Um ataque à dignidade militar – Lando Simão Miguel
Um ataque à dignidade militar - Lando Simão Miguel
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Despromover militares na reforma é uma medida de uma gravidade difícil de exagerar. Não é apenas abusiva, é um atentado directo à dignidade de quem serviu.

Os postos alcançados ao longo de décadas de serviço, marcados por sacrifícios pessoais, riscos reais e uma entrega total ao dever, não são meros títulos administrativos. São conquistas individuais, obtidas com mérito, disciplina e, muitas vezes, à custa da própria vida. Não foram oferecidas; foram conquistadas.

É legítimo perguntar que mente iluminada concebeu semelhante ideia. A quem serve esta medida? Desde quando as Forças Armadas podem ser tratadas como propriedade de alguém, ao ponto de se reescrever a história profissional de quem dedicou a vida ao país?

Será que, segundo a lógica deste “iluminado”, os militares na reforma passarão também a ser promovidos? Porque, se é possível despromover alguém depois de terminar a carreira, então, por coerência, também deveria ser possível promover. Ou vale apenas para retirar, nunca para reconhecer?

A ideia é tão absurda que expõe, de forma clara, a falta de seriedade e de conhecimento de quem a propôs. Mexer retroativamente no percurso de um militar — seja para cima ou para baixo — é distorcer a própria essência da hierarquia e do mérito. É transformar a carreira militar num jogo arbitrário, onde o esforço e o sacrifício deixam de ter valor.

Se se abre a porta para despromover na reforma, o que impede amanhã de reescrever toda a estrutura das Forças Armadas ao sabor de conveniências momentâneas? É este o nível de improviso que se quer impor a uma instituição que exige rigor, estabilidade e respeito?

Tratar esta situação com leveza é impossível. É uma afronta aos reformados, os na reserva e os no ativo (Generais, oficiais superiores, capitães, subalternos, sargentos, praças, soldados e trabalhadores civis deste órgão), um desrespeito pela instituição militar e um precedente institucionalmente perigoso.

O silêncio dos militares perante esta decisão é, por si só, inquietante — e perigoso em duas dimensões. Ou existe uma resignação preocupante perante decisões que atingem o coração da identidade militar, ou então algo se prepara nos bastidores, antes, durante ou depois das eleições. Em qualquer dos cenários, o silêncio não é neutro.

Como é admissível que a história e o destino das Forças Armadas Angolanas sejam reescritos por civis sem qualquer consulta à estrutura militar — seja na reforma, na reserva ou no ativo?

Que racionalidade existe em tomar medidas desta magnitude sem ouvir quem dedicou a vida à instituição?
Afinal, quem se pretende agradar com esta decisão?

Quem são os militares que se quer atingir com este plano opaco?

E, mais grave ainda, compreende realmente quem propõe estas alterações o que significa comandar, preservar e honrar as Forças Armadas de um país?

Estamos perante uma interferência que ultrapassa todos os limites do razoável. Não coloca apenas carreiras individuais em causa — ameaça a integridade institucional e o respeito que o Estado deve aos seus próprios servidores. Ignorar isto é brincar com fogo.

*Investigador em Segurança e Defesa

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