Washington e as últimas eleições em Angola – Manuel Marques Carlos
Washington e as últimas eleições em Angola – Manuel Marques Carlos
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Para a maior parte dos angolanos que apostou na alternância nas eleições de 24 de Agosto de 2022, a inesperada passividade e descoordenação da UNITA face aos resultados anunciados pela CNE indicam covardia e graves falhas na sua estrutura de comunicação.

Esta percepção, que traduz um certo desencanto popular, surge do não cumprimento da promessa de defender o voto até às últimas consequências, como tinha sido prometido ao longo da campanha.

Embora este coro de críticas se sustente, a verdade é que pouco se sabe sobre as verdadeiras razões que frustraram as nossas expectativas de mudança. E ao contrário do que se pensa, as razões têm mais a ver com João Lourenço (JLO) do que com Adalberto Costa Júnior (ACJ).

É certo que a passividade não é de todo incomum para a UNITA. Mas também é verdade que o Galo Negro investiu demais nestas eleições para deixar a CNE decidir fraudulentamente o pedaço da torta que lhe cabia.

É óbvio que não foi para isso que a UNITA se uniu a outras forças; não foi para obter noventa deputados que contratou assessoria israelita; não foi por este resultado que criou uma estrutura de contagem paralela.

De acordo com um dos principais generais do exército com quem falei há um ano, ao nível dos corredores do poder, havia a confirmação de que a UNITA tinha ganho as eleições. No entanto, Lourenço estava determinado a manter-se na presidência, independentemente do que os votos diziam.

Ao insistir no segundo mandato a qualquer custo, uma crise pós-eleitoral estava prestes a eclodir, o que abriu espaço para a América entrar astutamente em cena.

Segundo este alto funcionário do Estado, que já serviu o país em missões diplomáticas no estrangeiro, os Estados Unidos apelaram à serenidade da UNITA, pediram para ceder mais uma vez e em contrapartida teria total apoio de Washington em 2027.

Em seguida, os americanos chantagearam Lourenço: pediram-lhe que escolhesse entre o poder ou a cooperação com a Rússia. E o que aconteceu depois deu lugar ao país que temos hoje.

Este dado não é apenas de alguém dentro do sistema. A dinâmica política do país desde estas eleições confirma esta revelação, como mostram as evidências a seguir:

1 – A relação entre Tulinabo Mushingi e João Lourenço. Embora Angola e os Estados Unidos mantenham relações há mais de 30 anos, nunca um embaixador americano esteve tão ligado à Cidade Alta.

A relação invejável entre João Lourenço e Tulinabo Mushingi deve-se ao facto de Tulinabo ter sido a figura do lado americano que tornou possível a segunda rodada presidencial a João Lourenço, e este, em gesto de gratidão, fez do diplomata estadunidense o seu melhor amigo americano.

2 – As relações entre Angola e América. Apesar de ter sido Washington quem reconduziu Lourenço ao cargo de presidente angolano, Biden sempre se mostrou desconfortável com as tentativas de aproximação do líder do MPLA, pelo menos durante a maior parte do seu mandato.

Assim se explica o desdém que Lourenço sempre recebeu em Washington, até ser finalmente recebido na Casa Branca em Novembro de 2023, e com demasiada insistência conseguiu trazer o presidente americano para Angola, a poucos dias de deixar o cargo.

Um gesto explícito ocorreu à margem da última Cimeira Estados Unidos – África, quando Biden convidou vários chefes de Estado africanos para assistirem a um jogo de futebol entre a França e a Argélia.

Ao contrário de muito do que se disse, Lourenço foi deliberadamente posto de parte neste convívio informal porque era visto como um gangster a quem Washington se sentiu obrigado a apertar a mão.

3 – O desespero de João Lourenço em aproximar-se da Casa Branca. Entre 2017 e 2023, segundo cálculos de jornalistas, políticos e académicos, os gastos do governo angolano com o lobby na América rondaram os trinta milhões de dólares, muito acima do que o Qatar, a RDC, o Haiti e Taiwan pagaram pelo serviço no mesmo período.

O verdadeiro objectivo de todo este esforço financeiro nunca foi influenciar a América a canalizar mais recursos para o Corredor do Lobito, ou a visita simbólica de um presidente americano a Angola.

Quando ligamos os pontos, torna-se claro que Lourenço paga tão alto para ter acesso aos decisores de Washington, de forma a convencê-los de que pode ser mais como amigo do que como marionete, e com isso deixar cair a promessa que foi feita à UNITA e conseguir prolongar os seus anos na presidência para além do limite constitucional.

Quando ficou claro que esta ambição era inatingível, os seus cálculos não mudaram. Continuou a investir nos laços com Washington para ganhar o direito de se tornar o poder por atrás do trono a partir de 2027, através de arranjos sinistros nos estatutos do seu partido.

4 – Relações entre Luanda e Moscovo. Os últimos dois anos não parecem ser os melhores nas relações entre Angola e a Federação Russa.

O acontecimento que melhor reflecte este possível distanciamento foi o voto de Angola a favor da quarta resolução da ONU condenando a anexação de quatro regiões ucranianas pela Rússia, ocorrido precisamente um mês depois de JLO ter sido empossado para o segundo mandato.
Em meio século de boas relações, foram muito poucas as vezes em que Angola se opôs aos interesses russos.

5 – As gafes da estrutura de comunicação da UNITA. Logo após o dia da votação, a sociedade ouviu com espanto e preocupação as falas desencontradas de altos dirigentes da UNITA, principalmente Faustino Mumbica, Mihaela Webba, Marcial Dachala e do próprio presidente ACJ, que de forma contraditória e dúbia tentavam refutar os dados da CNE.

Embora o aparelho de comunicação do Galo Negro nunca foi a prova de falhas, também nunca foi do seu estilo ser descoordenado. Muito provavelmente, a UNITA estava com dificuldade de engolir mais um sapo que estava a ser forçada a mandar para o estômago.

6 – A inexplicável passividade com que a UNITA aceitou os resultados. Digo inexplicável porque era irrefutável que o Galo Negro tinha ganho as eleições, e mais do que ter os números a seu favor, a UNITA tinha do seu lado o povo e os holofotes da imprensa portuguesa.

Sendo um partido repleto de homens e mulheres notáveis nascidos e criados na linha da frente, e com mais anos de história como força militar do que como força política, é óbvio que o que forçou o Galo Negro a desistir da oportunidade de provar aos angolanos o que é capaz do outro lado, só pode ter sido uma força maior que o MPLA.

É para estar no comando que a UNITA foi fundada há quase sessenta anos, e é por isso que a sua luta tem sido incansável desde então. E em 2022, as circunstâncias pareciam indicar que se pressionasse um pouco, o sonho pelo qual vem se preparando ao longo de décadas se tornaria realidade. Portanto, nem o político mais covarde abre mão disso, a não ser que esteja sob a mira de uma arma.

7 – A viagem de ACJ aos Estados Unidos quando foi anunciado o processo de destituição de JLO. Embora esta iniciativa se tenha revelado mais tarde meramente simbólica – a UNITA não anunciaria puxar o tapete a Lourenço, com o seu líder fora do país, a menos que tivesse ido pedir autorização a Washington.

Adalberto merece ser levado a sério?

É difícil ser amigável com alguém que desiste de uma luta justa sem ao menos tentar, principalmente quando obriga aqueles que o apoiam a adivinhar porque deixou o seu medo tornar-se mais forte.

Quando Adalberto anunciou que não iria defender o voto como tinha prometido, muitos que tinham condições começaram a fazer as malas e a procurar lugares no exterior para chamar de lar.

Eu, que não tinha para onde ir, decidi xingá-lo, e fi-lo com cada palavra horrível que conhecia. “Este é só uma versão mais jovem de Samakuva, é frouxo demais para nos arrancar das garras de faraó” – pensei.

No entanto, hoje, embora a passividade e a inconsistência continuam não estando na lista de qualidades que procuro nos políticos, pergunto-me se o líder da UNITA tinha realmente outra escolha.

Se quando Washington tem interesse na mudança é quase impossível desmantelar um regime que descansa à sombra da Rússia e da China, o que acontece quando a América se opõe à alternância?

Na Venezuela, apesar de todo o apoio que a oposição recebe do Ocidente e dos vizinhos, o regime de Maduro continua forte e inquebrável. E, de longe, a revolução tem mais hipóteses de funcionar na Venezuela do que em Angola, se considerarmos que na República Boliviana a oposição é activa, a diáspora é interventiva e, mais importante, o povo é consciente.

Dito isto, sair à rua para exigir a verdade eleitoral, sem apoio internacional, não teria feito qualquer diferença. Pelo contrário, o regime aproveitaria a situação para estrangular as ameaças que considera críticas, e fá-lo-ia sem a menor preocupação, porque ao contrário da atenção que o mundo dá a outras nações, onde as revoluções recebem ampla cobertura da mídia ocidental, o que acontece em Angola, e em África em geral, serve apenas de nota de rodapé nas notícias internacionais.

Este vazio de pressão mediática deixa os regimes suficientemente à vontade para reprimir os protestos com toda a brutalidade possível, uma vez que não estão sob os holofotes internacionais.

Não deveria a América ser leal à UNITA, a sua aliada histórica?

