
Com o fim de cada legislatura, muitos ex-deputados a Assembleia Nacional vivem em condições menos boas, no que concerne a vida social, económica e financeira, depois do fim dos seus mandatos, por perderem as mordomias a que tinham direito (bons salários, viaturas de luxo, casas, viagens) e outras regalias.
O Regimento Interno da Assembleia Nacional diz que os parlamentares com dois mandatos consecutivos têm uma reforma, enquanto os que cumprem apenas um, não têm direito a reforma, e os que estão neste último escalão, alguns vivem em condições extremamente difíceis.
Para reavivar a memória dos nossos leitores, o primeiro grito de socorro veio do ex-deputado independente pela coligação CASA-CE, Augusto Pedro Makuta Nkondo, que, apesar de reformado, depois de dois mandatos consecutivos na Assembleia Nacional, admitiu uma sobrevivência difícil, tendo em conta o custo de vida, decorrente da inflação.
O ex-deputado mais mediático entrou no Parlamento em 2008, pela mão da UNITA, com o apoio do ex-líder deste partido, Isaías Samakuva, e, em 2017, reentrou pela CASA-CE, na altura dirigida pelo político Abel Chivukuvuku.
Depois do fim do seu mandato, em 2022, Makuta Nkondo, em declarações públicas à imprensa, afirmou que ia sobreviver à “custa da bondade dos seus filhos”, porque não teria a vida facilitada, depois de perder algumas benesses na Casa das Leis, onde destacou-se como um dos mais interventivos.
Jornalista de profissão, com passagens pela Agência Angola Press (ANGOP), Agência France Press (AFP), correspondente em Angola, jornais Angolense e Folha 8, não se sabe ao certo se nestas empresas de Comunicação Social não terá feito uma poupança para evitar eventuais furos (financeiros) abaixo.
Além de jornalista é biólogo de formação, tendo trabalhado no Instituto de Investigação Pesqueira, na Ilha de Luanda. Enquanto figura pública, não se lhe conhece estar ligado ao mundo de grandes negócios, mas, fontes próximas ao velho deputado, dizem que ele possui uma vasta fazenda agropecuária no Tomboco (Zaire), sua terra natal, onde cria gado bovino, suíno, caprino e também frutas e hortícolas em grande escala, que têm sido escoados para os principais mercados de consumo em Luanda.
Outro deputado é o político Sediangani Mbimbi, que deixou a Assembleia Nacional depois de um mandato (2017-2022) que, à semelhança de Makuta Nkondo, entrou como independente pela UNITA, mas por intermédio de um familiar seu, Ernesto Mulato, depois de ter sido afastado compulsivamente do PDP-ANA, onde foi líder deste partido, sucedendo a Mfulumpinga Nlandu Victor, presidente-fundador.
Depois da sua saída nebulosa do partido, protagonizada por antigos membros, Simão Makazu, seu sucessor, e Abreu Capitão, actual líder, Sediangani Mbimbi, que foi um dos principais ‘delfins’ do PDP-ANA, na era de Mfulumpinga, fez uma longa travessia no deserto até encontrar o amparo de seu tio Ernesto Mulato.
Mulato, para convencer alguns influentes membros da Comissão Política do Comité Permanente (CPCP) da UNITA, fez com que Sediangani Mbimbi começasse como comentador residente para assuntos políticos da Rádio Despertar, até ser indicado para a lista de deputados na legislatura passada sob orientação de Samakuva.
Apesar de figura pública, Sediangani Mbimbi é muito reservado quanto a sua vida privada, e com o fim do seu curto mandato no Parlamento, desapareceu praticamente dos holofotes da imprensa e em locais públicos.
Embora diga ser economista formado na Faculdade de Economia da Universida de Agostinho Neto, na sua folha de serviço não há um único registo de que tenha exercido essa profissão, sendo a vida política, a única que o catapultou para as luzes da ribalta.
Coincidência ou não, este homem, que já foi os ‘olhos e os ouvidos’ de Mfulumpinga Nlandu Victor, depois que foi forçado a deixar o seu anterior partido, dependia de familiares para sobreviver, como ele próprio dizia em público, antes de entrar para o Parlamento.
Ao que tudo indica, tendo em conta a sua avançada idade (mais de 70 anos) que o impede de ingressar no funcionalismo público, caso não tenha feito poupanças, com a sua saída da Assembleia Nacional (AN), estará a enfrentar dificuldades financeiras extremas.
O mesmo já não se pode dizer do também ex-deputado independente, também pelo partido do ‘Galo Negro’, David Mendes, pois é um dos mais influentes advogados e bem sucedidos deste país.
Terminou a legislatura fora do grupo parlamentar, por romper com o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, por ter sido ameaçado por um grupo de jovens deste partido, num vídeo, a partir de Bruxelas (Bélgica), é também empresário, actuando na construção civil, restauração e no agronegócio, por isso nada teme fora do Parlamento.
