Porquê reforçar nos processos de agricultura – Juliana Evangelista Ferraz
Porquê reforçar nos processos de agricultura - Juliana Evangelista Ferraz
Juliana Ferraz

A escassez de alimentos, a subnutrição e a desnutrição, decorrentes da falta de nutrientes essenciais para a estabilidade das funções do corpo humano, é uma consequência da falta da implementação efectiva da agricultura em grande escala a nível mundial.

Segundo o Banco Mundial a crise económica actual representa um atraso de todos avanços feitos nos últimos cinco (5) anos no que diz respeito ao combate à pobreza e segurança alimentar.

A mesma fonte adianta que ainda este ano cerca de 250 milhões de pessoas estarão a nível de extrema pobreza a viverem com menos de 1,9 USD por dia, devido aos efeitos da Covid-19 associados a outros fenómenos como mudanças climáticas, sendo que 82% dos novos pobres estarão concentrados nos países de médio rendimento.

Repare que se ao concretizarem a tendência do número de pessoas no limiar da pobreza, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que até 2030 o número poderá chegar aos 575 milhões de pessoas afectadas pela fome.

Recentemente a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO e o Programa Alimentar Mundial – PAM – identificaram que vários países já enfrentam uma crise alimentar incitada pela pandemia de Covid-19, numa análise que aponta mais de 20 países afectados.

Este pequeno exercício pode se verificar por via de uma métrica, que analisa o PIB per capita nominal dos países em dólares à taxa de câmbio de mercado, como a verificação da parte destinada à alimentação no consumo das famílias em cada país, bem como a percentagem da exportação líquida de alimentos face ao PIB ou às receitas provenientes das exportações de alimentos.

Da lista dos países mais vulneráveis face à eventual crise mundial de alimentos, destacamos como por exemplo o Somália, Burundi, Comores, Siria, Sudão do Sul, República Centro Africana, Iêmen, RDC, Chade, Madagáscar, Haiti, Etiópia, Afeganistão, Quénia etc.

Também é verdade, que muito antes da Covid -19, já se verificava uma tendência altista dos preços dos alimentos nestes países, e gozavam de elevados níveis de insegurança alimentar e fome extrema decorrentes dos choques anteriores, como crises económicas, instabilidade e insegurança, condições climáticas extremas, pestes herbívoras e doenças de animais, incluindo a redução nos últimos anos da rentabilidade no sector agro-pecuário, a redução das terras cultiváveis o proteccionismo e a especulação nos mercados.

Também é verdade que o problema da fome no mundo não encerra apenas nos continentes Africano e Asiático, de recordar que se registam grandes crises à escala mundial como por exemplo a crise de 1929 nos Estados Unidos de América, como também as I e II guerras mundiais que tiveram como consequências períodos de escassez de alimentos na Europa e USA.

A continuar a subida generalizada dos preços nos produtos alimentares no mundo, as populações poderão incorrer em constrangimentos do ponto de vista alimentar com a possibilidade de redução do poder de compra.

Esta situação já mobilizou vários Estados a tomarem decisões políticas e medidas para estabilizar a inflação e a espiral de preços nos alimentos, medidas consubstanciadas num controlo mais rigoroso sobre a subida dos preços.

Portanto, é um desafio para os Estados e agentes económicos e sugere-se o aumento da oferta mundial através de um maior investimento na agricultura, reforma das políticas agrárias, remoção das barreiras alfandegárias e um acesso mais facilitado dos serviços financeiros por parte dos produtores.

Com base na dimensão da problemática alimentar em África, os líderes africanos têm demonstrado interesse em reforçar os processos da agricultura, e este sinal positivo denota uma alteração de visão quanto à importância do sector agrícola para o desenvolvimento económico.

Estes líderes perceberam também, que mais do que a exportação de commodities, o desenvolvimento efectivo de África depende da produção em grande escala de bens e serviços, e que o movimento de industrialização e de ajuste produtivo deve estar ancorado, numa forte economia agrícola.

Assim, um aspecto que deverá ganhar importância nas politicas de fomento da agricultura, deve ser o incentivo para que as populações regressem ao campo para reactivar a economia agrícola, de forma a criar poder para as famílias agricultoras, os pequenos produtores e grandes projectos agro-industriais.

E assim, clama-se por uma expressão mais acentuada dos variados sectores da economia de forma a reduzir o peso da indústria extrativa no produto interno.

A avaliação que se faz às economias africanas, sobretudo no período que corresponde às últimas 4 décadas, é que as mesmas foram afectadas por factores ligados a guerras e conflitos.

Porém, em alguns países com experiência de paz, parece existir o fenómeno a que os economistas designam como “Dutch disease”, ou doença holandesa. Este fenómeno descreve a relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do sector manufactureiro.

A imprecação que a guerra deixou prende-se com a destruição do sector manufactureiro, e o que se verifica nestas economias é que uma vez atingida a paz, as populações se concentram nas cidades e tendem a abandonar a actividade agrícola e manufactureira, focando seu talento e força de trabalho no sector de serviços e em indústrias extrativas, com pouca capacidade de gerar empregos e de elevar a renda per capita.

*Economista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido