Um intruso no cortejo dos noivos – Wladimiro Cardoso
Um intruso no cortejo dos noivos - Wladimiro Cardoso
Wladimiro Cardoso

Sexta-feira, Luanda. O relógio já apontava para as 20h30, altura em que os noivos ainda “zanzavam pela cidade”. Passaram pelos jardins do primeiro de Maio, desceram à Marginal, subiram também pela Praia do Bispo e depois foram noutras paragens mais ou menos bonita desta cidade com o objectivo da ritual fotografia dos noivos com os acompanhantes da caravana nupcial.

Até aí estava tudo um mar-de-rosas. No salão, um público ansioso pelos noivos e demais convidados para a festa. Alguns kota mais ousados, com a fome a bater de milhões, decidiram com o seu lindo fato e gravata sair do salão para atacar um pincho com macaiabo na tia ao lado e consequentemente entornar duas Cuca bem geladas para aminizar a fome causada pela demora dos noivos.

Enquanto isso, os noivos e sua caravana já animavam o cortejo com aquela tradicional buzina nos carros em direcção ao salão. Na mesma faixa rodoviária, um kota dono do último Range Rover de cor preta com barras cinzentas ao longo do carro(azar meu se ele estiver a ler esta crónica onde ele é o cabeça de cartaz), que saía de um jantar em família em direcção a casa.

No interior do seu carro uma garrafa de Black Label, gelo em cubo e um copo na mão direita, com um charuto entre os dedos da mão esquerda, lá ia ele um tanto quanto estimulado que por alguma distracção não entra na caravana do casamento:

Liga os intermitentes e segue a “bala” até ao salão. Posto no local da farra, todos desceram tal como ele como o protagonista do filme que decide aumentar uma pitada de humor, fazendo umas fotos com os noivos(ninguém jamais desacredita num intruso com o carro mais caro da festa).

Entraram para o salão, seguiu os noivos a ver o buffet e sugeriu inclusive que abrissem já o salão, cortassem o bolo e a festa seguisse somente os seus trâmites legais. Todos concordaram em uníssono e ele foi aplaudido até como génio – pela brilhante ideia.

Mais tarde a festa já ia naquele momento em que o noivo até tirou a gravata para leiloar, e ele, era o cara certo para garantir 50.000 dólares na gravata. Ninguém duvidou, jamais! O Range Rover falava por si…

O buquê da noiva foi parar numa moça que segundo uma fofoqueira, estava quase nos trinta, mas nunca teve sorte de arranjar um marido, e a solidão a torturava dia e noite.

O boda continuou e estava mesmo no limão que um dos tios da noiva(daqueles que vêm de longe e se emocionam com comida e bebida) subiu na mesa das frutas para tentar dar o show mas acabou por cair no chão. Por pouco não partia um dente.

Ele, o intruso, era o centro das atenções: Agarrava todas as tias da festa e dançava com elas(maridos das tias levaram mbora tudo na desportiva)… kota largou o Whisky e foi mesmo ao longo da noite pelos barril de fino – Cuca.

Pelo amanhecer da carruagem, naquele momento em que uns já se retiravam para bazar visto que os noivos também já tinham tirado o pé para o hotel (O Flamingo, na Maianga), um dos miúdos foi avisar nos mais velhos que o tio fulano está estendido no chão:

Era o próprio, o intruso bem bêbado a vomitar.

  • “Mano, vamos, sobe no carro e descansa” – Eram os tios dos noivos a consolar o intruso.
  • “Mas ele veio com quem? É da parte da noiva ou do noivo?”.

Ficaram todos a se questionar. O intruso continuou a vomitar sem forças para dizer que era apenas um pato intruso de Range Rover Executive.

Eu vim a saber desta salada toda na continuação do boda na casa da mãe da noiva onde ele dormiu e até hoje já é família querida, ou seja, genro, conseguiu engatar a irmã da noiva que apanhou o buquê.

*Palhaço, jornalista, escritor, actor, cozinheiro e bêbado encardido

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