
Residente há mais de 20 anos em Marselha, cidade portuária do Sul de França, Gabriel, filho de um casal angolano que decidiu emigrar à procura de melhores oportunidades, ansiava conhecer a Rua da Dira.
A dita rua despertava curiosidade de angolanos e estrangeiros, levando um grande número de visitantes a procurar divertimento no Zango. O homem, agora com mais de 30 anos de idade, conhecia bem Luanda, pois de dois em dois anos visitava a família.
Desta vez pretendia regressar a Luanda, por um motivo diferente, não para visitar os familiares, mas para conhecer a internacionalmente falada Rua da Dira. Estava aficcionado por ela. A curiosidade de Gabriel era tanta que pesquisou tudo sobre o local.
Dizem os entendidos que, dependendo do ponto de vista de cada um, a Rua da Dira, muitas vezes comparada à cidade bíblica de Sodoma e Gomorra, pode ser como o paraíso ou como o inferno.
O cidadão angolano/francês foi aconselhado a deslocar-se a Luanda no tempo de cacimbo, porque o Zango é considerado um dos locais mais quentes de Angola. “Se for colocada uma frigideira ao ar livre com um ovo, o ovo fica estrelado em dois minutos”, diziam alguns.
No entanto, as pesquisas feitas por Gabriel indicavam que o Zango é quente devido à baixa pressão causada pelas constantes chuvas e também, em parte, pela falta de arborização.
Gabriel foi informado que tem uma prima residente não muito distante da Rua da Dira. Golo!!! – pensou cheio de alegria – assim não necessito de procurar um hotel ou hospedaria para ficar.
O dia finalmente chegou e saindo do aeroporto foi levado para o Zango. Quando chegou à casa da prima, que vivia no Zango 2, numa residência de dois pisos, Gabriel foi atendido pela empregada que o analisou da cabeça aos pés, cheia de bisbilhotice:
– Patroinha, está aqui um senhor com ar de estrangeiro – a empregada gritou sem deixar de olhar para o homem de média estatura, ar afável e com um sorriso aberto, parado bem à sua frente.
A prima de Gabriel, Evita, com quem conversava com frequência via WhatsApp, correu para o receber cheia de euforia e curiosidade. Apesar de criado em França, o primo, amigo de infância de Evita, sempre manteve contacto.
Eram bons amigos, mas ele ainda não havia esclarecido por qual motivo tinha decidido, desta vez, hospedar-se em sua casa, ao invés de ficar no bairro Prenda como sempre, o que facilitava na hora de viajar.
Depois de acomodado, Gabriel explicou que tinha curiosidade em conhecer a rua mais famosa de Angola, no Zango 3. Evita sentiu um baque no coração.
Para ela, a Rua da Dira era um lugar perigoso por vários motivos: as pessoas perdem a noção do perigo, tornam-se vulneráveis e gastam balúrdios de dinheiro. É um local onde abundam os carteiristas, burladores, tráfico de droga e prostituição até dizer chega.
Evita ouvia o relato de mulheres, proprietárias de barracas e bares, que não usavam roupa interior para aliciar os clientes: numa situação de “podes ver tudo, mas não podes tocar”: voyeurismo.
Graças a Deus, ela e o esposo são cristãos firmados na palavra e, apesar de ouvirem falar da Rua da Dira, nunca nenhum dos dois teve a curiosidade de lá passar de noite.
Durante o dia, a Rua da Dira é como qualquer outra avenida do Zango, com movimento tímido, mas de noite o cenário é o oposto. Centenas de pessoas, de todas as classes sociais, circulam na zona cheia de bares, barracas, restaurantes e actividades de toda índole.
Gabriel é adulto e não tem como o impedir, pensou Evita, aliás se saiu de Marselha só para conhecer a Dira, como o dissuadir? Evita pensou numa estratégia de controle para que o primo não se perdesse naquele antro.
Chamou dois “tropas” que eram pau para toda obra em sua casa. Trocados alguns euros por kwanzas, Evita teve o cuidado de colocar o endereço da sua casa no bolso da camisa do primo. Só restava orar para que ele não sucumbisse à pressão da Rua da Dira.
