Empreendedorismo: da palavra aos actos! – Adebayo Vunge
Empreendedorismo: da palavra aos actos! - Adebayo Vunge
Adebayo Vunge

Nunca se falou tanto como agora, nunca se conjugou tanto o verbo empreender. Tornou-se uma palavra muito usada em vários e diferentes quadrantes da nossa vida social, política e económica.

Essa tendência não é local. Esta é uma tendência global que ganhou corpo desde grandes estudiosos e académicos que teorizavam à volta do jargão e lhe deram vida e expressão, assinalando-se aqui diversos políticos e teóricos, como Joseph Schumpeter que enfatizaram a importância do empreendedorismo, da “destruição criativa” e da inovação como motores essenciais para o desenvolvimento económico.

A maioria dos teóricos destacam ainda os traços de personalidade das pessoas empreendedoras bem como o contexto em que estas se desenvolvem tendo em vista a tomada de decisões empreendedoras avisadas porque baseadas em recursos disponíveis, oportunidades e necessidades, conhecimento e inovação.

Anualmente, é publicado o Global Entrepreneuship Monitor, que é um relatório onde se identificam as tendências e aspectos relevantes desse processo. Esse mesmo relatório destacou no ano passado a capacidade empreendedora da população angolana, que, entre os países de baixo rendimento, tinha a maior taxa de empreendedorismo (53,4%), seguida da Guatemala (rendimento médio) com 29,4% e do Panamá (rendimento elevado) com 27,9%.

O GEM2022-23 valorizou a simplificação de procedimentos para a criação de empresas, mas explica-se que “o elevado nível de desemprego é o principal factor de crescimento do empreendedorismo no país, pois impulsiona as pessoas a criarem empresas”, lia-se no documento.

Na última semana, Luanda registou dois eventos significativos: o Angola Economic Forum bem como o Angotic. Em qualquer um dos contextos, a abordagem sobre o empreendedorismo esteve na mesa e os próprios empreendedores, para além de outros intervenientes do ecossistema analisaram a situação.

Assim, salta à vista a necessidade de aprofundarmos a abordagem sobre a “educação empreendedora”, como uma extensão da “educação libertadora” permitindo que o sistema de ensino e a sociedade permitam que os jovens estudantes adquiram habilidade para lidar com as necessidades do mercado, seja enquanto bons profissionais empregados, mas também para aqueles que prefiram seguir o caminho do auto-emprego e do empreendedorismo.

A deputada Aia-Eza da Silva, na abertura do Angola Economic Forum foi muito assertiva a esse respeito: “destaco a educação como ferramenta de base para ultrapassar os vários desafios que o país enfrenta”.

A educação empreendedora é um instrumento que prepara as pessoas para enfrentar desafios, desenvolver a criatividade, a resiliência e a capacidade de resolver problemas.

Além disso, promove o espírito de iniciativa, liderança, habilidade de se adaptar a mudanças e o pensamento crítico. Precisamos por exemplo dum sistema de ensino que habilite as pessoas, a falarem em público com facilidade, treinadas para a eloquência, com lógica e racionalidade.

Precisamos dum sistema de ensino que habilite as pessoas a dominarem ferramentas tecnológicas sem que vejam o computador como uma máquina inacessível. Precisamos de pessoas que dominem contas, teoremas e ciências. Pessoas que tenham acesso aos laboratórios de Biologia, Química e Física ao longo do seu percurso, sem dificuldades.

Precisamos de um sistema de ensino que potencie a nossa cultura, as nossas línguas e a nossa identidade para que tenhamos noção de que o desenvolvimento e a cultura são indissociáveis e complementares. Falar Kimbundu, Umbundu, Kikongo ou outra língua no nosso rico mosaico cultural nos engrandece.

Segundo os dados enunciados pelo Ministro das Telecomunicação e Comunicação Social, estiveram no Angotic cerca de 180 start-ups. O número até poderia ser superior. O importante é que estas se consigam afirmar nas estatísticas como tendo sobrevivido e tendo conseguido apresentar soluções e participar na resolução dos nossos problemas mais directos.

Mas quando falamos em empreendedorismo no nosso contexto, facilmente esbarramos nas dificuldades do quotidiano. O acesso a outros serviços e infra-estruturas como as telecomunicações e espaços para co-working acessíveis para os jovens desenvolverem os seus projectos; o acesso ao financiamento; as burocracias e o mind-set instalado para além de questões como a gestão empresarial e de projectos que precisam de ser melhor afinadas e muitas delas com impacto na baixa taxa de sobrevivências das empresas, mormente das start-ups.

Os eventos referidos, permitiram-nos ter uma luz ao fundo do túnel. A criatividade e a capacidade de inovar cá moram. Precisamos de criar um ambiente mais favorável que permita que essas ideias e projectos se tornem realidades palpáveis, tendo presente a necessidade de encontrarmos maior disponibilidade de financiamento de alto risco ou mesmo “business angels”, como quem diz, dos nossos endinheirados.

Uma coisa parece inequívoca quando olhamos para as Silicon Valley no mundo: Sem financiamento, não há empreendedorismo. Tornar, portanto, o discurso uma realidade mais efectiva. Mãos à obra.

*Jornalista

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