Licenciatura não é sinónimo de competência – António Quino
Licenciatura não é sinónimo de competência - António Quino
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Quando se fala em ascensão na carreira técnico-profissional, as conversas do nosso quotidiano prendem-se na rotina de se valorizar a progressão académica ou o grau científico-académico em detrimento do tempo de serviço ou da meritocracia.

Entre amigos, falámos e a unanimidade chegou bem cedo naquele dia. A promoção baseada no mérito e na experiência é essencial para garantir que, tanto o indivíduo quanto a organização, possam prosperar a longo prazo.

Na União Europeia, a promoção baseada em mérito e experiência é um princípio fundamental para garantir a igualdade de oportunidades na mobilidade profissional.

Este sistema é materializado através de várias directivas e recomendações que visam reconhecer qualificações e competências de forma justa e transparente.

Princípios como reconhecimento mútuo de qualificações, avaliação, transparência e mobilidade para fins de aprendizagem, garantem que a promoção na carreira se alicerce essencialmente no mérito e na experiência.

A sociedade angolana mostra-nos uma face diferente dessa. Não é, portanto, um despropósito tal conversa, pois há muitos exemplos de indivíduos que queimam etapas, criando-se precedentes negativos, incentivando práticas de atalho em vez de desenvolvimento gradual e meritocrático. Evidentemente, isso pode enfraquecer os valores de trabalho colectivo árduo e desenvolvimento contínuo.

Por cá, é muito frequente chegar-se rapidamente ao topo mesmo no início de carreira, sem se passar pelas etapas ou degraus necessários. Obviamente, isso poderá transportar consequências significativas.

A falta de experiência e de desenvolvimento completo pode afectar a capacidade de liderança, provocar estagnação pessoal, desmotivação da equipa e até riscos para a sustentabilidade da organização.

É muito mais comum entre os jovens funcionários essa ascensão meteórica, propalando-se muito faz de conta, muita aparência para poucas evidências nas resoluções dos reais problemas de cada sector.

Fazer carreira passou a ser uma excepção. É raro observarem-se os critérios específicos para se atingir cargos de direcção ou chefia no funcionalismo público.

Não é tanto o diploma que dá a garantia de que o candidato a um cargo de direcção e chefia no aparelho do Estado possua as qualificações e competências necessárias para desempenhar funções de forma eficaz e imparcial.

Curiosamente, é invulgar o mérito e a experiência em políticas públicas, gestão de projectos, ou administração serem valorizadas nos critérios para a progressão profissional.

É inevitável que quem pretender ascender na carreira técnico-profissional, deve aumentar o seu grau académico. Ter uma licenciatura é meio caminho. Ter um mestrado melhor ainda. Não que seja mau de todo.

Entretanto, alguém em sã consciência acreditará que meritocracia é directamente proporcional à elevação do grau académico? Em algum momento, licenciatura será sinónimo de competência?

Atirada assim na nossa cara, o mais velho dentre nós pôs-nos de sentido a pensar. Porque a obtenção de uma licenciatura é uma forma visível e mensurável de sucesso, passamos a associar a elevação académica ao mérito.

Então, os “sôtores” passaram a mandar nos órgãos da administração pública, nas escolas, nas cantinas, nos bancos comerciais, na polícia, nos bombeiros, na inspecção. Não confirmo se também nos candongueiros o “sôtor” monopolize.

A caça ao diploma gerou um preconceito institucional. Começamos mesmo a acreditar que só os doutores fazem o país. Portanto, o sucesso e o reconhecimento socio-profissional passaram a depender de diplomas, que não são directamente proporcionais ao mérito.

Propositadamente, alimentamos o estereótipo de que pessoa com alto grau académico é mais competente e talentosa, difundindo a ilusão entre mérito real e sucesso académico, ignorando outros factores como habilidades práticas e experiências, adquiridas também com o tempo de serviço (antiguidade é um posto, ainda se diz por aí).

Em certa ocasião, um então comandante da Polícia Nacional lembrou-me que, independentemente do grau académico, nenhum agente da corporação deveria chegar a oficial sem se contabilizar, além do mérito e competência, as horas de giro e a capacidade de realizar patrulhamentos eficazes, prevenindo crimes e respondendo rapidamente a incidentes.

Citei o caso da Polícia, como citaria no sector daEducação, no Jornalismo, na Banca, com as suas respectivas especificidades.

Tenderá à discriminação?

Reitero que não quero desmerecer o grau académico. Longe de mim apelar para que o qualificador da ascensão na carreira profissional ignore a progressão académica ou grau científico-académico.