A lealdade dos Estados Unidos para com os aliados dura o tempo que os seus decisores demoram a perceber que é possível ganhar muito mais de outro jeito. Para Washington, qualquer meio que lhe permita atingir os seus objectivos é justificável, não importa se atropela as aspirações de um parceiro, ou se rouba a uma nação a oportunidade de encerrar uma longa jornada e infernal. Isto explica porque é que Savimbi foi varrido quando se tornou a barreira entre a América e as reservas angolanas de petróleo.

Embora a América não seja amiga do MPLA, também não é inimiga. Este tom cinzento de relacionamento é perfeito para a manutenção dos seus interesses no país, e significa que para a Casa Branca é indiferente quem senta na primeira cadeira da Cidade Alta – Lourenço ou Adalberto, porque com um ou com outro os seus objectivos estão protegidos de qualquer forma.

Isso também significa que para os Estados Unidos, o valor do distanciamento entre Luanda e Moscovo é secundário. O que é de facto central é o controlo do país que têm desde 2022, com base no poder que exercem sobre Lourenço.

Se a América sempre teve o que quer com o MPLA, porque arriscaria tudo pela UNITA numa luta cujas possibilidades de vitória eram mínimas?

Digo mínimas, para não dizer nulas, porque se tivéssemos uma crise pós-eleitoral, o MPLA teria o total apoio da Rússia e da China – uma dupla que já se revelou invencível. Para Pequim, para além do alinhamento ideológico, interessa manter o MPLA no comando para que Angola continue a ser uma praça sem regras para os produtos acabados da China.

Para Moscovo, é importante apoiar o MPLA porque é um parceiro ideológico com quem mantém laços duradouros. Isso explica porque apesar do tal “azedar” das relações, exagerado pela mídia, no dia 10 de Agosto a Rússia reforçou a frota do Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola (INEMA), com um lote de 50 ambulâncias, uma doação que custou aos cofres russos cerca de dez milhões de dólares, tendo na cerimónia de entrega, o embaixador russo, Vladimir Tararov, enfatizado que a doação vinham em resposta a um pedido do presidente angolano ao seu homólogo, Vladimir Putin.

Este gesto ressalta que para o Kremlin, as suas relações com a Cidade Alta permanecem as mesmas, e que entende que Lourenço foi pragmático – estava num beco sem saída e fez o que era necessário para se salvar.

Quanto à União Europeia, iria se envolver, mas apenas teoricamente. A ideia de uma mudança de regime em Angola não agrada a Europa precisamente porque o MPLA não constitui uma ameaça aos seus interesses – ao contrário da UNITA, que ao assumir as rédeas, iria desfalcar os bancos europeus ao repatriar o capital do país que foi lá parar ilicitamente.

No entanto, para não minar a retórica dos “valores democráticos defendidos pela Europa”, a UE se limitaria a fazer uns apelos as “instituições angolanas para que se cumpra a lei.”

Mas, Bruxelas não tomaria nenhuma medida vigorosa como vimos fazer na Venezuela. Todo o apoio que o povo angolano receberia da Europa seria uma moção de alguns deputados do parlamento português – mas nada que na prática influenciaria o curso dos acontecimentos.

Perante este cenário, a UNITA não pode ser responsabilizada pela manutenção do regime. Adiar a tão aguardada alternância foi escolha menos dolorosa – a outra opção seria muito pior, daria ao regime a justificativa que procurava para silenciar as vozes hostis e reestabelecer o tempo em que subjugar o país era mais fácil quando só havia um partido.

O fim de uma era

Em regimes autocráticos como o nosso, não ganha as eleições o candidato escolhido pelo povo, mas sim aquele que conta com a obediência, lealdade e gratidão das altas estruturas da justiça, da polícia e do exército.

O problema surge no momento da transição, quando por imperativo constitucional ou outro, quem governa precisa passar as rédeas a um sucessor.

A primeira dificuldade que se coloca é encontrar uma figura imaculada, que não esteja associada a grandes escândalos de corrupção. Depois de vasculhar o palheiro, geralmente a única agulha encontrada é um candidato anónimo, ou sem o mínimo carisma.

Apesar de todos os recursos que lhe são disponibilizados, a afirmação deste candidato permanece um desafio. O presidente em fim de mandato mantém o apoio declarado, mas a autopreservação obriga-o a não esticar demasiado a corda para não minar a sua própria segurança assim que deixar o cardo.

Este cenário abre uma janela de oportunidade para o país se libertar. Segundo esta lógica, se a oposição em Angola resistir às tentativas de desestabilização que se avizinham, se abrir a novas formas de luta e compartilhar a sede de mudança do povo, 2027 será a data mais importante da nossa história.

Por último, com as fricções internas no MPLA, sob certas garantias, é possível que em 2027 Lourenço passe as rédeas a oposição com pouca ou nenhuma resistência.

*Activista

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