
O soba grande da comuna da Môngua, província do Cunene, Hilinanye Jonas, exigiu uma maior divulgação, transmissão e promoção dos símbolos culturais da região, com destaque para olupale”, para evitar os frequentes “atropelos” às tradições nas comunidades.
O soba falava nas vésperas das festas do Cunene, que comemorou, na quarta-feira última, mais um aniversário da sua fundação como província, após desanexação da Huíla, a 10 de Julho de 1970.
De acordo com o soberano, o desconhecimento dos símbolos culturais por parte de muitos cidadãos nacionais, com particular realce para os jovens, está na origem de frequentes violações às regras comunitárias.
Citou, a título de exemplo, o desinteresse da juventude pelo domínio do conteúdo tradicional do olupale, um “espaço sagrado” para s povos Owambo, que ele considera “símbolo de elevado valor cultural”, no Cunene.
A província dispõe de um rico mosaico de grupos etno-linguísticos, sendo os Owambo os de maior expressão, seguidos dos haneca-Humbe e de subgrupos como Mungambwes, Muhandas, Muvales, Hereros, Himbas, Mwakahonas e Mundimbas.
A apologia de maior divulgação dos símbolos culturais como o olupale é igualmente encorajada pelo director do Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desporto, Nelson Ndemulikuata, que também o considera “um local de grande importância e valor histórico-cultural”.
Argumentou que o local tem grande significado para as comunidades nativas, pois é onde são iniciados e transmitidos às novas gerações os hábitos e os valores culturais das famílias, da história e da antropologia de cada povo através de contos, fábulas e outras narrativas.
A sua divulgação, porém, sobretudo para as zonas urbanas, passa pelas próprias famílias que devem transmitir às novas gerações s valores históricos do local, mediante visitas e obrigatoriedade de os filhos passarem as férias escolares nas suas aldeias de origem, afirmou.
Exemplificou que, nas áreas urbanas, alguns nativos criam espaços para servir de olupale, onde são passadas conversas sobre o pedido de casamento, despedida de viagem ou recepção de uma determinada entidade.
Defendeu igualmente a divulgação através da escrita de alguns autores da província que escreveram sobre a importância política e cultural do olupale, elevando, deste modo, o conhecimento sobre o grande espaço fixado nas residências tradicionais.
Nelson Ndemulikuata garantiu que o seu gabinete tem dado o seu contributo através da realização de palestras e da promoção de encontros culturais com camada juvenil, para transmitir os valores dos aspectos a ter em conta com o espaço e outros hábitos e costumes para evitar violações.
Espaço de socialização
Para além de ser uma sala de recepção de visitas, o olupale constitui também um espaço de socialização, onde o hóspede deve observar rigorosamente as regras da decência no traje, evitando quaisquer extravagâncias.
Segundo o soba Jonas, ninguém deve sair da rua e entrar directamente para o interior da casa (ewombo), sem passar pelo olupale e antes de se encaminhar para outras áreas.
Quando se chega ao olupale, explica, há sítio próprio para o visitante se sentar, sendo a posição central exclusivamente reservada ao dono da casa.
“Todos devem sentar-se apenas ao lado esquerdo. Só quando alguém tem problemas, (é que) deve sentar-se no lado direito”, esclarece o soberano, acrescentando que estar sentado no centro uma “violação grave” à moral e à honra do dono da casa, facto que deve ser evitado.
Por exemplo, prosseguiu, em caso de conflito no lar, uma mulher sentada no lado direito é um recado para o marido de que ela está chateada e quer a separação.
Por seu turno, o soba da povoação de Okambada, Ernesto Haidenga, entende que o Olupale é considerado sala de recepção de visitas por ser o local de passagem obrigatória para qualquer visitante, para nele ser recebido por sobrinha, filha ou esposa antes de ser anunciado ao patriarca.
Conforme a posição do assento do visitante, a anunciante informa o patriarca se a pessoa “é bem-vinda” ou se tem problemas, naquilo que serve de instrumentos para o anfitrião se preparar para um eventual confronto.
Noutras circunstâncias, acrescentou, o olupale surge como espaço onde são transmitidos todos os ensinamentos, a educação, os hábitos, os usos e costumes e as orientações que os filhos devem seguir. Ou seja, olupale constitui o centro de chegada e sala de estar de toda a visita do sexo masculino que entra para um ewombo (residência tradicional), assim como espaço de transmissão de hábitos, costumes e orientações familiares para os diferentes povos da província do Cunene.
Após passar pelo onu ou porta principal de entrada, atravessada na parte superior por paus que simbolizam tranquilidade, paz e harmonia, o visitante deve dirigir-se ao olupale e manter-se sentado à esquerda.
Enquanto isso, as senhoras são recebidas no epata (cozinha) e, quando convidadas para entrar no olupale, devem posicionar-se apenas na parte lateral.
Com um simbolismo histórico e cultural elevado, o olupale é erguido na zona principal da residência, num espaço normalmente rodeado de paus de omufiati (mupame), na posição vertical virados para a Nascente do sol com três portas, sendo a da entrada principal e duas laterais.
No local, estão fixados assentos corridos de tronco de árvores da mesma espécie, dividido em três partes, sendo a principal para o patrono da casa, a lateral esquerda para quem vem na paz e harmonia e a lateral direita para partes num conflito em curso ou futuro.
Nos casos em que o dono da casa tenha mais de uma relação, todo o diálogo familiar é realizado nesse espaço, com a “esposa principal” a sentar-se primeiro antes das restantes, conforme a ordem de precedência.
O fogo do olupale é aceso pela mulher principal, antes de o sol nascer, e a chama deve estar em alta, o que, a não acontecer, é considerado “falha grave” e, se for recorrente, leva o “esposo” a convocar uma sentada familiar.
O local serve também de sala de jantar, onde, após confeccionar a refeição, as esposas se dirigem ao olupale com as filhas, para depositar o alimento que é saboreado pelo barão na companhia dos filhos do sexo masculino, enquanto as mulheres regressam à cozinha, conclui Ernesto Haidenga.
in Angop