
De nome secular Jorge Mario Bergoglio, argentino descendente de italianos, quando padre, ao ver os miúdos jogarem futebol nas ruas, convidou-os a jogarem no Oratório de Santo António e irem à missa todos os domingos.
Um clube. Um nome. Foram seleccionados vários até que escolheram “Club Atlético San Lorenzo de Almagro”, em homenagem ao padre e em memória do mártir S. Lorenzo.
Como o padre usava batina preta, o time também era chamado “Os corvos.” Isto em Buenos Aires, capital da Argentina e do tango. O padre, hoje Papa Francisco, é o sócio nº 88.235 e sempre pagou as suas quotas.
Após a eleição do Papa, o San Lorenzo pediu autorização a Francisco para porem nas camisolas a fotografia do Papa. Foram feitas 30.
Uma foi doada à capela, outra ao clube e as outras leiloadas para obras de caridade. Em Agosto de 2014, uma representação do San Lorenzo foi até Roma mostrar ao Papa a Taça Libertadores da América conquistada nesse ano.
O Papa, com um sorriso de alegria, deixou-se fotografar segurando o troféu. E falou: “Para mim, San Lorenzo é o time de que toda a família era fanática.” Seu longo percurso de sabedoria e humildade que renunciou viver no Palácio Apostólico para residir na Casa de Santa Maria.
O seu sentido humanístico em defesa dos pobres, os excluídos, os marginais, a crítica às oligarquias políticas, em constante diálogo com gente de todas as origens e credos levou-o a ultrapassar os limites do sagrado para se tornar num pêndulo universal.
Durante a ditadura, o padre fez parte de uma rede clandestina que escondia perseguidos. Foi tempo de sequestros, torturas e assassinatos de sacerdotes progressistas, principalmente os ligados ao Movimento de Sacerdotes Para o Terceiro Mundo.
A rede conseguia a fuga de activistas, intelectuais e até escritores famosos para o Brasil. A história faz-nos lembrar do Peronismo, depois Evita Péron, que Madona representou em cinema, figuras carismáticas do fascismo argentino.
Portanto, Francisco, o primeiro Papa oriundo do Hemisfério Sul, teve uma experiência diferente dos seus antecessores. Enquanto os políticos vão à Ucrânia para deitar gasolina na fogueira, a doença do Papa uniu milhões de pessoas.
As orações rebentaram como flores de todas as c ores, as estrelas do céu, o som do vento e o barulho do mar, todos unidos.
Mesmo os agnósticos, como eu,, juntam-se às preces do homem já santo que, ainda lúcido, vê a humanidade unir-se em torno de alguém que entrou nos nossos corações.
O padre de bata preta que gosta de futebol. Um dia, a Argentina foi campeã do mundo de futebol. Perguntaram-lhe de quem gostava mais, de Messi ou Maradona.
“Olhe, eu ia num avião ao lado de uma pessoa e começámos a falar de futebol. Um homem simpático falava em português.
Desculpe. Quem é o senhor?” “Eu?” “Sim.” “Pelé.” E, na verdade, Francisco considera o Edson Arantes do Nascimento o maior jogador do mundo.
Aquando da deportação de pessoas de pés e mãos amarradas, Francisco ralhou com Trump. O certo é que as deportações pararam. Sempre que ia à Itália (e não foram poucas vezes), visitei a Capela Sistina para olhar o tecto e meditar como foi possível o ser humano fazer aquela maravilha. Depois, costumava ir fazer uma vénia ao tumulo do Papa João XXIII.
Espantoso é que não ouvi alguém sugerir a resignação de Francisco.
Porque ele vai fazer falta ao mundo carente de paz e de amor e que se une, ao menos, para ouvir a sua voz e o seu sorriso. Francisco, a nossa gratidão.
*Escritor