Trump e África: Indiferença estratégica ou realismo político? – Garcia Bige
Trump e África: Indiferença estratégica ou realismo político? - Garcia Bige
Garcia Bige

A famosa citação de Henry Kissinger, “Em política, não existem amigos nem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes“, resume a dinâmica das relações internacionais contemporâneas, especialmente quando se observa a postura de Donald Trump em relação à África.

Para os EUA, o continente africano tem sido tratado com uma combinação de indiferença estratégica e realismo político, refletindo uma abordagem pragmática, mas distante, em relação a uma região com imensa diversidade e potencial.

A eficácia de um governo é medida pela sua capacidade de garantir o bem-estar de seus cidadãos; Sen (1999) argumenta que o verdadeiro desenvolvimento ocorre quando há a ampliação das liberdades substantivas das pessoas, como o acesso à saúde, educação e infra-estrutura.

A África, em muitos países, ainda enfrenta falhas graves nessas áreas essenciais, e isso contribui para uma dependência estrutural do Ocidente.

O fracasso das instituições africanas, como ressaltam Acemoglu e Robinson (2012), é uma das principais causas dessa situação. As lideranças africanas frequentemente buscam melhorar a vida de seus filhos em países desenvolvidos, sem investir adequadamente em suas próprias nações, perpetuando a dependência.

Idealmente, as relações internacionais deveriam ser baseadas em reciprocidade. No entanto, os líderes africanos, ao buscarem condições de vida dignas fora de seus países, expõem a falta de condições essenciais em suas terras natais.

Se governos africanos conseguissem garantir o acesso a serviços básicos, a emigração perderia sua urgência. As populações, por exemplo, permaneceriam em seus países se tivessem acesso à água potável, saneamento, saúde de qualidade e educação eficaz.

O direito à mobilidade é inegável, mas a emigração forçada não deveria ser a única opção para quem deseja uma vida melhor.

A função primária de um governo, como destacava Hobbes (1651), é criar um ambiente seguro e próspero para seus cidadãos, algo que muitos países africanos ainda falham em oferecer. Esse fracasso estrutural coloca em perspectiva a postura de Donald Trump em relação à África.

Durante sua primeira administração, Trump reflectiu um nacionalismo protecionista que priorizou os interesses imediatos dos Estados Unidos em detrimento do compromisso com o bem-estar global, incluindo o continente africano.

Trump adoptou um realismo político pragmático, focado em maximizar os interesses imediatos dos EUA. Sua administração reflectiu a ideia de que os Estados devem priorizar seus próprios interesses, deixando de lado responsabilidades com outras nações, incluindo os países africanos.

A posse presidencial nos Estados Unidos é um evento doméstico, conforme McMahon (2003), e é comum que líderes estrangeiros, incluindo africanos, não sejam convidados a essas cerimónias. Isso, no entanto, não deve ser interpretado como uma afronta, mas sim como um reflexo dos hábitos institucionais dos EUA.

Durante seu primeiro mandato, Trump tomou decisões que afectaram, negativamente, a África. Cortes em programas de ajuda e políticas migratórias severas, como a revogação do Estatuto de Proteção Temporária (TPS) para cidadãos de países como Sudão e Somália, demonstraram uma postura de indiferença estratégica.

A lógica do realismo político tornou-se evidente, priorizando os interesses internos dos EUA e enfraquecendo o compromisso com a África e o mundo em geral.

Essa abordagem contrasta com as ideias de soft power defendidas por Nye em Soft Power: The MeanstoSuccess in World Politics (2004), em que ele argumenta que a influência global dos EUA não deve depender, apenas, de sua força coercitiva, mas também de sua capacidade de atrair e persuadir através de valores democráticos e iniciativas internacionais.

Trump, no entanto, optou por um envolvimento mais coercitivo, minimizando as oportunidades de cooperação com a África, o que, por sua vez, permitiu que potências como China e Rússia aumentassem sua presença no continente.