– Aquela rua não é para qualquer um – Evita repetiu para o primo.
Quando, às 21horas, Gabriel chegou ao local, o ambiente já estava a “bombar”. Foi recebido por uma mistura de cheiros e diversos tipos de música. Cada barraca tinha o seu estilo de música a tocar, zouk, kizomba, kuduro e romântica.
Gabriel estava maravilhado e queria descobrir tudo sem interferência. Pagou 20 mil kwanzas para cada um dos “tropas” e pediu que se afastassem, que o deixassem livre para fazer as suas “descobertas”.
Com o seu português carregado de sotaque francês, provou de tudo um pouco, kingole, carne de paca, pincho, cabrité, bebeu caipirinha de mukua, maboque, gajaja, loengo e tambarino e cerveja.
Cansado, procurou uma mesa na esplanada de um restaurante. Gabriel estava extasiado com o ambiente e a sua alegria aumentou mais ainda quando, por volta da uma da manhã, um mulherão, com a bunda sugestivamente empinada, girou à sua frente.
– Sinceramente, Angola tem mulheres bonitas – pensou, enquanto observava os olhos amendoados da moça. O seu olhar passou pelo nariz arrebitado e desceu para a boca carnuda que parecia uma pitanga madura.
O rapaz suspirou, sorrindo de orelha a orelha para a moça que prontamente pestanejou para ele, deixando bem claro que estava disponível.
A rapariga, com uma cintura fina e um busto avantajado, sentou-se juntinho dele. Gabriel viu os dois “tropas” a acenar freneticamente para a sua direcção, fazendo inclusive sinais de perigo, passando o dedo pela garganta.
Um deles chegou a aproximar-se para o afastar da moça que prontamente se agarrou a Gabriel como se fosse uma tábua de salvação.
O “tropa” foi afastado e no minuto seguinte Gabriel sentiu os lábios da moça sobre os seus e um forte abraço. Gabriel não conseguia entender os gestos e a aflição dos rapazes, pois ainda que tenha bebido de tudo um pouco que fosse álcool, ele estava lúcido.
Por volta das 4 horas da madrugada, de mãos dadas, Gabriel e a moça decidiram procurar uma pensão ou algo semelhante para estar à vontade. Já fora do restaurante, Gabriel viu-se envolvido por um grupo de rapazes:
– São os motoqueiros da Rua da Dira que provocam confusão – alguém gritou.
Como a moça foi afastada, Gabriel não entendeu. O “francês” foi arrastado pela multidão de motoqueiros. Tentou a todo custo desvencilhar-se, só que não conseguiu. Quanto tempo ficou no meio do grupo de motoqueiros, o rapaz ficou sem saber, até que dois deles, de repente, o levantaram e colocaram-no numa kupapata.
– Wi, mi agarra bem – o dono da motorizada avisou antes de sair em disparada para fora da Rua da Dira.
Quase desacordado e tonto, Gabriel foi depositado no passeio da casa da prima, que prontamente abriu a porta. Gabriel dormiu até às 15 horas, até que Evita foi bater à porta para avisar que tinha um caldo preparado.
No início da noite, Gabriel, acompanhado pelos dois “tropas”, voltou de novo para a Dira. Desta vez, os “tropas” sentaram-se junto dele como escudeiros. Quando, de repente um dos rapazes lhe pergunta:
– Kota tás a ver aquele wi? Lhe reconheces?
Gabriel ficou espantado, tentando recordar se havia cruzado com o tipo em alguma ocasião.
– Não!… Devia?… – Gabriel perguntou, atento à figura que passava por eles. Na noite anterior tinha conhecido e conversado com tanta gente que havia perdido a conta.
– Aquele é a moça que te beijou ontem. Ela não é ela. Ela é um wi – o “tropa”explicou.
– Para te separar dele tivemos que arranjar uma manobra com os motoqueiros.
Gabriel, passado o choque, desatou às gargalhadas. Vivendo na Europa há anos sempre soube distinguir um homem de uma mulher, ainda que fosse um trans. Foi enganado na Rua da Dira!!!!
– Nada!!! A Rua da Dira não é para fracos – pensou ainda a rir com amargura, para não chorar.