
Havia a alguns anos uma ideia generalizada de que o século XXI seria consagrado ao desenvolvimento africano. Praticamente, vinte e cinco anos depois, ou seja, um quarto de século depois, parece a todos que os afro-pessimistas tinham razão.
África não sai do lugar, a maioria dos países do continente não descola do espectro de pobreza, e se agudiza em alguns casos a instabilidade política e militar, a fome, choques climáticos e um mar de situações que nos remetem constantemente a inquietante questão: por que razão?
A inquietação é tanto maior porque a maioria dos países está já há mais de sessenta anos independente e a situação não parece melhorar. Há, como sabemos, a volta disso, inúmeras reflexões teóricas que nos levam a discutir e analisar com profundidade as causas do subdesenvolvimento, mas mais do que isso, os caminhos para que possamos inverter a curva, a exemplo, do que fizeram já muitos países asiáticos.
O ponto de partida histórico da descoberta e exploração do petróleo na Nigéria, em Angola e na Malásia é quase o mesmo. Não precisamos de nos questionar quanto ao resultado, bastando que nos atenhamos a nossa própria realidade, não obstante o peso que a guerra teve na nossa saga histórica contemporânea.
A Malásia e a Singapura estão, hoje, noutro patamar de desenvolvimento. Tiraram outro aproveitamento dos seus recursos. As suas gentes e a sua cultura permitiram-lhes uma transformação estrutural de tal sorte que presentemente são países desenvolvidos e referências em determinados sectores.
Poderíamos ater-nos igualmente aos Emirados Árabes e a transformação dos últimos 40 anos. Porque não olhar ainda para o caso da China, que se tornou um actor incontornável no centro do mundo? E, por isso, voltamos ao início: E nós? Não saímos da potência?!
Muitas vezes, temos a tentação de ignorar as nossas próprias capacidades internas e sujeitarmo-nos as agendas terceiras cujos fins são inconfessos e os resultados redundam no que o Professor José Carlos de Paiva, na recente edição da revista de Estudos da Academia Angolana de Letras, considera ser “ilusões e consumo, mas congelando uma desmesurada parte da humanidade em níveis de pobreza inaceitáveis”.
Então, ao buscarmos perceber o que se passa em Africa para explicar o seu subdesenvolvimento, não podemos ignorar as causas longínquas e próximas dos níveis de pobreza, assinalando-se aqui a questão da escravatura, do colonialismo, da instabilidade política e também da má-governação (o que se consubstancia em corrupção e incompetência). Há em todos eles, actores endógenos e exógenos que não podem ser ignorados.
A semana passada houve, em Luanda, uma conferência Internacional sobre Liderança Assertiva. Um dos oradores foi o Professor e político Bornito de Sousa que apresentou vários testemunhos seus e experiências vividas em torno do que se considera liderança assertiva.
Foi para mim mais interessante pois que o Professor Bornito de Sousa, antigo Vice-Presidente da República, trouxe na sua reflexão uma abordagem muito oportuna para perceber os falhanços de muitos países africanos.
Ele elencou quatro factores absolutamente vitais: a instabilidade política e social, com peso para os conflitos; a questão das infraestruturas, de que me refiro aturadamente no meu livro “Pensar África” pois considero igualmente fulcral para o virar de páginas em termos económicos; mas também elencou os desafios ambientais e, por fim, a questão da segurança e soberania alimentar, uma vez que é inaceitável à dimensão territorial, à imensidão de recursos como a terra e água, depararmo-nos com tanta fome, ou noutros casos tanta dependência de bens alimentares que bem poderiam ser produzidos internamente.
No nosso caso, tenho defendido, um choque de crédito para aumentar a nossa produtividade agro-pecuária, das pescas e também industrial, impondo aos parceiros e empresários estrangeiros a necessidade de investirem na produção interna no lugar de esvaziarem os nossos cofres com tanta e humilhante importação de comida.
Mas a complexidade do tema, muitas vezes sucumbe em três outros factores: as lideranças, as instituições e a cultura. Tenho, por isso, me questionado intimamente sobre o quanto da nossa cultura, ou para também da nossa mentalidade tem vindo a condicionar o nosso desenvolvimento, comparativamente ao que se passou com os países asiáticos.
