar o país, mas também para compreender a Palavra de Deus.

As cozinhas comunitárias têm sido uma referência no âmbito da responsabilidade social da Igreja. Como surgiram?
As cozinhas comunitárias surgiram porque havia necessidade de darmos resposta à fome. Víamos muitas situações nas ruas onde passávamos, então criamos o projecto das cozinhas comunitárias. E o resultado tem sido positivo, sobretudo no período da pandemia da Covid-19. A fome era tanta naquela altura que servíamos duas mil refeições por dia, aqui na sede. Havia pessoas que vinham de Viana, comiam uma parte do que se lhes servia e levavam outra parte para casa. Era uma situação muito triste, mas fomos fazendo a nossa parte. Abrimos uma cozinha comunitária no Cunene, depois outra em Benguela. Se tivéssemos ajuda, daríamos um melhor contributo. A igreja tem que ser vista como um auxiliar do próprio Estado na área social, um braço importante na realização de outros propósitos sociais.

Não tem recebido ajuda?
A resposta é simplesmente não. Até hoje nunca recebemos qualquer ajuda. Chegaram a dizer que nos trariam alguma ajuda, bem, depois trouxeram uns pacotes que não valiam para nada. E sabe porque não nos ajudam a ajudar? Porque se trata de uma igreja africana. Se fosse uma igreja de longe, que abrisse uma cozinha que atende a milhares de pessoas, certamente teria ajuda em todos os lados, até de bancos. Mas como é igreja africana, tocoístas sobretudo, então sequer se alegram com o que está a ser feito por nós. Mas também não podemos desistir por isso.

Com a situação difícil que se vive, seria um exemplo para outras localidades…
Seria muito bom. Soubemos de outros exemplos, mas que não duraram muito. Digo-lhe mesmo que não é fácil manter uma cozinha comunitária. Gastam-se muitos sacos de arroz, de feijão, caixas de óleo, por semana. Mas o povo tem sido generoso na ajuda para mantermos o projecto. Basta avisarmos das necessidades que, logo no domingo, trazem a ajuda: há quem traz um litro de óleo, outro traz um saco, dez ou cinco quilogramas. E, no final das contas, temos toneladas. É assim que temos mantido o projecto.

Com muitas dificuldades…
Claro. Por isso, esperamos que o Governo nos entenda, nos ajude nos projectos sociais. Deus constitui governos para fazer bem aos bons, mas também para castigar os malandros. Precisamos de consolidar essa relação que temos construído há 23 anos para que tanto a Igreja como o país possam ganhar. E que o Governo, que é o gestor de tudo, ajude a igreja na área social. Até os EUA fazem isso. Fui convidado oficial do Governo americano, e durante seis dias visitei vários departamentos. Ouvi muitas coisas. Eles criaram um programa para ajudar as igrejas em sectores sociais como educação, saúde, etc. É a tarefa de um governo. A Igreja Tocoísta já esteve inscrita duas vezes em orçamentos do anterior Governo. O Orçamento Geral do Estado mesmo, aprovado na Assembleia Nacional. Eram cerca de seis mil dólares para a aérea social. Num outro orçamento, no ano seguinte, estava inscrito o valor de seis milhões de kwanzas para prospecção do projecto de construção do templo na Lunda-Norte. Todos estes valores desapareceram.

Como?
Não sei. Desapareceram. E quem leu os documentos pensou que a Igreja recebeu. Ainda procuramos saber destes valores, mas nos disseram que já era Novembro, e que já não havia valor algum: “Senhor Bispo, já é Novembro, só no próximo ano”. Por isso, espero que o actual Governo compreenda essa necessidade. Aliás, o Presidente João Lourenço é alguém com quem temos boas relações. Conversávamos muito bem antes de ser Presidente, tanto com ele como com a Primeira-Dama. Foi a entidade que me recebeu em 2000, ele na qualidade de secretário-geral do MPLA. Já na qualidade de candidato às eleições gerais, tivemos vários encontros. E agora, enquanto Presidente, nunca deixamos de nos ver. Por isso, aproveito para reforçar que o Estado tem que proteger as suas instituições sociais como as igrejas, apoiando-as. Veja, agora nesta nossa recente visita à RDC, o Presidente Tshisekedi procurou saber se nós éramos kimbanguistas. Se fossemos, teríamos a viagem barrada. Pois eles não querem ver a Igreja Kimbanguista na RDC em confusão. E nós? Também precisamos de proteger as nossas igrejas, pois quando vai ao mundo é Angola que é representada. Em qualquer parte do mundo onde vamos, a bandeira de Angola também está lá.

