
Uma visão de África sem guerras parece uma utopia. Mas é possível. Se todos os líderes políticos africanos se engajarem na procura de consensos para os problemas que afligem cada Estado e o continente em geral, privilegiando o diálogo, em vez de soluções musculadas, para equacionar os diferentes litígios que opõem forças políticas, comunidades, povos e países, de certeza que uma África sem guerra pode acontecer.
No fundo, é esse o convite feito recentemente pelo actual presidente da União Africana, João Lourenço, em Adis Abeba (Etiópia), ao defender a realização de uma ampla conferência destinada à análise dos conflitos em África, para a busca de soluções que conduzam ao silenciar das armas no continente.
Num apelo em que não faltou a chamada de atenção para o facto de, às vezes, instituições externas à África serem mais rigorosas, exigentes e contundentes do que os próprios líderes e países africanos no tratamento dos conflitos que se desenrolam no continente, o Presidente João Lourenço deixou expressa uma abordagem que reflecte a urgência de se caminhar num sentido diferente do que tem sido habitual.
E o habitual, em muitos casos, é o conformismo, que acaba por caucionar as situações de “facto consumado”.
O Presidente da União Africana defende que os promotores de tensões e conflitos no continente sejam desencorajados, responsabilizados e penalizados com sanções pesadas da organização, que venham a ter sérias consequências sobre os mesmos.
Percebe-se a preocupação do actual líder da União Africana em inaugurar uma nova forma de agir em relação aos conflitos. Ou seja, advoga uma actuação em bloco da organização continental, nomeadamente de todos os seus países, que seja inequívoca em termos de posicionamento e não dê lugar a brechas.
Um tal estágio de actuação exige um correspondente estágio de pensamento político, na base do qual está uma evolução assente numa forte cooperação multilateral em vários domínios, com particular destaque para os sectores da Segurança, Defesa, Política e Diplomacia.
Os Governos têm também responsabilidades internas que não podem deixar de cumprir, seja a que pretexto for, de criar instituições fortes, capazes de promover o diálogo e implementar soluções concretas, de modo a tornar marginais as possibilidades de surgimento de situações de tensão ou conflito.
Em África, em particular, devido às diferenças étnico-culturais, de hábitos e costumes que lhes são inerentes, os egos a que estão associados tendem a falar mais alto do que os interesses nacionais.
Não é, como é óbvio, um problema exclusivo de África. Mas é uma realidade que assistimos e que constatamos estar na génese de vários conflitos, no passado e também na actualidade, no nosso continente.
Essa diversidade de culturas é uma riqueza para o continente, sem dúvidas. Todavia, acarreta uma complexidade de soluções para as quais devemos estar abertos e preparados.
Não é por as questões serem complexas que devem deixar de ser abordadas, desde que o fundamental, que são os princípios e valores comuns, sejam acautelados, sejam protegidos. É na ausência de garantias dessa protecção de direitos que o diálogo conhece derrapagens.
Além do conflito no Leste da RDC, África regista focos de guerra ou de tensão no Sudão, no Sudão do Sul, na RCA, na Somália, as situações de terrorismo em Ponta Delgado, em Moçambique, e nos países que constituem a “cintura do Sahel” – Burkina Faso, Níger, Mali.
No actual contexto, os mais pessimistas podem dizer que é um sonho falar em silenciar as armas no continente. É dos sonhos que se parte para a construção da realidade. A abordagem que está a ser feita é no sentido da recusa do conformismo, da sua aceitação e nada fazer, não agir. Como se fosse uma fatalidade que não possa ser combatida, alterada e revertida.
Cabe a nós, africanos, pôr mãos à obra e moldar o quadro da situação à medida dos nossos sonhos. Exige trabalho, sim, e não inércia.
A Europa conseguiu inverter anos sucessivos de conflitos e, após a II Guerra Mundial, deu-nos um exemplo de 78 anos de estabilidade e prosperidade.
A China, que há quatro décadas era um país com fortes traços medievais, está a dar-nos testemunho do que é possível fazer com paz e vontade política, estando hoje na vanguarda da inovação e transformações tecnológicas que comandam a quarta revolução industrial.
A Índia, um país onde há pouco tempo a pobreza imperava, tem agora uma economia considerada emergente. Singapura, Malásia, Tailândia e Vietname são outros casos de prosperidade conseguida ou em construção, reveladores de que é preciso estar atento e ajustar-se às mudanças que o mundo está a sofrer. Só assim estaremos em condições de enfrentar os desafios da economia global.
África precisa de silenciar as armas e olhar para todos esses exemplos como um ensinamento, até porque, tal como no passado, em muitos casos temos a vantagem de possuir as matérias-primas que estão a permitir ao mundo uma nova configuração geopolítica e geoeconómica.
*Jornalista