
Nutro um grande respeito e admiração pelos empreendedores no geral. O empreendedorismo é uma mistura complexa entre arte, engenharia e matemática, onde o criador tem como o grande objectivo transformar matéria prima em obra… E demais: lucro!
Os que conseguem transformar montes de areia em castelo, juntando-lhe pedras, ferro e cimento. Um castelo robusto e consistente, daqueles que não se abanam facilmente.
O meu respeito é ainda maior quando falamos de empreendedores angolanos. Aqueles que agarram as oportunidades que a vida lhes concede e fazem nascer grupos empresariais que se afirmam na nossa praça, não obstante todas as dificuldades do nosso contexto para que as empresas tenham sucesso: burocracias, escassez das infra-estruturas, custos associados e um sem fim de situações que tornam o empresário angolano um verdadeiro herói. “Não é fácil” – Dizem eles. Não ficando, claro, também longe do sentimento dos demais cidadãos.
Apesar da conjuntura adversa, há empresários que transformam os desafios em oportunidades e encaram o copo meio cheio, numa atitude mais positiva e mais próxima a victória. Assim, eu encaro a empresária Elisabeth Dias dos Santos. Que se tem afirmado com punho e pulso num universo machista dum reino cheio de intrigas.
Não se pode ignorar as suas conexões familiares, embora assumamos que isso não lhe retira o mérito nem é motivo de mancha. Se formos argumentar doutro modo, o que se passa com os projectos empresariais doutras pessoas com esse traço? Goste-se ou não, o seu trabalho está aí e a sua aposta na avicultura é um caso singular por todos os impactos sociais e económicos.
Para além do seu percurso e êxito empresarial, a empresária tem sido muito firme e frontal nas suas afirmações. Uma das quais levou-me a este texto: “Em Angola temos três economias: a economia do Estado, dos empresários e temos a economia informal, que é alimentada por grandes grupos empresariais”.
Neste quesito, sou mais peremptório: depois da guerra e da corrupção (que são responsabilidades nossas endógenas) os empresários estrangeiros organizados em máfias são responsáveis pela destruição da economia angolana, movidos pelo afã do lucro têm vindo a destruir os valores que ergueram a nossa sociedade.
Isso é válido na indústria petrolífera onde o conteúdo local é exíguo, no comércio, na banca, e em muitos outros serviços que poderia continuar a desvendar.
Quem não sabe que os cubanos dominam o negócio da água e da areia – estamos para ver em que condições são extraídos esses enxertes; quem não sabe que eles estão ainda muito implantados nos serviços médicos e de saúde? Quem não sabe que o comércio é dominado por libaneses, mauritanianos, eritreus e malianos; quem não sabe os estragos por estrangeiros, corrompendo algumas autoridades nacionais, que estão a ser feitos na flora com exploração ilegal de madeira.
Não posso deixar de mencionar o caso da banca onde os interesses e capitais estrangeiros determinam uma lógica completamente insana, de alto rendimento e aversão completa ao risco, deixando de funcionar numa lógica expectável, como oxigénio para a economia.
Quem não sabe o quanto as consultoras privilegiam uma matriz de quadros e parceiros estrangeiros em detrimento dos quadros angolanos?
Quem não sabe que os escritórios de advogados portugueses inundaram o nosso mercado, retirando as melhores oportunidades aos nacionais que em muitos casos acabam por ser subcontratados destes?
Até no negócio da consultoria de comunicação empresarial e política acabamos por flanquear as portas a estrangeiros que na maioria dos casos provocam mais estragos do que benefícios às entidades para quem consultam, pois desconhecem muitas vezes os meandros e o modus operandi, dum contexto específico.
Quem não vê o quanto as empresas de construção estrangeiras, principalmente portuguesas monopolizam o mercado angolano, cimentando uma preocupação estridente com o repatriamento de dividendos, deixando aos angolanos alguns restos.
Cerca de 50 anos depois da nossa independência, é inadmissível ou que possamos invocar a ausência de quadros e a ridícula ausência de competência dos quadros nacionais.
A assumpção dessa generalização é injusta e perigosa porque cobre uma agenda de interesses que visa descredibilizar os angolanos para assim deixarmos que os estrangeiros continuem a levar de Angola os recursos que bem serviriam para enriquecer a nossa gente.
Insisto em afirmar que não nos podemos assustar quando nos deparamos com os nossos ricos ou endinheirados para depois tolerarmos ver comerciantes que nos impõe rabo de galinha, obras inacabadas ou sem qualidade standard dos seus países.
No final do dia, temos de privilegiar o interesse dos nacionais, para nosso próprio bem. Essa defesa não pode ser confundida com discurso xenofóbico.
*Jornalista