A relação entre Trump e a África pode ser compreendida como uma combinação de realismo político e indiferença estratégica. Embora a África não pareça representar um interesse estratégico imediato para os EUA, a decisão de ignorar o continente ignora, de forma deliberada, os princípios do dever de assistência internacional defendidos por filósofo como o Rawls e o economista Deaton, e que são essenciais para uma estabilidade global duradoura.

A postura de Trump de negligenciar questões globais, incluindo o desenvolvimento da África, reflecte uma visão de curto-prazismo que pode ter consequências prejudiciais para a estabilidade internacional.

Trump não visitou nenhum país africano durante seu primeiro mandato, ao contrário de seus predecessores, Barack Obama e George W. Bush, que fortaleceram laços diplomáticos com o continente por meio de programas de cooperação, como o PEPFAR, voltado para o combate ao HIV.

O corte de verbas para programas como esse, e a revogação do TPS, exemplificam uma política externa centrada em interesses imediatos, em vez de investimentos estratégicos para o bem global.

Essa abordagem se alinha com a visão de John Mearsheimer, um dos principais teóricos do realismo ofensivo, que afirma que os Estados buscam maximizar seu poder relativo no sistema internacional.

A África, sem uma ameaça directa aos interesses estratégicos dos EUA e apresentando poucos ganhos económicos significativos, foi relegada a uma posição periférica.

Esse distanciamento resultou na diminuição do envolvimento norte-americano em questões de segurança, criando um vácuo de poder, prontamente preenchido por potências como China e Rússia, que aumentaram sua presença no continente, através de investimentos e presença militar.

A postura de Trump pode ser vista como uma indiferença estratégica, uma escolha deliberada de evitar custos e responsabilidades. No entanto, essa perspectiva ignora o dever moral e político dos países desenvolvidos em relação às nações mais pobres. Rawls, em “O Direito dos Povos”, argumenta que países prósperos têm a obrigação de ajudar os mais desfavorecidos a desenvolver instituições justas e eficientes.

Deaton complementa essa visão ao afirmar que a ajuda internacional, quando orientada para o fortalecimento das capacidades locais, pode ser um instrumento vital para reduzir desigualdades.

No entanto, a postura de Trump oferece lições valiosas para os líderes africanos. Em vez de lamentar a indiferença do Ocidente, eles devem usar essa realidade como um incentivo para fortalecer suas próprias instituições.

Como Fanon afirma em “Os Condenados da Terra (1961)”, a verdadeira independência de uma nação é alcançada quando ela se torna capaz de se sustentar sem depender de potências estrangeiras.

O realismo político, conforme Mearsheimer explica em “The TragedyofGreat Power Politics (2001)”, é baseado na ideia de que os Estados buscam agir de acordo com seus próprios interesses.

Isso deve ser internalizado pelos líderes africanos, que precisam trabalhar para se tornarem mais autos suficientes, reduzindo sua dependência da ajuda externa. Isso não significa fechar portas para a colaboração internacional, mas sim construir uma base sólida de instituições capazes de garantir um futuro sustentável.

Em última análise, a postura de Trump, centrada nos interesses internos dos EUA e na construção de uma agenda nacionalista, destaca a necessidade de os países africanos adoptarem uma postura mais proativa na resolução de seus próprios problemas.

Com políticas públicas eficazes e investimentos em saúde e educação, a África tem o potencial de transformar sua realidade, tornando-se menos dependente de potências estrangeiras e mais auto-suficiente.

A política nacionalista excessiva de Trump nos demonstra como os extremos prejudicam o consenso internacional – especialmente ao evidenciar como os partidos de extrema-direita ignoram suas próprias falhas, imersos na ilusão de que apenas eles detêm a verdade.

Esse cenário nos lembra da importância de cultivar a virtude do justo meio, evitando os extremos que tanto prejudicam as nações. Como bem tenho afirmado, a ‘medida é o melhor limite.’

*Docente universitário (ISCED do Uíge), filósofo-político, especialista e pós-graduado em Comunicação Política e no Sector Público, bem como em Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional

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