Um ensaio sobre a arrogância humana – Mário Munto Ndala
Um ensaio sobre a arrogância humana - Mário Munto Ndala
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Vivemos num universo regido por leis que transcendem a compreensão comum. São princípios imutáveis, inquebrantáveis e universais, que guiam tudo, desde o movimento das estrelas até ao desabrochar de uma flor.

Essas leis, silenciosas e invisíveis, moldam a realidade que conhecemos e, no entanto, na nossa arrogância, muitas vezes ousamos desafiar esses pilares cósmicos. As consequências de tal ousadia raramente são favoráveis.

Uma dessas leis é a da acção e reacção, imortalizada por Newton, mas que vai além do mero movimento físico. No reino espiritual e emocional, cada acção, cada pensamento e cada intenção gera uma onda que reverbera pelo universo, retornando inevitavelmente ao seu ponto de origem.

Andar na contramão dessa lei é como lançar uma pedra num lago e esperar que a ondulação não atinja a margem. Acreditar que se pode semear desordem e colher paz é uma ilusão que muitos cultivam, mas que cedo ou tarde desmorona, deixando apenas o vazio como herança.

Outro princípio fundamental é o da harmonia. O universo, na sua vastidão, encontra equilíbrio em meio ao caos. Desde os sistemas solares até às partículas subatómicas, há uma dança sincronizada que mantém a ordem.

Contudo, quando a humanidade, na sua busca incessante por poder e controlo, interfere nesse equilíbrio, os resultados são desastrosos. A destruição dos ecossistemas, o aquecimento global, e as crises ambientais são reflexos da falta de sintonia entre o homem e as leis naturais.

O preço por esse descompasso é pago não só pelas gerações actuais, mas também pelas futuras, que herdarão um mundo quebrado e em desarmonia.

Há também a lei da impermanência, que nos lembra da transitoriedade de todas as coisas. Nada neste universo é eterno. No entanto, a humanidade, com o seu apego às posses materiais e à ilusão de imortalidade, resiste a essa verdade universal.

Andar na contramão dessa lei é uma tentativa vã de parar o fluxo do tempo, o que resulta em sofrimento e frustração. É na aceitação da mudança e na adaptação a ela que encontramos verdadeira paz e compreensão.

Mas talvez a maior transgressão seja a tentativa de subjugar a natureza, de dobrá-la à vontade humana. A ilusão de que o homem pode dominar o universo, sem considerar as suas leis intrínsecas, é uma receita certa para a catástrofe.

O uso irresponsável da tecnologia, a exploração desenfreada dos recursos naturais e a arrogância de pensar que podemos escapar das consequências dos nossos actos são exemplos claros de como estamos a desafiar as forças que nos sustentam. E a natureza, paciente, mas implacável, sempre encontra uma forma de restaurar o equilíbrio, mesmo que isso signifique varrer civilizações inteiras do mapa da existência.

Assim, andar na contramão das leis que governam o universo é, em última análise, uma forma de auto-sabotagem. A verdadeira sabedoria reside em reconhecer a nossa pequenez diante da vastidão cósmica e em buscar viver em harmonia com essas leis eternas.

Respeitá-las não é apenas uma questão de sobrevivência, mas também de honrar o mistério e a majestade do universo em que habitamos.

Mas o que significa, na prática, alinhar-se com essas leis universais? Significa, antes de tudo, uma profunda mudança de perspectiva. Devemos abandonar a crença de que estamos no centro do universo, de que tudo existe para nos servir e que podemos moldar a realidade segundo os nossos caprichos.

Esta visão antropocêntrica é, na verdade, a raiz de muitos dos problemas que enfrentamos como civilização. A harmonia com as leis universais exige humildade, uma virtude esquecida em tempos de arrogância desenfreada.

A humildade leva-nos a compreender que somos apenas uma pequena parte de um todo vasto e complexo. Que as nossas acções, por mais insignificantes que possam parecer, têm repercussões que se estendem para além da nossa compreensão imediata.

Este entendimento, se devidamente internalizado, muda a forma como nos relacionamos com o mundo. Passamos a tratar a natureza não como um recurso a ser explorado, mas como uma companheira de viagem, com direitos e dignidade próprios.

Além disso, alinhar-se com as leis universais implica um compromisso com a verdade. A verdade não apenas como conceito filosófico, mas como prática quotidiana. A mentira, a manipulação e o engano são formas de tentar distorcer a realidade, de criar uma versão dos factos que nos seja favorável.

Mas o universo, com a sua sabedoria implacável, sempre corrige esses desvios. A verdade, mais cedo ou mais tarde, emerge, e com ela, vêm as consequências de qualquer tentativa de subvertê-la.

Viver em verdade é, portanto, um acto de respeito às leis que regem o universo, é reconhecer que a realidade, por mais dura que seja, é a única base sólida sobre a qual podemos construir um futuro sustentável.

Há também a necessidade de cultivar a compaixão. As leis universais ensinam-nos que estamos todos interligados. As fronteiras que criamos entre “eu” e “o outro”, entre “nós” e “eles”, são ilusões que, quando levadas ao extremo, geram conflitos, guerras e destruição.

A compaixão é o antídoto contra essa fragmentação. Ela expande a nossa percepção de identidade, levando-nos a agir não apenas em benefício próprio, mas em prol do bem-estar colectivo. Quando agimos com compaixão, estamos em sintonia com a lei da unidade, que nos lembra que o bem de um é, em última análise, o bem de todos.

Por fim, há a importância da sabedoria. Sabedoria é mais do que conhecimento; é a capacidade de aplicar o conhecimento de forma que respeite as leis do universo. É o discernimento que nos impede de tomar decisões baseadas apenas no desejo imediato ou no ganho pessoal, mas que nos leva a considerar o impacto a longo prazo das nossas acções.

A sabedoria convida-nos a pausar, a reflectir, e a tomar decisões que estejam em harmonia com as forças maiores que regem a existência.

Alinhar-se com as leis universais não é, portanto, uma tarefa fácil. Requer um constante esforço de auto-reflexão, um compromisso com a verdade, a compaixão e a sabedoria.

É um caminho que exige coragem, pois muitas vezes significa ir contra as marés culturais e sociais que promovem a ideia de que o ser humano pode agir sem consequências. Mas é também um caminho que oferece a verdadeira paz, pois ao viver em harmonia com as leis do universo, encontramos um sentido de propósito que transcende o efémero e o material.

E assim, ao invés de resistir, aprenderemos a fluir com o universo, a participar activamente na sua sinfonia, conscientes de que cada nota que tocamos contribui para a harmonia ou dissonância do todo.

Que possamos, então, escolher tocar com consciência, com respeito e com amor, garantindo que a melodia que deixamos para as futuras gerações seja uma de beleza, equilíbrio e paz. Pois, em última análise, é a única forma de viver verdadeiramente em sintonia com as leis eternas que governam o universo.

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