O Cardeal da paz e da profecia – Manuel Rui Monteiro
O Cardeal da paz e da profecia - Manuel Rui Monteiro
Alexandre do Nascimento

Hoje, fica difícil escrever. As mãos tremem. Os olhos molham-se de erros por não termos dado atenção à palavra simples, de um homem simples: paz!

O dia estava a acordar naquele sabor amargo do tiroteio absurdo que ninguém podia afirmar quem é que estava a fazer fogo e contra quem.

Ali no bairro do Saneamento, extensão residencial do palácio colonial estávamos reunidos na casa que escolhêramos para Agostinho Neto. Um camarada segurança trouxe a mensagem. Alexandre do Nascimento estava lá fora e queria falar.

Neto chamou Lúcio Lara e a mim para irmos lá fora atender a visita. Eu ainda fiz piada para Lúcio, “está sobrar pra mulatos.” Lúcio fez um esgar e cofiou o bigode como fazia sempre.

Faça favor de entrar aqui para uma sala.

Não. Muito obrigado e que Deus vos abençoe. Venho-vos falar em nome de todos os que deram a vida pela nossa terra. Vocês no governo discutem, eu sei, andam armados, para quê? As armas são para matar. No governo discutem. Não conversam. Tudo por causa do poder. Esse governo não vai a sítio nenhum. Até chamam ao corredor do palácio o corredor da morte. Peço-vos que é um erro não se juntarem todos para organizarem a paz. Não vos quero ver ricos nem pobres mas remediados, sem a ganância dos diamantes ou do petróleo mas com a felicidade familiar, com o riso das crianças e a alegria dos pezinhos dos bebés. Oiçam a palavra de Deus. Este tiroteio é do inferno. Um dia, mais tarde, depois de tudo destruído vamos cantar a tristeza da morte e do ódio. Tomem atenção. Eu admiro Agostinho Neto. Estudei direito na Faculdade da Universidade de Lisboa. Granjeei amizades de colegas de esquerda, anticoloniais. Tive os meus cuidados para não me expor às garras do colonial fascismo. E estou aqui a pedir. A rezar pela paz. Paz para todos, mesmo para os ateus ou agnósticos como agora se chamam.

Mas entre, por favor, temos aqui uma sala para conversar e depois quatro camaradas armados vão acompanhá-lo.

Não. Obrigado, Lúcio Lara. Transmitam a Agostinho Neto. A paz. Obrigado.

Tinha começado a chuviscar naquela manhã massacrada pelo tiroteio. Eu e Lúcio Lara, ficámos na escadaria a ver Nascimento seguir a pé com as mãos no terço até virar à esquerda.

Fiquei a olhar para o Lúcio. O Lúcio a olhar para mim. Qualquer coisa mexia nos nossos corações. Não era uma flor.

Alexandre do Nascimento tinha bom humor. Um dia, em Lisboa, descendo a avenida da Liberdade, olhei para o outro lado e gritei ó Cardeal!

Atravessei para o outro lado. Abraçámo-nos e fomos descendo e conversando. Íamos regressar no mesmo voo para Luanda.

Dentro do avião anunciaram uma pequena avaria. Eu fiz humor. “Cardeal, a maka é consigo“.

Toda a gente se riu. Quando o avião arrancou ele virou-se para mim, mão esquerda fechada e passou-me um terço que meti no bolso.

Todos os dias, de manhã cedo, Nascimento vinha do fundo da rua, ali na Samba, parava no portão e conversava com minha mãe, coisas simples, perguntava sempre pelo Rui, que era eu e assim ele me chamava.

O Cardeal não era um homem comum. Estava muito em cima, perto do céu. Porque entendia a paz como a espiritualidade ancestral, não era só parar as armas, mas a busca interior da paz de cada um.

Mas, para além disso foi um profeta quando nos avisou do que ia acontecer depois e aconteceu: matarmo-nos uns aos outros em vez de conversarmos.

Tinha muita coisa para falar de Nascimento, o cardeal Alexandre do Nascimento, orgulho da nossa terra, pacifista e profeta.

Nada mais celestial de que eu, não religioso, lhe pedir. Sim, deixe-me tocar a sua mão. Peço a sua bênção!

*Escritor e jurista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido