
O discurso do Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, sobre o Estado da Nação, proferido na ultima quarta-feira( 15/10/25), na Assembleia Nacional, ficará registado na história como um dos mais marcantes da era pós-independência.
Num momento em que Angola se prepara para celebrar meio século de soberania, o Chefe de Estado não apenas apresentou o balanço de um ciclo de governação, mas lançou uma mensagem poderosa de esperança, perdão, reconciliação e unidade nacional, convidando todos os angolanos a virarem definitivamente a página da divisão e do conflito, para escreverem juntos uma nova história de progresso, estabilidade e confiança.
Ao recordar os 50 anos de luta, sacrifício e superação, o Presidente destacou o papel heroico do povo angolano, que resistiu à ocupação colonial, enfrentou décadas de guerra e reconstruiu, com determinação, um país devastado.
Esse percurso, iniciado em 1975 com a proclamação da independência, tornou-se agora um símbolo de maturidade nacional, de um povo que não esquece o passado, mas que aprende com ele e se reinventa para o futuro.
Foi neste contexto que o gesto de condecorar os signatários dos Acordos de Alvor – Dr. António Agostinho Neto, Dr. Holden Roberto e Dr. Jonas Malheiro Savimbi – assumiu um significado transcendental. Mais do que um acto simbólico, foi um gesto de perdão e de reconciliação nacional que toca profundamente a alma do povo angolano.
Pela primeira vez, o país homenageou de forma conjunta os líderes dos três movimentos de libertação, reconhecendo que, apesar das divergências e das tragédias do passado, todos contribuíram com coragem e visão para o nascimento da Angola independente.
Esse reconhecimento histórico representa um passo decisivo para a cura das feridas do passado e fortalece a coesão entre todos os filhos da mesma pátria.
É um sinal inequívoco de que Angola atingiu um novo nível de maturidade política, espiritual e institucional, onde o perdão se transforma em instrumento de progresso e unidade.
Mas o discurso foi também profundamente económico e social, trazendo consigo respostas concretas aos desafios que o país enfrenta: inflação elevada, desemprego, desigualdade social e redução do poder de compra.
João Lourenço mostrou que o Governo tem uma agenda firme de recuperação e transformação económica, sustentada na estabilidade macroeconómica, diversificação produtiva e valorização do capital humano.
Na área económica, destacou-se a redução significativa da dívida pública, que caiu de 115,9% do PIB em 2020 para 55,5% em 2024 — um resultado que reflete rigor na gestão das finanças públicas, transparência e responsabilidade fiscal.
O país alcançou também melhorias nas contas externas e na credibilidade financeira internacional, criando condições para atrair investimento estrangeiro e estimular o sector privado nacional.
O Presidente reafirmou que o foco está agora na diversificação da economia, com especial atenção à agricultura, à indústria transformadora, à produção de medicamentos, equipamentos hospitalares e bens de consumo.
A criação do FUNEA (Fundo Nacional de Emprego de Angola) e do programa Job Angola, que já beneficiou mais de 26 mil jovens, demonstra o compromisso do Executivo em gerar emprego e apoiar o empreendedorismo.
Estes programas são pilares de um modelo económico que pretende reduzir a dependência do petróleo, ampliar as oportunidades para os jovens e fortalecer as pequenas e médias empresas.
Na vertente social, o discurso revelou avanços estruturais que melhoram a vida do cidadão comum. No sector da saúde, o país passou de 320 para 3.355 unidades sanitárias, reforçando o acesso aos cuidados médicos, a formação de 46.649 novos profissionais e a implementação de tecnologias modernas, incluindo a cirurgia robótica.
A mortalidade infantil baixou de 44 para 32 por mil nados vivos, e a esperança média de vida aumentou para 64,6 anos — um progresso que expressa o compromisso do Estado com o bem-estar das famílias angolanas.
Na educação, os resultados são igualmente expressivos: de 85% de analfabetos em 1975, o país reduziu a taxa para cerca de 24% em 2025, contando hoje com 9,6 milhões de alunos, 208 mil professores e 106 instituições de ensino superior.
O Programa Nacional de Alimentação Escolar, que beneficiará cerca de 5 milhões de crianças, mostra que o Governo aposta na igualdade de oportunidades e na formação integral da juventude, alicerce da prosperidade futura.
João Lourenço reafirmou ainda a visão de longo prazo para os próximos 25 anos: transformar Angola numa economia de conhecimento, inovação e tecnologia.
A construção do Parque de Ciência e Tecnologia de Luanda e o financiamento de 71 projectos de investigação científica sinalizam uma viragem estrutural rumo a uma economia mais inteligente, competitiva e menos dependente dos ciclos internacionais do petróleo.
Neste novo ciclo, o Chefe de Estado deixou claro que a superação das dificuldades actuais — inflação, desemprego e desigualdade social — dependerá do trabalho conjunto entre o Estado, o sector privado e a sociedade civil.
As medidas em curso visam aumentar a produção interna, reduzir importações, apoiar cooperativas agrícolas e dinamizar o crédito à economia real.
O objectivo é gerar emprego, estabilizar preços e devolver poder de compra às famílias, garantindo que o crescimento económico se traduza em melhoria efectiva da qualidade de vida.
Mas, acima de todos os números e medidas, o discurso presidencial foi uma mensagem moral e espiritual. Um convite à união e ao reencontro nacional.
O Presidente apelou à memória dos que tombaram na luta, pedindo que o seu sacrifício inspire acção e compromisso — não ressentimento. O apelo resume o verdadeiro sentido da reconciliação: reconstruir o país sobre os alicerces do perdão, da verdade e da justiça social.
Com este discurso, João Lourenço não apenas projectou uma nova agenda económica, mas também consolidou uma nova ética política: a da reconciliação, do diálogo e do patriotismo inclusivo.
Angola deixa de ser vista como um país dividido por feridas antigas, e afirma-se como uma nação madura, capaz de olhar para o futuro com confiança e serenidade.
O discurso sobre o Estado da Nação de 2025 não foi apenas um balanço de governação — foi um manifesto de esperança e de renascimento moral, uma proclamação de que o futuro de Angola se constrói com todos e para todos.
A paz consolidada, o perdão praticado, a reconciliação simbolizada e as reformas económicas em curso são agora os pilares de um novo tempo.
*Economista