Tiróide: uma doença que altera os olhos – Acelera batimentos do coração, ansiedade e provoca perda ou ganho de peso
Tiróide: uma doença que altera os olhos - Acelera batimentos do coração, ansiedade e provoca perda ou ganho de peso
tiróide

O 25 de Maio foi institucionalizado como o Dia Internacional da Tiróide, em 2008, pela Federação Internacional de Tiróide, órgão afecto à OMS, com o objectivo de promover, consciencializar e alertar a população para os problemas que o distúrbio desta glândula pode causar à saúde.

Tem sido comum que pessoas tenham os olhos sobressaídos, batimentos rápidos do coração, ansiedade e perda ou ganho descontrolado de peso. Esses sinais podem ter alguma ligação com a disfunção da tiróide, uma glândula em formato de borboleta situada no pescoço.

A tiróide tem a função de produzir, armazenar e liberar hormónios que controlam o metabolismo e preservam o equilíbrio do organismo. Quando esse órgão tem problemas, além dos aspectos acima mencionados, causa na pessoa irritação, insónia, tremor, sudorese excessiva, intolerância ao calor e alterações menstruais.

No âmbito do Dia Internacional da Tiróide, que se assinala hoje, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o distúrbio da tiróide afecta cerca de 750 milhões de pessoas, estimando que uma em cada oito mulheres pode desenvolver o problema durante a vida, pelo facto de a mesma afectar mais o sexo feminino.

Em Angola, apesar de não existirem estatísticas exactas de casos de pacientes com distúrbios da tiróide, José Mavungo destaca que a realidade não é das melhores, dada à carência de especialistas. Neste momento, o país tem apenas 14 endocrinologistas, estando 13 concentrados em Luanda e só um trabalha em Cabinda.

O médico endocrinologista José Mavungo explicou que essas situações ocorrem quando a tiróide não funciona adequadamente, o que faz com que essa glândula libere uma quantidade insuficiente ou excessiva de hormónios, causando, assim, o distúrbio ou doença nesse órgão.

Em Luanda, José Mavungo é o único endocrinologista a trabalhar numa unidade pública, o Hospital Josina Machel, uma vez que os outros 12 estão em clínicas privadas. Por isso, a média semanal que recebe em consultas é de 17 pacientes, dos quais quatro a cinco apresentam algum distúrbio na tiróide, com maior realce para mulheres.

Por que mais as mulheres?

Questionado sobre a tendência de serem mais as mulheres a apresentarem problemas na tiróide, o endocrinologista explicou que a literatura refere que acima de 50 por cento delas têm nódulos ou caroços nesta glândula.

“Elas podem viver a vida toda com isso e nunca se desenvolver até que haja algum factor de risco para activar estes nódulos”, esclareceu, para avançar que, no caso dos homens, dificilmente são acometidos por esses distúrbios, mas é mais em pessoas com idade inferior aos 20 e superior a 60 anos.

O médico referiu que, para os homens, os distúrbios na tiróide podem ser fatais, tendo em conta que o risco de evoluir para cancro é maior.

Atendidos 50 casos pediátricos por ano

Em relação às crianças, José Mavungo frisou que, também, é comum o Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino enviar ao Josina Machel crianças com distúrbios da tiróide, por esta última ser a única unidade sanitária do país a tratar a doença a nível do Sistema de Saúde Público.

Antes da pandemia da Covid-19, em média, o Hospital Josina Machel atendia, anualmente, cerca de 50 crianças com problemas da tiróide.

Sobre as mortes causadas pela doença, o médico avançou que os problemas da tiróide em si não matam e têm cura. “Estes apenas criam uma disfunção hormonal que altera o funcionamento normal do indivíduo e, que se não for acompanhado, mais tarde, pode criar outros problemas gravíssimos, que causam a morte”.

A nível do Hospital

No Josina Machel nunca foram registadas mortes que estejam directamente ligadas ao distúrbio da tiróide. Disse que até a própria literatura refere que a mortalidade causada pela doença é muito baixa.

Outras funções do órgão

O especialista em Endocrinologia define a tiróide como uma glândula em forma de borboleta localizada no pescoço abraçando a traqueia. Essa glândula serve para preservar o equilíbrio do organismo.

Para isso, ela produz e segrega os hormónios triodotironina (T3), tiroxina (T4) e calcitonina, que regulam as funções de órgãos vitais, como o coração, cérebro, fígado e rins.