Ocorre então a existência de aspectos culturais profundos que vale a pena reflectir dado o seu impacto no desenvolvimento, com relevância para aspectos que se prendem com a mindset, ou seja, a forma como lidamos com os outros e o próprio universo, fazendo prevalecer muitas vezes o imediato, que dá lugar aos desvios ético-morais.
Se repararmos historicamente ao estágio de desenvolvimento de civilizações antigas como as do Egipto, do Gana, do Kongo ou dos Zulu então podemos perceber que ocorreu uma interrupção da História. Estaremos nós, africanos, perdidos, precisando de nos reencontrar?
Estaremos nós, hoje, incapazes de lidar com os vários fenómenos resultantes do contacto (violento) com outras civilizações e Povos, incapazes de lidar com o nosso próprio destino e por via disso colocando sistematicamente o outro como causador do nosso atraso, mas revelando a nossa incapacidade para sairmos das amarras em que nos encontramos?
Nota-se a precariedade das lideranças, a volatilidade das elites e a despreparação da população (o que não se limita a educação em sentido formal).
A minha abordagem aqui não é etnocêntrica ou racialista, como alguns esperariam. São factores importantes a considerar na equação, mas não são para já as determinantes.
As determinantes encontram-se em nós mesmos, africanos em geral e angolanos em particular, que temos uma dificuldade de abraçar o diálogo, de abraçar o consenso e rapidamente nos satisfazemos com o sectarismo e uma postura demasiado egocêntrica.
Nas palavras de Durão Barroso, nada se faz sem os homens, nada dura sem as instituições, de resto muito sustentadas por Daron Acemoglu e James Robinson, autores do best-seller Porque Falham as Nações, resultantes da fraqueza das instituições em diferentes dimensões.
A corrupção, o roubo e a pilhagem dos recursos naturais e financeiros só prevalecem por fraqueza das nossas instituições e do mind set instalado.
José Ramón Ayllón é autor dum bouquin interessante – Desfile de modelos, Análise da conduta ética – e ele considera “evidente que toda a cultura é relativa. Por isso, se alguém quer ser plenamente humano, não pode conformar-se com a sua cultura. É o que Platão nos quer dizer com a alegoria da caverna, onde nos representa como prisioneiros. Toda a cultura é uma caverna”.
Por isso, também aqui, alguns hábitos, costumes, posturas, pensamentos e comportamentos precisam ser revistos, reinventados sob pena de não conseguirmos sair da caverna que é o subdesenvolvimento.
Alguns dirão que estou a adoptar uma abordagem com soluções utópicas. Honestamente, não me parece mirabolante trabalhar uma mudança de mentalidades a todos níveis da sociedade, considerando o que é naturalmente normal e aceite no mundo moderno do século XXI.
Não é normal conduzir em sentido contrário ao do trânsito; não é normal assistir os passageiros de táxis a deitar todo o lixo para a rua; não é normal a cultura do roubo instalada; não é normal a cultura do medo e da bajulação; não é normal o nepotismo invadir as instituições; não é normal o desvio de medicamentos, livros e fundos públicos sob diversas formas para alimentar festejos de vaidade oca e bacoca; não é normal que queiramos a democracia e não sejamos democratas; não é normal o culto excessivo do materialismo fora de qualquer realização; não é normal apontar o dedo aos outros e termos dificuldades em reconhecer que o problema está em todos e cada um de nós e que, portanto, a solução passa por todos e cada um de nós.
Materializar a carta de Direitos fundamentais dos cidadãos é uma obrigação do Estado, sem que tenhamos de depender deste para existir. O Estado cumprir o seu papel não é assistencialismo. É a sua natureza. Mediante uma abordagem de lideranças e de instituições inclusivas, agregadoras e que fomentam o crescimento e não a dependência degradante e humilhante como se vê inúmeras vezes em África onde os povos sobrevivem ao lado de recursos em exploração por multinacionais estrangeiras.
Vem da própria cultura africana a valorização do nós, assente nos ideais da comunidade, mas não se percebe em que medida encontramos uma ampla dificuldade em abraçarmos os ideias do ubuntu, válidos nas famílias, nas comunidades em sentido mais amplo, nos Estados e Nações, mas também para a própria unidade africana, de modo a evitar a linha de conflito entre a República Democrática do Congo e o Ruanda ou agora também entre a Etiopia e o Egipto.
Africa, quo vadis!
*Jornalista