
Angola entra, a partir de fevereiro de 2026, numa fase particularmente decisiva do seu ciclo político, económico e social. Os próximos dezoito meses que antecedem as eleições gerais de agosto de 2027 não devem ser encarados apenas como um período pré-eleitoral, mas sobretudo como uma janela histórica de oportunidade para o Governo angolano consolidar reformas estruturais, corrigir disfunções persistentes e devolver esperança concreta às famílias, aos jovens e ao sector produtivo nacional.
O país não parte do zero. Nos últimos anos registaram-se avanços relevantes ao nível da estabilidade macroeconómica, da disciplina fiscal, do reposicionamento internacional e do combate à corrupção. Estes progressos criaram bases importantes para uma governação mais sustentável.
No entanto, o principal desafio que Angola enfrenta hoje já não é apenas macroeconómico, é profundamente social. A economia melhorou nos indicadores, mas a vida real da maioria dos angolanos continua marcada por dificuldades. A perceção de bem-estar da população ainda não acompanha os números divulgados.
Este texto apresenta um conjunto de sugestões de políticas públicas urgentes, realistas e exequíveis, que podem ser implementadas dentro de um horizonte concreto de governação de dezoito meses, entre fevereiro de 2026 e julho de 2027, com impacto directo na mitigação dos principais constrangimentos económicos e sociais que afligem o país.
O primeiro grande desafio reside na dissociação entre crescimento económico e melhoria efectiva das condições de vida. Apesar da trajetória descendente, a inflação mantém-se ainda elevada, em torno de 15,7%, pressionando fortemente o poder de compra das famílias.
O custo da cesta básica, os transportes, a energia e a habitação continuam a absorver a maior parte do rendimento disponível. Para inverter este quadro, torna-se prioritária a implementação de um Pacto Nacional de Estabilização de Preços, com incidência clara sobre a cadeia alimentar, desde a produção até à distribuição.
A redução selectiva de impostos e taxas sobre bens essenciais produzidos localmente, o reforço do Programa de Apoio à Produção Nacional numa lógica mais descentralizada e orientada por metas trimestrais, bem como a adopção de uma subvenção inteligente ao transporte público urbano, sobretudo em Luanda e nas principais capitais provinciais, poderão gerar um alívio imediato no custo de vida, maior previsibilidade para as famílias e um impacto psicológico positivo no quotidiano da população.
Outro factor estrutural de elevada pressão social é o desemprego juvenil. Com mais de metade da população abaixo dos 30 anos, a dificuldade de acesso ao emprego, sobretudo nos centros urbanos, tornou-se o principal motor de frustração social, descrença política e tensão latente.
A resposta exige a implementação de um Programa Nacional de Emprego Jovem de Emergência, focado em obras públicas de pequena e média escala, agricultura familiar organizada, saneamento básico, manutenção urbana e serviços comunitários remunerados.
A este esforço devem juntar-se parcerias efectivas com o sector privado, acompanhadas de incentivos fiscais claros por cada jovem contratado formalmente, bem como linhas de crédito bonificadas e garantidas pelo Estado para micro e pequenos negócios liderados por jovens.
Uma redução visível do desemprego juvenil até 2027 teria um impacto social, económico e político profundamente positivo.
A excessiva centralização da decisão e da execução continua igualmente a limitar a capacidade de resposta do Estado às necessidades reais das comunidades. Muitas soluções simples são adiadas por entraves administrativos, gerando frustração e sensação de distanciamento entre o cidadão e o poder público.
A aceleração da desconcentração financeira real para os municípios, a concessão de maior autonomia operacional aos administradores municipais, acompanhada de metas objectivas e mecanismos rigorosos de fiscalização, bem como a implementação de contratos-programa locais orientados para resultados sociais concretos, permitirão respostas mais rápidas, maior proximidade com os problemas reais e o reforço da confiança dos cidadãos nas instituições públicas.
No plano económico, Angola precisa transformar definitivamente o discurso da diversificação em impacto tangível na vida das pessoas. A agricultura, a agroindústria, a indústria alimentar, os materiais de construção, as cadeias logísticas internas e a economia digital devem assumir centralidade absoluta na estratégia governativa.
Para tal, é fundamental reforçar as garantias públicas ao financiamento produtivo, sobretudo para pequenas e médias empresas, orientar estrategicamente as compras públicas para a produção nacional e promover uma simplificação profunda dos processos administrativos e de licenciamento.
O resultado esperado é maior produção interna, redução da dependência das importações, criação de emprego sustentável e maior resiliência económica.
Nenhuma destas medidas produzirá os efeitos desejados sem uma comunicação governativa mais próxima, pedagógica e transparente. Políticas públicas, mesmo bem desenhadas, fracassam quando não são devidamente explicadas, acompanhadas e sentidas pela população.
A prestação de contas periódica e territorializada, o reconhecimento honesto das dificuldades existentes e uma comunicação menos triunfalista e mais empática são elementos essenciais para reduzir a tensão social e reconstruir a confiança entre governantes e governados.
Os próximos dezoito meses exigem uma governação focada, pragmática e socialmente sensível. Não se trata de prometer milagres, mas de entregar resultados visíveis onde mais dói: emprego, rendimento, preços e dignidade.
Se o Governo angolano conseguir alinhar a estabilidade macroeconómica já alcançada com alívio concreto no quotidiano das famílias, Angola poderá chegar a agosto de 2027 com um ambiente de maior serenidade, confiança institucional e esperança renovada.
A história recente demonstra que o povo angolano sabe reconhecer esforço sério quando este se traduz em melhoria real de vida. O tempo é curto, mas a oportunidade existe. Governar, agora, é fazê-lo com o relógio da população.
*Economista