Sendo assim, prosseguiu o especialista, a tiróide actua, directamente, no crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes, regula os ciclos menstruais e a fertilidade, determina a velocidade do metabolismo, faz manutenção do peso adequado e tem ligação directa com a memória, concentração, humor e, até, controla as emoções.

José Mavungo explicou que existem dois tipos principais de distúrbios clínicos relacionados à tiróide, que são as alterações funcionais e as alterações morfológicas.

“As alterações funcionais acontecem quando a tiróide produz menos hormónio do que deveria, o chamado hipotireoidismo, mas quando a tiróide produz hormónios de forma excessiva chama-se hipertireoidismo”.

Segundo o endocrinologista, o hipotireoidismo tem como sinais a depressão, desaceleração dos batimentos cardíacos, intestino preso, menstruação irregular, falhas de memória, cansaço excessivo, dores musculares, pele seca, queda de cabelo, ganho de peso e aumento de colesterol no sangue.

Já o hipertireoidismo, acrescentou o médico, é uma das doenças da tireoide mais graves e pode provocar problemas no coração e nos ossos.

José Mavungo avançou que há sinais de aumento da frequência cardíaca (taquicardia) e da pressão arterial, palpitações devido a ritmos cardíacos anormais (arritmias), sensação de calor, tremores nas mãos, ansiedade, irritabilidade excessiva dificuldade para dormir (insónia) e perda de peso, apesar do aumento do apetite.

O endocrinologista sublinhou que o hipertireoidismo, geralmente, é causado pela doença de Graves (geralmente familiar), uma patologia autoimune, que se dá quando o sistema imunológico não reconhece a tireoide, e acaba por atacá-la.

Atenção ao bócio

Sobre as alterações morfológicas, José Mavungo explicou que tem a ver com as mudanças da forma habitual da tiróide. Há um aumento exagerado da glândula, é chamado bócio (um inchaço à volta do pescoço) e os nódulos que são aglomerados de células ou líquido na superfície do órgão e o cancro da tiróide.

De acordo com o médico, outro sinal de que a tiróide está a funcionar mal, são os olhos aumentarem tanto de tamanho e para fora, alteração no timbre da voz (que passa a ficar rouca), tendo realçado que todas estas alterações na tiróide podem ocorrer em qualquer período da vida.

Diagnóstico e tratamento

O endocrinologista explicou que, para se diagnosticar a tiróide, se faz o exame de TSH (hormónio tireoestimulante), que serve para analisar as alterações presentes na tireoide. Com base nessa análise, é possível verificar se o paciente apresenta hipotireoidismo ou hipertireoidismo. “O exame, também, mostra as possíveis causas dessa irregularidade e se os tratamentos estão a surtir efeito”, avançou José Mavungo.

Além do TSH, há também o exame T4 livre, que detecta a quantidade de hormónio tiroxina (T4) total ou livre no organismo, complementar ao exame de TSH e deve ser feito a partir da colecta de sangue da veia do paciente.

Segundo o médico, o tratamento das alterações funcionais da tiróide consiste em corrigir o defeito hormonal através da reposição do hormónio tireoidiano e, no caso do hipotireoidismo, ou diminuindo a produção, no caso do hipertireoidismo. Já no caso do bócio e dos nódulos na tiróide, faz-se o tratamento clínico, com o iodo radioactivo ou com cirurgia.

Já os casos de cancro de tireoide, usualmente, são tratados com a combinação de cirurgia e iodo radioactivo. Em todas estas situações, o acompanhamento com equipa especializada é essencial para o sucesso no tratamento.

Na opinião médica, a doença tem como grande factor de risco históricos de doenças autoimunes, como vitiligo, psoríase, doença celíaca, diabetes mellitus tipo 1, dentre outras, têm maior chance de desenvolver problemas da tiróide das alterações funcionais.

Em relação aos nódulos, são mais comuns em pessoas expostas à radiação de grande intensidade, e a ingestão insuficiente de iodo também é um factor de risco importante.

Formas de prevenção

O endocrinologista José Mavungo explicou que, para se prevenir a doença, é importante que a população se alimente de forma equilibrada, com a ingestão adequada de iodo (ostras, moluscos e mariscos) e selénio (feijão, ovo, frango e carne bovina), porque este mineral é essencial para a formação dos hormónios da tiróide. O médico avançou que a água também deve ser tratada com iodo, mas falou da necessidade de se evitar o uso excessivo de medicamentos que afectam a função da própria tiróide.

in Jornal de Angola

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