A fome [em Angola] é um vexame inaceitável – Adebayo Vunge
A fome [em Angola] é um vexame inaceitável - Adebayo Vunge
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A nossa sociedade anda demasiado amorfa, noutros casos é demasiado ruidosa porque não se discute aquilo que é fundamental. Há discussões em vários níveis, mas desinteressadas ou pelo menos não comprometidas com o bem colectivo.

Discutimos questões periféricas, porque adoptamos a maneira de ser da avestruz quando esta tem medo. E onde há medo a democracia não floresce uma vez que as liberdades murcham.

Admiro aqueles políticos e outras figuras públicas que expõem as suas ideias, clarificam a sua trajectória, independentemente da agenda que possam carregar. A biografia é, por isso, um estilo literário muito apreciado, no presente, em todo o mundo.

Veja-se, por estes dias, o quanto a biografia de Kamala Harris se tornou um best-seller uma vez que é a putativa Presidente dos Estados Unidos, se vencer as próximas eleições.

Independentemente do que se possa dizer, o livro de Kamala Harris – Aquilo em que acreditamos – tem um arranque fenomenal e o encerramento é ainda mais interessante.

Há uma expressão ab initio que trago para esse texto porque sintetiza aqui o meu pensamento na actualidade: temos de dizer a verdade!

E parece-me que vivemos um tempo em que muitos de nós tem medo de dizer a verdade. Outros têm medo de ouvir a verdade. Outros nem querem saber da verdade. Outros ainda tornam a verdade subjectiva, ignorando que exista sempre uma verdade material e factual que não podemos escamotear.

E tudo isso é preocupante quando nos debruçamos sobre a nossa realidade, com os seus múltiplos desafios. Na última crónica que escrevi, nessas páginas, defendia que “um dos maiores desafios da actualidade, em Angola, prende-se com a estabilidade macroeconómica, destacando-se, de forma particular o controle da inflação, ou como quem diz, o controle do aumento de preços, com impacto no poder de compra real da população em geral que se vê ainda com grandes dificuldades”.

Essa linguagem nem sempre é facilmente descortinada. O que pretendia então dizer é que as pessoas, no fundo, perdem o seu poder de compra, principalmente do cabaz de bens da cesta básica que se tornou mais caro nos últimos tempos, obrigando a que a maioria da população recorra, hoje, a certos expedientes (esquemas) para alimentar as suas famílias.

Evoluímos das kixikilas para as sócias, com particularidades curiosas descortinadas numa recente reportagem do jornalista Francisco Cabina, emitida na Rádio LAC, aos armazéns da cidade da China.

Mas se as classes trabalhadoras encontram ainda mecanismos para sobreviver, a verdade é que o Estado deve abraçar uma lógica mais social e não deixar para trás os cidadãos com mais dificuldades. Isto é, tornar os programas de combate à fome e à pobreza uma realidade ampla para quem dela efectivamente precisa.

Na lógica do temos que dizer a verdade, espanta-me ou pelo menos não consigo perceber o que fazem realmente as administrações municipais com os recursos que recebem para acudir a fome nas suas circunscrições. São 28 milhões de kwanzas todos os meses.

Na lógica do “temos que dizer a verdade”, não podemos ficar indiferentes ao apoio que se começa a prestar aos agricultores, por intermédio do FADA. Ainda é pouco em termos de beneficiários. Mas é um caminho que aplaudimos vivamente e que merece ser replicado com urgência em outros instrumentos financeiros.

O segundo maior banco comercial da Alemanha, o Commerzbank, detido em 15% pelo Estado alemão, destaca-se pelo apoio que concede aos pequenos comerciantes nas comunidades: a mercearia, a farmácia, a oficina, a pastelaria e padaria, o alfaiate e as lojas de vendas de roupas, decoração, carpintaria, serralharias, assistentes sociais e de apoio cultural, entre outros.

É uma lógica de crédito que permite gerar pequenos negócios e estes geram emprego e renda. Um modelo que desconcentra os negócios no topo da pirâmide e transfere ou dispersa na base fundos que alimentam a economia, combate as assimetrias e torna o modelo alemão um caso particular.

Alguns dirão que não somos a Alemanha. Muito bem, mas temos de procurar modelos de desenvolvimento e adaptá-los à nossa realidade.

Do meu ponto de vista, por conseguinte, o combate à fome faz-se com um choque na produção. Investir duplamente mais no capital humano e noutros factores de produção.

A demanda dos congoleses tem contribuído bastante para dinamizar a produção. Falta, também, uma aposta maior na logística, o que significa vias de comunicação, centros logísticos e pontos de escoamento.

Haver fome em Angola deveria ser visto como um vexame, inaceitável e com o qual temos de lutar urgentemente. Como diria, nesta senda, o Presidente Lula, a fome não pode esperar!

De resto, congratulo-me com o facto do assunto ter merecido uma atenção especial dos membros do Conselho da República, na sua última sessão. O caminho faz-se assim, com a participação de todos e que resultem medidas a ser implementadas pelo Executivo e outros organismos para que possamos, rapidamente, melhorar a condição de segurança alimentar.

Virar a página significa que possamos estar a discutir os temas da nutrição infantil, permitindo que as nossas crianças (a população em geral) tenham acesso a alimentos de qualidade que lhes permitam desenvolver as funções cerebrais, avançando-se para um outro choque, uma outra reforma de que falarei a seguir, o choque cultural ou mais especificamente a urgente mudança de mentalidades no nosso seio.

*Jornalista

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