Além de político e homem de cultura (na área de teatro), e também filantropo, mas actua neste segmento sem publicidade, alegando que fazer bem ao próximo não precisa exaltar o nome de quem doa. Faz acções de filantropia em Luanda, onde reside e também noutras províncias.
Os amarelinhos da CASA-CE
Entretanto, a CASA-CE que perdeu os 16 deputados nas eleições gerais de 24 de Agosto, cuja derrota eleitoral continua a levantar alguma animosidade interna, excepto Makuta Makuta, os demais parecem não ter maiores preocupações por estarem fora do Parlamento, porque têm praticamente a vida feita.
São os casos do ‘decano’ Lindo Bernardo Tito, que estreou na AN, em 1992, pelo Partido de Renovação Social (PRS), tendo sido o deputado mais novo (23 anos). Além da carreira política, iniciada na sua terra natal, aliás, segunda terra natal, em Saurimo, na Lunda Sul, pois é natural de Cambulo, Lunda Norte, Lindo Tito é advogado.
Passou 30 anos na AN, onde ganhou maturidade política, e é proprietário de um escritório de advogados. É também professor universitário de Direito Constitucional na Universidade Óscar Ribas.
Foi ainda jornalista da Rádio Nacional de Angola (RNA) em Saurimo, tendo sido um dos bons narradores de jogos daquela estação emissora, além de ter sido professor de Matemática.
Alexandre Sebastião André, que foi o líder do grupo parlamentar da Coligação na legislatura finda, também é advogado de profissão, tendo partilhado o mesmo escritório com Lindo Tito, de quem é amigo pessoal, apesar das divergências entre ambos, depois do afastamento do ex-coordenador da CASA-CE, Abel Chivukuvuku, por alegada quebra de confiança política.
André Mendes de Carvalho “Miau”, que substituiu Chivukuvuku na liderança da Coligação, não vive sobressaltos financeiros e económicos, além da reforma dos dois mandatos, é também general reformado das Forças Armadas Angolanas (FAA).
Manuel Fernandes, Cesinanda Xavier, Leonel José Gomes, Sampaio Mucanda, Maria Victória Chivukuvuku, Carlos Kandanda, estes, segundo as nossas fontes, fora ou dentro da Assembleia Nacional, têm os pés assentes no chão, ao passo que Felé António, Sikonda Lulendo e outros, começam a fazer contas à vida, porque fora do Parlamento, não têm outras alternativas, senão pequenos negócios uma informação não confirmada junto destes ex-representantes do povo no Parlamento.
Já o então líder da FNLA, Lucas Ngonda, que decidiu dar lugar ao seu sucessor, Nimi a Simbi, que reentra nesta Casa, onde esteve entre 2008 e 2022. Ngonda é professor universitário, além desta função, tem três mandatos consecutivos e também é empresário do ramo de restauração e hotelaria, com vários empreendimentos em Luanda.

Outros
Nesta longa lista de deputados fora do Parlamento, estão ainda outros, Quintino António de Moreira, um dos mais resilientes líderes de forças políticas, que, apesar de o seu partido Aliança Política Patriótica (APN) ter estado fora da AN, entre 2008 e 2012, sempre actuou como uma força alternativa, mesmo não estando orçamentada.
Jurista de formação e professor, Quintino Moreira e também é empresário, actuando em várias áreas, comércio e construção civil, com negócios em Luanda e no Bengo, sua terra natal.
Não faz contas à vida para viver. Aliás, demonstrou durante esses anos em que a sua APN, agora extinta pelo Tribunal Constitucional, por erro de cálculo (?) depois das eleições de 2017, sobreviveu apenas a custa dele próprio, que apesar das dificuldades conseguiu manter os seus secretariados provinciais funcionais.
Carlos Maria Feijó, conceituado professor catedrático da Universidade Agostinho Neto (UAN) e antigo secretário do Conselho de Ministros no Governo de José Eduardo dos Santos, e um dos poucos que as benesses da AN dizem pouco ou nada, pois e um dos empresários bem sucedidos neste pais, mas sempre actua na penumbra em vários negócios.
Foi deputado por pouco tempo pelo grupo parlamentar do MPLA, seu partido do coração, tendo regressado a Academia, o seu ‘melhor habitat’.
Do naipe de intelectuais do MPLA, que estiveram no Parlamento, consta o também jurista Lopito Feijó, que depois de um mandato deixou a Casa das Leis, tendo-se dedicado mais a cultura, com realce para a Sociedade Angolana de Direitos de Autor (SADIA) de que é presidente do Conselho da Administração (PCA) e co-fundador.
Antes e depois, este poeta, de inteira gema, continua dedicado a literatura, uma praia em que mergulha há vários anos e que já lhe deu vários prémios a nível da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Vive a Sul de Luanda. Não se lhe conhece negócios de monta, mas diz que vive da literatura.
