
Em várias geografias, nos assuntos ligados à discussão sobre os traços da sexualidade humana destacam-se, pelo menos, a biológica, psicológica, a cultural e a ética das sociedades.
O sub-desenvolvimento existente nos diversos níveis da estrutura social é encarado com reservas ou como tabu, porquanto grande parte da população não está informada e, sobretudo, releva a resistência sobre os temas, arregimenta os preconceitos sociais e a ignorância como regra.
Nesta dimensão, pouco ou muito se fala sobre o desenvolvimento da orientação sexual humana, consubstanciado na identidade de género. Nenhuma causa simples e única para a orientação sexual tem sido demonstrada de forma conclusiva.
Por isso, a questão dos transtornos da conduta sexual passa, necessariamente, pela questão do papel sexual vivenciado pelos homens (género), pois, paralelamente à construção da identidade social, existe também a construção de uma identidade sexual que determina de que maneiras devem se posicionar um diante do outro para o acasalamento harmonioso.
No entanto, vivemos no meio de grandes transformações sociais que afectam radicalmente as relações entre os sexos e que, tendencialmente, protagonizados por pedófilos ou tarados sexuais, que, compulsiva e obsessivamente, se remetem à violência sem dó nem piedade, incluindo o abuso sexual contra as crianças.
Desta forma, apenas realçamos, de um lado, o aspecto cultural que radica na soma das dimensões culturais históricas e contemporâneas que afectam os nossos pensamentos e acções, sobretudo por a sexualidade ser, também, social e deve ser regulada através de leis (por exemplo, proibição dos adultos terem relações sexuais com menores, e, por outro, o psicológico, em que, eventualmente, os pais, professores e amigos dizem-nos sobre os padrões da sexualidade, condicionando, às vezes, as nossas atitudes sexuais iniciais, que se mantêm até à idade adulta.
Por conta disso e pela desinformação atrelada sobre esta matéria, regista-se em todas as idades conflitos internos sobre a própria sexualidade. E, embora este nem sempre seja o caso, algumas pessoas acabam ferindo outras psicologicamente, emocionalmente e fisicamente, por causa da falta de informação.
Sabemos que essa desinformação pode levar muitas pessoas ao sofrimento. Assim sendo, torna-se indispensável, que os meios de comunicação social, quer públicos, quer privados, reforcem a grelha de divulgação sobre estas matérias e fundamentar-se na prevenção sobre os comportamentos ou atitudes atípicas.
O comportamento sexual humano é diversificado e determinado por uma variedade de factores bio-psico-sociais. Isto é, estamos cercados e marcados por questões diversas como relacionamentos, cultura e hereditariedade.
Os transtornos sexuais, chamados de parafilias, parafraseando o autor Hercules (2008), “podem ser caracterizados por anseios, fantasias ou comportamentos sexuais, manifestados de modo intenso e recorrente, que envolvem objectos, actividades ou situações incomuns e causam sofrimento acentuado, circunscritos a problemas de auto-estima e dificuldades nos relacionamentos amorosos, cujas etapas da resposta sexual humana consistem no desejo, excitação, excesso de consumo de álcool, orgasmo e resolução”.
Contextualmente, desde Janeiro que se registam em várias jurisdições administrativas, denúncias de casos de violência sexual e tramitação de processos aos tribunais. Estas evidências são preocupantes.
Não obstante, as sucessivas emendas sobre o agravamento das penas, as atrocidades não descontinuam contra as inocentes crianças, cujos actos são praticados referencialmente por familiares próximos (pais, avós, irmãos, tios, padrastos, primos, entre outros amigos da família que frequentam os seus lares).
Esta barbaridade está em espiral, atravessa verticalmente toda a sociedade e apresenta-se, sobretudo, na forma de agressão física e psíquica. Para o crescimento equilibrado e protecção digna desses viveiros geracionais, as autoridades policiais e tradicionais, comissão de moradores, igrejas e a sociedade civil deviam impor-se como antídotos desafiantes, consubstanciado em sanções, para a redução deste mal que tem causado prejuízos sociais e económicos.
Por exemplo, os malfeitores deviam ser expostos em hasta pública, tão logo cometessem as atrocidades, nas respectivas jurisdições habitacionais, impedidos temporariamente de transpor fronteiras (viajar), apreensão das cartas de condução, se for caso disso, e submetidos a trabalhos comunitários, também nos locais de residência ou fora delas.
Fazendo uma análise desses dois modelos no tratamento dos transtornos sexuais, Kaplan (1994, p.182) afirma que “ambas são de imenso valor, mas nenhuma é completa quando for a única empregada”.
Um outro autor (Dias, 1996), refere que, no decorrer da sua actuação como psicólogo clínico, constatou que os pacientes que apresentam quadro de transtornos sexuais sofrem dificuldades que não são exclusivas do campo da conduta sexual, estando relacionadas também a aspectos socioculturais que comprometem seriamente a sua auto-imagem.
Podemos estar certos de que a questão dos transtornos da conduta sexual é de grande importância para a actuação dos psicólogos clínicos e de outros especialistas na busca de melhores respostas aos problemas que se impõem, porque, provavelmente, não se fará esgotar a curto prazo.
As actuais condutas psicoterápicas no tratamento dos transtornos sexuais orientam-se, basicamente, pela concepção psicanalítica ou pela orientação comportamentalista.
Embora eficazes para a compreensão e tratamento de vários casos, outros não se adaptam às condições de uma análise ortodoxa, em razão da especificidade da demanda ou das características dos pacientes que vivem realidades socioculturais diversas, ultrapassando o campo meramente intrapsíquico ou da aprendizagem.
Em suma, Foucault observa que as relações entre os sexos deram lugar em todas as sociedades a um dispositivo de aliança: indústria do casamento, fixação e desenvolvimento de graus de parentesco, transmissão de nomes e bens de família.
Pode-se dizer, grosso modo, que uma nobre função da actividade sexual – busca pelo prazer – se perdeu ao longo de uma série de discursos em torno desses temas.
Porém, consideram-se insuficientes determinadas teorias que abordam a questão, para a necessidade de buscarmos na Sociologia e na Etnologia um saber que complemente, possibilitando uma melhor actuação sobre o fenómeno, seja enquanto psicoterapeutas, seja enquanto terapeutas sexuais.
Todavia, são evidentes que os transtornos sexuais têm sido mais profundamente estudados e valorizados dentro de uma perspectiva psicanalítica ou comportamental. É imperioso que a sociedade possa contar com os profissionais qualificados em função dos transtornos sexuais e mais atentos às demandas dos seus pacientes.
*Psicólogo