
Tem um provérbio maravilha: “para educar um homem, eduque-se a criança, para educar uma aldeia, eduque-se a mulher.”
Hoje, tanto tempo passado, nestes celebrados 50 anos, estou a apadrinhar a candidatura de uma mulher para o lugar de Secretário Geral da União de Escritores Angolanos (UEA).
Lembro-me. Estava no Ministério da Informação do governo de transição. Dominava os meios gráficos do antigo CITA. Apareceu o Zé Luandino e seu compadre Arnaldo Santos com uma maquete para um poster da proclamação da União dos Escritores Angolanos.
Tenho a fotografia da proclamação, eu a dizer poesia, o artista plástico Óle e mais para a esquerda Agostinho Neto que viria a ser o primeiro Presidente. Havia e ainda deve existir uma tapeçaria feita por um arquiteto angolano vivendo em Portugal.
A UEA cresceu, tornou-se editora de livros de ficção, poesia, da Revista Lavra e Oficina das makas em que se discutiam todas as questões, tornando-se no centro da liberdade de expressão.
Expandimos nossa literatura pelo mundo, corremos mundo convidados para falar logo a seguir ao Vietnam. Foram tantas as universidades, os congressos, as aulas que demos, os troféus e galhardetes. E o secretário geral foi sempre um homem.
Hoje, também para comemorar os 50 anos, decidi apadrinhar a candidatura de uma mulher para ocupar o lugar de secretário geral da UEA e formar a sua equipe.
É Kanguimbu Ananás. A mulher serena, que aprendeu nas escadarias da nossa UNIÃO a dizer poesia com uma fogueira a decifrar as palavras e a Brigada Jovem de bom humor a recitar a “sanita”…
Numa sociedade machista a UEA não podia escapar mesmo sem intenção.
A mulher, por princípio e experiência, tem mais capacidades que o homem e cada vez mais vem ocupando lugares cimeiros na política e na arte. Sabe apaziguar os conflitos, sabe unir os desavindos. E é disso que precisamos.
Óbvio que ela vai encontrar uma situação financeira que se pode chamar insolvência. Mas para isso também é preciso uma mulher.
A mulher que eu apadrinho vem das terras do Namibe e escreve em seu manifesto assim:
Venho das terras do litoral sul, meu umbigo repousa no solo fértil de Santa Rita, mulher do campo que se fez na cidade. Afinal, o campo é o sustento da humanidade.
É no campo de onde surge a vida: os cereais, as hortaliças, as frutas e tudo resto que alimenta o mundo.
Nasci das mãos férteis do campo e aqui estou eu, mulher resiliente, fiz-me sozinha neste universo rodeado por homens. Homens que me estenderam as mãos e colocaram pedras no alicerce da minha vida.
Estou a apadrinhar esta candidatura com o melhor sentido do melhor convívio entre os membros da nossa União, para que jamais seja utilizada para fins pessoais e sempre com respeito pelos estatutos.
É a primeira vez que uma mulher ousa candidatar-se. E vai ganhar! Depois vamos aos caranguejos gigantes e outros petiscos do oásis sulano.
Kanguinbu Ananas em frente e em paz!
*Jurista e escritor