… a representar o país.
E com muito orgulho. Aqui neste país ninguém falou com Salazar face a face. O único que falou com ele pessoalmente foi Simão Gonçalves Toco, no mês de Julho de 1963. E ninguém fala disso. Em Setembro de 1974, o general Spínola convidou Simão Toco para tratar da situação da independência de Angola. Queriam que Simão Toco fosse Presidente, mas ele recusou. Indicou que entre os presidentes dos três Movimentos, Agostinho Neto teria que ser o Presidente da República, Holden Roberto, primeiro-ministro, Jonas Savimbi, ministro da Defesa. Simão Toco já queria um governo de unidade nacional, propondo as eleições para o futuro, pois era necessário primeiro criar estabilidade. E mesmo depois da independência tentou unir os três, mas foi incompreendido, como infelizmente tem sido até hoje. Mas em 1935 ainda, quando Neto era menino, Simão Toco disse que ele seria Presidente de Angola. A mamã Maria da Silva não gostou, porque se aquilo se ouvisse seria imediatamente a morte do menino. Mas 40 anos depois, tornou-se Presidente. Estas coisas devem ser ditas, para que as pessoas aprendam a história, aprendam a respeitar a memória dos mais velhos. Há um nosso pastor, que já descansa, que dizia: “dá valor àquilo que é de valor, para que tenhas valor”. Pois quem respeita o que é seu, também é respeitado pelos outros.

E como anda o Instituto Superior Politécnico Tocoísta?
Está a caminhar bem, mas infelizmente vive um momento difícil. Investiu-se muito dinheiro, instalando-se tecnologia de ponta. O nosso desejo como igreja é não fazer por fazer, mas que marcasse a diferença não só nos equipamentos como também no produto final. O estudante, que termine aqui a formação superior, que seja de facto excelente no mercado de trabalho! Lutamos neste sentido, mas as dificuldades são muitas. Até hoje ainda nos ressentimos dos efeitos da Covid. E o projecto só resiste por ser de uma instituição da igreja, pois os nossos filhos que lá estudam não têm dinheiro, por isso a propina é muito baixa. E mesmo assim temos que pagar docentes, funcionários, para manter o edifício funcional, tudo isso tem sido um quebra-cabeças. No Governo anterior havia a possibilidade de termos uma parceria público-privada, em que o Governo pagasse os professores e o que os estudantes contribuíssem seria apenas para manter e projectar os equipamentos.

E isso não avançou?
Infelizmente não. O tempo passou, e desde 2017 que temos uma nova liderança no país. Começamos com um número razoável de estudantes e hoje já temos um número elevado, mas mesmo assim não tem rentabilidade, ou seja, não se mantém com os próprios recursos. Se fosse um projecto pessoal, já o teria vendido. Veja, para pagar 40 milhões em salários por mês é preciso receber também mais de 40 milhões. Mas se você não recebe 40, e recebe 15, mas tem que pagar 40, complica as contas. Este é o sétimo ano da instituição, e continuamos a aguardar que a situação do país melhore para que possamos rever a propina, pois é a única fonte que temos. Talvez um dia possamos convencer o actual Governo a aceitar a proposta de parceria público-privada, pois da forma como as coisas estão, colocar uma propina de 50 mil, como fazem outras instituições, vai asfixiar ainda mais as famílias. Nós cobramos 22 mil, 23 mil ou 24 mil, em cursos técnicos inclusive. Se um dia nos visitar, verá que temos até laboratórios novos que ainda não começaram a funcionar, que custaram centenas de milhares de euros. Para cobrar 25 mil? Quando é que se vai conseguir repor o investimento? Infelizmente temos estas dificuldades.

E o que diz o Ministério do Ensino Superior?
Já visitaram a instituição, a actual ministra não, mas o anterior. O actual secretário de Estado para o Ensino Superior, Eugénio Silva, uma pessoa afável, já nos visitou e reconheceu o potencial do projecto. Mas, apesar das suas boas ideias e intenções, percebe-se que tem limitações. Temos que reconhecer isso. Mas é preciso lembrar, meu caro jornalista, que Angola tem pessoas com muito dinheiro, mas nunca olham para aquilo que são de facto os projectos que podem levar o país para frente. Ou seja, financiar como fazem outros ricos pelo mundo. Têm muitos biliões guardados, escondidos, e não fazem nada com o tal dinheiro. Podiam doar às igrejas para projectos sociais, como se faz em outros países. Aqui travam tudo só para eles, morrem e deixam tudo. Deveriam repensar a maneira de usar o dinheiro que têm e não insistirem nesta vida de ostentar 50 carros, como temos visto, enquanto há pessoas que precisam de dinheiro para fazer coisas importantes. Para levar o país avante. Espero que mudem, porque isso não é atitude de um patriota, um patriota tem que olhar à sua volta e ajudar os seus compatriotas. Só assim é que se consegue um nome que perdure.

Sabemos que, por liderar uma igreja africana espalhada pelo Mundo, deve ser um líder muito ocupado. Mas, como homem de família, tem naturalmente compromissos. Como é o senhor Bispo enquanto pai, marido…
Cristo veio 100 por cento homem e 100 por cento Deus. A definição desta doutrina não foi fácil, uns diziam que era 50 por cento. Bom, isso para dizer que não se tem muito tempo para a família. Fico mais tempo ao serviço da Igreja. É outra situação por que passam os líderes, pois quando chegas ao topo tens outro prejuízo: a família perde-te, pois, os assuntos que nos rodeiam consomem-nos muito tempo. Mas temos que obedecer o mandato que temos da parte de Deus. Há 23 anos essa pessoa, esse Bispo, para cumprir a sua missão, deixa a família sentir a carência do pai, do marido, do irmão, etc. E depois de estarmos juntos, despedimo-nos sem saber quando nos voltamos a ver. Veja, eu vim da Europa no dia 17 de Dezembro (2023), e ainda não fui a casa. Estou aqui na igreja. No dia 31, a mulher e os filhos vieram para ficarmos aqui na igreja e comermos juntos na casa episcopal (residência protocolar). As ausências têm sido muitas. Não sei se a pessoa, humanamente, e do seu próprio desejo, conseguiria ficar três ou quatro meses sem ter contacto com a família. Mas, no nosso caso, se não fosse esse sacrifício, não teríamos chegado até aqui. Se não aceitar perder um lado, não ganhamos o outro. A missão que temos é para consentir sacrifícios quando necessário.

E quando está no seio da família, o que mais gosta de fazer?
Conversar, sobretudo ler a palavra de Deus, orar e ensinar bastante. Mas também repreender, quando as coisas não estão bem. Os meus filhos fizeram um vídeo e apresentaram aqui na igreja para ver esse lado do pai (risos). Só para mostrar que o pai é muito rigoroso e repreende muito: é duro, mas é boa pessoa. Então, é isso, não podemos deixar a nossa casa se perder. Não posso estar a ensinar na igreja, quando os meus andam mal. Até agora o meu primeiro filho, de 33 anos, ainda não se casou. Só vai fazer isso no próximo mês, em Fevereiro.

Porquê?
Porque a orientação foi que primeiro tinha que se formar. Organizar-se. É tanto tempo que já tem o mestrado e está a concluir a especialização na área de neurocirurgia. O menor dele está a concluir a formação em arquitectura. Eles sabem que se não cumprirem, o pai tira a bênção. Então, mesmo as meninas procuram cumprir e conservar-se para não caírem no erro até chegar o momento do casamento. Então, estamos a lutar para que o primeiro filho se possa casar, e alegramo-nos também por ter chegado tão longe. E só depois seguirão os outros, sucessivamente.

E tem tempo para a família mais alargada?
Aí é mais complicado. Quase que não há mesmo tempo para ver um primo, uma tia. Cruzamo-nos uma ou duas vezes por ano. E quando nos vemos falamos do nosso tempo, da geração passada. E quando terminar, fazemos oração, e pronto; sem saber quando nos voltamos a ver. Mas também já sabem que o nosso filho, nosso sobrinho, nosso tio, quando tem tempo, tem, quando não tem é porque está ao serviço da obra de Deus. Olha, mas não é fácil. É um grande prejuízo. Pois, há sempre um lado que cai quando se tenta levar duas coisas na mesma dimensão. Uma deve ser prejudicada para outro ser elevado.

Insistindo ainda na sua vida privada, senhor Bispo, o que é que gosta de ler, além naturalmente da Palavra de Deus?
Gosto de ler notícias. Gosto de estar informado, e de diversas formas: rádio, televisão, Internet. E leio muitos livros ao mesmo tempo, sobretudo de cultura geral, de História, biografias de Presidentes que assumiram grandes responsabilidades pelo Mundo, Obama, Bill Clinton, por exemplo. Conseguimos aprender muita coisa. Também gosto de fazer muitas pesquisas. Sou um autodidacta; todos os dias autodidacto-me. Isso para garantir que, além da base espiritual, a base material também esteja preparada para os desafios do nosso dia-a-dia, que são cada vez maiores. Deus usa o que Ele encontra: se encontra cinco pães, multiplica para dar cinco mil; mas se não encontra nada, não tem como multiplicar.

E actividades físicas?
Gosto de bicicletas. Se não ando com bicicletas normais, uso tapetes rolantes em casa. Procuro pedalar quatro a cinco quilómetros por dia. Faço sempre exercícios; antes até, quando tinha mais tempo, ia com os meninos jogar no campo. Mas hoje reclamam: “o pai já não joga connosco”. Já não é possível jogar (risos), as coisas apertam cada dia que passa. Eu joguei muito na juventude.

in Jornal de Angola

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