Jorge Marques Bela (Joh Bella), 56 anos, jovem político do MPLA, também teve passagem pela AN, mas a sua estada foi apenas de um mandato. Formado em jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL), profissão que nunca exerceu.
Segundo fontes deste jornal, além de se dedicar à docência, é assessor cultural de várias organizações em Luanda, e vive sem quaisquer sobressaltos económicos e sociais. Vai fazendo a sua vida como pode.
Julião Mateus Paulo (Dino Matross), desde 1992 na AN, viria a deixar o Parlamento em 2017, dedicando-se apenas a política passiva. Pouco ou nada se sabe sobre negócios seus, mas enquanto advogado, trabalhou para uma multinacional petrolífera em Angola, durante vários anos, avançam fontes deste semanário.
Tchizé dos Santos, uma das filhas do então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, depois de ter abandonado o Parlamento, por razões pouco claras, emigrou para Europa, estando dividida entre Portugal e Inglaterra, neste último onde estudou Comunicação e Marketing, numa das prestigiadas universidades de Londres. Poliglota, além do português, fala fluentemente inglês, francês, espanhol e italiano.
Devido a problemas com a justiça angolana, numa entrevista que concedeu a um órgão de informação luso, disse que estava a viver dificuldades financeiras para pagar o colégio dos seus filhos, por alegadamente ter as contas bloqueadas em Angola e em Portugal, por decisão judicial. Em Angola tem negócios na construção civil e na restauração.
Marta Cristina, ex-deputada pelo Partido Liberal Democrático (PLD), de Anália Pereira, já falecida, foi uma das deputadas mais interventivas, de 1992 à 2008.
Depois do fim do seu mandato, desapareceu da cena política e desconhece-se o seu paradeiro. Não se sabe se continua a fazer política activa em algum partido.
Daniel José Domingos “Maluka”, eleito deputado em 1992, pela bancada parlamentar da UNITA, depois de dois mandatos consecutivos, saiu da AN por razões de saúde, e, nos últimos tempos, vive com ajuda da família.
Engenheiro químico de formação, Maluka, à semelhança do seu colega de partido Manuel Savihemba, foi um dos mais destacados e acérrimos defensores da UNITA e do seu antigo líder, Jonas Savimbi, na AN, ainda em época de guerra pós-eleitoral.
Denúncias de colegas e familiares seus dizem que a actual direcção abandonou o seu antigo homem de choque no Parlamento, palco em que travava acesos debates com o malogrado André Passy, do MPLA.
Hoje acometido de um AVC está a receber tratamento médico em Portugal, às expensas da sua família.
Manuel Sahivemba também entrou para o Parlamento em 1992, círculo provincial do Bié, sua terra natal, mas a sua visibilidade política foi mais notória nas sessões parlamentares, onde era o advogado da UNITA e de Savimbi.
Depois da conquista da paz, no Parlamento transformou-se num construtor de consensos entre os deputados das distintas bancadas.
Não se sabe do que se ocupa profissionalmente, mas fontes deste jornal avançam possuir negócios nas províncias do Bié e Cuando Cubango, onde foi coordenador regional das duas províncias.
Lukamba Paulo “Gato”, depois de dois mandatos, por decisão pessoal, abandonou a Casa das Leis, para dedicar-se exclusivamente a assessoria do actual lider, Adalberto Costa Júnior.
É um dos empresários, senão mesmo o maior empresário da UNITA, mas que actua na penumbra. Soube-se que os seus negócios milionários tem ligações com alguns membros do MPLA.
Além da política activa, segundo fontes deste jornal, Gato, que já foi o principal confidente de Jonas Savimbi. Ele próprio dirige os seus negócios e a sua veia empresarial é inquestionável. É detentor de várias residências e apartamentos alugados em Luanda.
Abílio Kamalata Numa, considerado como um dos mais temidos generais das FALA e político mais radical da UNITA, sobrevive da sua reforma de deputado e também de general das FAA na reserva.
Foi por sua livre e espontânea vontade que abdicou o seu lugar elegível na lista de deputados nas eleições gerais de 2022, dando lugar a outros membros, por entender que em dois mandatos tinha dado o seu contributo e que poderia ocupar outras funções no partido. Actualmente é secretário nacional dos antigos combatentes da UNITA.
Eduardo Kwangana e Sapalo António, ex-deputados, o primeiro cumpriu dois mandatos, enquanto que o segundo apenas um. Apesar disso, ambos vivem sem reclamações económicas e financeiras.
Apesar de divergências pessoais, têm alguns negócios em comum, sendo o mais visível um Instituto Superior Politécnico, situado no bairro 11 de Novembro, município do Kilamba Kiaxi, em Luanda.
Kwangana foi docente universitário no ISCED de Luanda, leccionando História, mas por razões de saúde, está em casa. Sapalo, seu irmão, é economista de profissão formado na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, é também empresário em vários negócios, sobretudo nas Lundas, de onde é originário.
in Pungo a Ndongo