Em muitas áreas profissionais, especialmente em sectores Académicos, Científicos e Tecnológicos, o conhecimento especializado é essencial. Uma graduação ou pós-graduação indica que o indivíduo possui um conhecimento profundo num campo específico, o que é visto como crucial para o desempenho em cargos de maior responsabilidade.

Até populámos que, muitas vezes, o “diploma” impulsiona a garantia de maior conhecimento especializado, maior capacidade de inovação e maiores habilidades de análise, necessárias para enfrentar desafios complexos.

A presença de profissionais com altas qualificações académicas pode aumentar a credibilidade e a reputação de uma organização, especialmente em sectores onde a competência técnica e o conhecimento são altamente valorizados, como em áreas de rápida evolução, nomeadamente Tecnologia, Medicina e Ciências Sociais.

Mas a conversa não é sobre a qualidade de graus académicos em níveis avançados como atributos ao pensamento crítico, análise complexa e resolução de problemas. Repito que licenciatura não é o mesmo que competência.

O mérito da discussão entre os amigos é mesmo a preferência pela progressão académica ou pelo grau científico-acadêmico em vez da meritocracia.

A valorização excessiva de diplomas universitários como critério principal para a progressão na carreira pode ter impactos negativos, tanto para os indivíduos quanto para as organizações.

Um dos maiores riscos, em sociedades que adoptam os diplomas como regra charneira para a progressão socio-profissional, é o de transformar a educação formal numa simples formalidade e não uma oportunidade genuína de aprendizado. Ou seja, as correrias às universidades transformam-se em maratonas por diplomas com o único propósito de obter uma promoção e melhoria salarial.

Essa maratona negligencia a valorização da experiência prática e das habilidades adquiridas no trabalho. Profissionais com anos de experiência relevante e competência comprovada podem ser preteridos em favor de indivíduos com quase nenhuma experiência, mas com diplomas de licenciatura ou mestrado em áreas desligadas da sua actividade profissional.

Na sede desses andares, somos capazes de nos deparar com um especialista em análise de crédito ou um tesoureiro de uma agência bancária a fazer curso stricto sensu (mestrado e doutorado) em filosofia, por exemplo. Ainda um bombeiro especialista em resgate e salvamento ou um polícia de trânsito a frequentar um curso stricto sensu focado no ensino de literaturas em Língua Francesa.

Imitar quem está no topo

Em causa não está a legítima necessidade individual de ampliar a visão do mundo ou adquirir conhecimentos técnicos e habilidades específicas. O que acho absurdo é determinados profissionais, como os que referi a título exemplificativo, ignorarem que os cursos stricto sensu são essencialmente para quem deseja seguir uma carreira académica ou especializar-se profundamente num campo de estudo específico.

Dito de outro modo, por que será que um bancário, polícia ou bombeiro (meros exemplos de profissões), se empenhem num curso cuja finalidade é a formação de pesquisadores e professores universitários?

A resposta é óbvia. Só acreditam na progressão por via de diploma, nem que seja de um curso desligado do seu exercício profissional. É esse diploma que permite promover funcionários nem sempre competentes. Este tipo de progressão tende a desviar-nos da meritocracia.

Em empresas e instituições internacionais de referência, como Google, Deloitte ou Organização das Nações Unidas (ONU), a abordagem para a progressão na carreira procura combinar a valorização de qualificações académicas com a importância da experiência prática, desempenho e habilidades específicas.

O Google usa frequentemente um processo que avalia as habilidades de resolução de problemas e a capacidade de inovação, além de considerar a formação académica.

Na Deloitte, a empresa investe em treinamento e desenvolvimento contínuo, com programas de mentoring e avaliação regular de desempenho para promover a progressão baseada no mérito. Além dos diplomas, as certificações profissionais e habilidades específicas são fortemente consideradas para a progressão na carreira.

A ONU oferece uma ampla gama de programas de treinamento e desenvolvimento contínuo para ajudar os funcionários a crescerem dentro da organização e a prepararem-se para promoções.

Não querendo encerrar essa conversa nesta edição, julgo que se deve adoptar uma abordagem equilibrada para a progressão na carreira, reconhecendo tanto a importância das qualificações académicas quanto da experiência prática e do desempenho no trabalho.

Para o sucesso institucional, é fundamental que se garanta a eficiência operacional e o bem-estar dos funcionários, incluindo a progressão profissional por mérito.

A incapacidade de fazê-lo pode levar a uma série de consequências negativas, desde a queda na produtividade, a ineficácia de programas como o Simplifica, a desmotivação, a deterioração do ambiente organizacional ao comprometimento da sustentabilidade e da competitividade da instituição.

*Jornalista e escritor

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